Brexit, custo de vida e 'sangue azul': BBC Brasil responde questões dos leitores sobre o Reino Unido

Parorama de Londres
Image caption Londres é um relevante centro financeiro mundial e uma das dez cidades com o custo de vida mais alto do mundo

No final de outubro, perguntamos o que você gostaria de saber sobre o Reino Unido e os britânicos.

Recebemos um grande número de perguntas com curiosidades diversas, que incluem desde a origem do tradicional chá das cinco tomado por muitos britânicos até as complexidades envolvidas em torno do Brexit, a decisão de deixar a União Europeia, tomada em plebiscito no final de junho.

Para tentar atender ao maior número de leitores possível, resolvemos agrupar as perguntas enviadas por temas e submetê-los à escolha pública, que, assim, poderiam decidir qual assunto seria transformado em matéria da BBC Brasil.

Recebemos quase 2,9 mil votos, e o tema vencedor, com 859, foi o custo de vida no Reino Unido.

O tema será analisado abaixo, com destaque para assuntos levantados pelas perguntas enviadas. Mais oportunidades virão. Participe!

Qual é a situação econômica do Reino Unido?

Essa é uma pergunta complexa, justamente por causa da decisão do plebiscito sobre a União Europeia.

A vitória dos partidários da saída do Reino Unido do bloco político-econômico de 28 nações foi inesperada e criou um clima de incerteza na economia, ainda mais depois da decisão da Alta Corte de que o processo de retirada, previsto para levar alguns anos, precisará de aval parlamentar - o governo apelou para a Suprema Corte e uma decisão deverá sair em dezembro.

Mas o Brexit não teve impacto imediato direto na economia: o país registrou crescimento de 0,5% entre julho e setembro, superando a projeção de 0,3% feita por diversos analistas.

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Image caption Vitória do Brexit em plebiscito de junho criou clima de incerteza na economia britânica, apesar de resultado recente positivo do PIB

Só que diversos órgãos chamam a atenção para turbulências futuras. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por exemplo, reduziu recentemente de 2% para 1% a projeção para o PIB britânico em 2017.

Já o Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que o Brexit poderia derrubar a renda nacional em 5,6% até o final da década.

Outro alerta é o temor de que a saída da UE provoque uma fuga de investimentos do Reino Unido, sobretudo se Londres sair em desvantagem em algum acordo para continuar tendo acesso ao mercado comum europeu.

Em termos gerais, porém, a economia britânica vai bem: é a quinta maior do mundo, por exemplo. Tem o terceiro menor índice de desemprego entre os 28 países europeus (4,8%). A inflação, medida em setembro, foi de apenas 1%.

O quão alto é o custo de vida no Reino Unido?

É outra pergunta sem uma reposta direta, até porque não é simples explicar.

Estudos anuais volta e meia colocam Londres, por exemplo, entre umas das cidades mais caras do mundo para se viver - este ano, por exemplo, a revista The Economist pôs a capital britânica em sexto lugar, atrás de Cingapura, Zurique, Hong Kong, Genebra e Paris, mas à frente de Nova York. São Paulo, por exemplo, apareceu na 107ª posição.

Com toda a certeza, o custo de acomodação é um dos que mais pesam no orçamento de um londrino médio. A capital britânica sofre com um deficit de moradia - a procura supera em muito a oferta de residências, o que mantém elevado o valor dos imóveis e o custo do aluguel.

Mas como em qualquer cidade, os custos em Londres variam enormemente dependendo do local.

Em média, o preço de aquisição de um imóvel no centro de Londres é de cerca de 15 mil libras (R$ 64 mil) por metro quadrado, e quase metade desse valor se o imóvel estiver localizado fora da região central, segundo o site Numbeo, especializado em coleta de dados determinantes do custo de vida em centros urbanos.

Nos aluguéis de apartamentos de um quarto a variação é menor, 1,7 mil libras (R$ 7 mil) por mês na região central e 1,2