Tive mais de 10 tentativas de suicídio, diz ex-jogador inglês que denunciou escândalo de abuso sexual no futebol

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Image caption Em visita ao Brasil, Woodward defende a importância de falar sobre o tema para estimular mais denúncias por aqui

Andy Woodward tinha 9 anos de idade quando assistiu àquela seleção brasileira do jogo bonito impressionar a todos na Copa do Mundo de 1982. Com os olhos vidrados na TV, ele via Zico, Sócrates e companhia encantarem o mundo com a bola nos pés. "Eu quero ser que nem eles", dizia ao pai.

Jogando ainda na infância pelo time do bairro onde morava na Inglaterra, ele foi 'garimpado' por Barry Bennell, que o levou para jogar pelo Crewe Alexandra, em Cheshire (Inglaterra) quando ainda era adolescente. Algum tempo depois, viu seu sonho de se tornar jogador de futebol desmoronar em um trauma que não sairia da sua vida nunca mais: Andy foi abusado sexualmente por Bennell dos 11 aos 15 anos de idade.

Durante esse tempo, ouvia ameaças do técnico. "Se você falar para alguém, vou arruinar sua carreira. Posso te matar também, você sabe." Andy Woodward cresceu assim, com medo, e diz que sentia como se Bennell tivesse o controle de sua vida, mesmo quando o treinador já não estava mais no mesmo clube que ele.

"Quando eu fui abusado, sabia que havia pelo menos mais 7 no meu time que eram abusados. Eu sabia que isso acontecia com eles, eles sabiam que isso acontecia comigo. Mas eu não falei com eles sobre isso, nem eles comigo. Nós ficamos em silêncio. Porque não nos sentíamos seguros. Era como se ele (abusador) tivesse controle sobre nós", disse em entrevista à BBC Brasil.

O convívio de Andy com Bennell foi além do futebol - o ex-técnico entrou na família de sua vítima.

"Bennell começou a namorar a minha irmã. Eles se casaram. Eu disse para ela que ela não deveria fazer isso, mas não consegui dizer por quê. Tive que assistir ao meu abusador se casando com a minha irmã" contou Andy Woodward.

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Image caption Andy Woodward jogava na defesa e afirma que os abusos o traumatizaram e arruinaram sua carreira

A pressão sobre o então jogador piorou quando o casal teve o primeiro filho - um menino. "Ele festejou quando nasceu meu sobrinho. Foi isso que me fez denunciar. Quando meu sobrinho fez 8 anos, eu percebi que precisava escolher entre a vida dele e a minha carreira, porque ele seria a próxima vítima - e eu tive que escolher meu sobrinho."

Bennell foi condenado pela primeira vez em 1994 por abuso sexual nos Estados Unidos, mas depois seria julgado por outras dezenas de acusações na mesma linha que surgiram no Reino Unido - incluindo a de Andy - e hoje acumula uma pena de mais de 30 anos na prisão.

"Ele arruinou minha vida. Eu tive problemas gigantescos de relacionamento, tive quatro casamentos, tive inúmeros problemas na minha vida adulta. Minha carreira acabou. Eu tentei o suicídio pelo menos umas 10 ou 15 vezes. E não consegui falar sobre isso até os 27 anos - tem gente que passa a vida sem conseguir, que leva esse segredo para o caixão", desabafou Andy.

Pode parecer um caso extremo, de crime bárbaro e raro no futebol. Mas o hoje ex-jogador britânico garante que o abuso sexual no esporte mais popular do mundo é muito mais comum do que se pode imaginar - um assunto que ainda é um tabu gigantesco silenciado pelo medo que os atletas têm de falar qualquer coisa e arruinarem suas carreiras por isso.

Andy Woodward fez a denúncia contra Bennell aos 27 anos, mas só dois anos atrás, quando tinha 42, conseguiu falar sobre isso em público e se tornou um ativista pelo combate ao abuso sexual no futebol. Foi para isso que ele esteve no Brasil nesta semana, para participar de um evento promovido pelo Sindicato dos Atletas do Estado de São Paulo sobre a campanha "Chega de Abuso", que tem por objetivo conscientizar jogadores e incentivar as denúncias desses casos no futebol.

Tabu

Depois que Andy Woodward falou publicamente sobre o que sofreu, dezenas de ex-jogadores britânicos também revelaram terem sido vítimas de Bennell ou outros técnicos naquilo que se tornou o maior escândalo de abuso sexual da história do futebol inglês.

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Image caption Andy e outros ex-jogadores que denunciaram abusos no futebol britânico - eles fundaram a The Offside Trust, uma organização que visa combater o abuso sexual no esporte

Os casos não são isolados, mas o tabu em torno do futebol faz com que eles sejam silenciados e nunca venham à tona. O medo de ver a carreira acabando e o sonho desmoronando com uma eventual denúncia de um técnico ou empresário é algo que mantém os jogadores calados por muito tempo.

"O que você vê é que quando há um pedófilo, eles são muito inteligentes na maneira de agir. Não importa se é na Inglaterra ou no Brasil, os pedófilos agem no futebol de uma maneira muito inteligente", disse Andy.

"Eu era um menino vulnerável, mais quieto. Primeiramente ele identificou essa característica. Aí ele conquistou meus pais, indo até a casa deles e dizendo que eu era um excelente jogador, que tinha um futuro brilhante. E me convidou para ficar na casa dele, dizia que estava apostando na minha carreira, que iria trabalhar comigo nisso. Duas semanas depois, tudo começou", contou.

Casos no Brasil

Se na Inglaterra, os casos de abuso sexual no futebol começaram a surgir agora, no Brasil eles ainda são bastante ocultos. Não há estatística oficial de denúncias ou de condenações e quase ninguém fala publicamente sobre isso. Na semana passada, porém, um caso denunciado envolvendo o coordenador das categorias de base do Santos chamou a atenção - Ruan Petrick Aguiar de Carvalho, de 19 anos, acusa Ricardo Criveli, conhecido como Lica, de ter abusado sexualmente dele quando o levou para o Santos aos 11 anos de idade.

O Santos afirmou, por meio de nota, que "vai contribuir plenamente para as investigações em andamento. Tão logo soube do caso, Lica foi afastado pelo Comitê de Gestão do Clube e assim se manterá até que as autoridades competentes finalizem seu parecer."

Para Andy Woodward, o fato de o futebol ser muitas vezes "a única esperança" dos garotos no Brasil, que em sua maioria têm uma origem humilde e apostam nele para uma mudança de vida, faz com que o poder que os abusadores detêm sobre os atletas aqui seja ainda maior. Se os casos não surgiram ainda, é porque o medo de jogarem fora esse sonho ainda prevalece sobre as vítimas.

Image caption Ex-jogador britânico falou pela primeira vez publicamente sobre o abuso que sofreu em 2016

"O futebol dá poder para aquele técnico que comanda aquele time, e ele tem o controle. Esse controle é maior do que em qualquer outro setor, porque o futebol, especialmente no Brasil, é o sonho de todo garoto, é a única esperança deles. Esse poder dos abusadores sobre uma criança é imenso e eles sabem que têm controle sobre aquele menino, porque eles controlam o sonho dele", afirmou Andy.

Além disso, o ex-jogador ressalta que há um "estigma" preconceituoso com a homossexualidade no futebol e isso silencia ainda mais os meninos que são vítimas desse tipo de abuso.

"Acho que na sociedade em geral os meninos vão achar mais difícil falar, porque meninos são ensinados a esconderem suas emoções. E há um elemento no futebol: esse é um jogo para homens, como eu posso falar sobre abuso? Por isso que foi importante pra mim falar sobre isso, mostrar que eu era um jogador de futebol e passei por isso e está tudo bem, então você pode se sentir à vontade para falar."

Por tudo isso, Andy defende a criação de um "ambiente seguro" para os jogadores poderem denunciar sem medo de sofrerem represálias - uma ouvidoria anônima nos clubes ou nas federações, por exemplo, que pudesse registrar e apurar as denúncias.

Combate aos abusos

No Brasil, ainda há bastante resistência por parte dos clubes em falarem abertamente sobre esse assunto. Mas as coisas têm mudado nos últimos anos. No próprio Santos, há uma abordagem sobre educação sexual e abuso com as categorias de base por parte da assistência social do clube.

"A sexualidade no Brasil ainda é um tabu, tudo o que se fala sobre isso é uma quebra de paradigmas. Mas nosso trabalho é orientar esses meninos como medida protetiva para que eles saibam discernir o que pode e o que não pode fazer com o corpo deles. E reforçar que, para eles se tornarem atletas, não precisam passar por isso", disse à BBC Silvana Trevisan, assistente social da base do Santos (categorias sub-11 ao sub-23).

Outro trabalho que tem sido feito em alguns clubes é uma palestra promovida pelo Sindicato dos Atletas de São Paulo para debater o tema do assédio, abuso e exploração sexual no futebol. Quem fala sobre o tema é o ex-jogador Alê Montrimas, que começou a carreira na Portuguesa e passou por times do interior paulista antes de encerrar a carreira em 2011. Ele conta que foi vítima de assédio sexual em diversas equipes ao longo da carreira e, ao encerrá-la, decidiu falar sobre isso para quebrar alguns tabus.

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Image caption Andy Woodward veio ao Brasil e falou para jovens de categorias de base de alguns clubes daqui sobre os abusos que sofreu

"Em uma ocasião, eu estava num carro com mais 4 jogadores, eu no banco da frente, e o cara que estava conosco veio passar a mão em mim. Era um cara muito rico, levava a gente para comer em lugar legal, fazia agrado, era do meio do futebol. Eu tinha 17 anos, já tinha consciência que era errado, eu poderia ter tido várias reações. Mas na hora eu congelei", contou.

Alê conta que esse "método" usado por abusadores para atrair meninos aspirantes a jogadores de futebol é muito comum e considerado "normal" no meio. "Às vezes oferecem comida, às vezes é chuteira, às vezes é uma vaga no time".

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Image caption Sindicato dos Atletas criou camapanha 'Chega de Abuso' para combater o problema no futebol brasileiro; Alê Montrimas diz que 'assédio é prática considerada normal no futebol brasileiro'

Hoje, Alê já visita dezenas de clubes do Brasil para falar com meninos das categorias de base sobre isso e orientá-los. "Nosso principal objetivo é mostrar para eles que isso não é normal. Não tem que passar por isso para atingir o sonho de ser jogador", afirmou.

O objetivo de Andy Woodward ao falar abertamente sobre os abusos que sofreu é exatamente o mesmo que o de Alê: os dois acreditam que falar sobre isso é a melhor maneira de estimular denúncias e combater o problema.

"Falar sobre isso mudou minha vida. Eu me sinto mais forte agora e consigo falar e mostrar que sobrevivi. Não tem sido fácil, mas eu acredito que estou aqui por um motivo, e esse motivo é mudar a realidade para essas crianças para que elas não tenham que passar pelo que eu passei", concluiu o ex-jogador britânico.

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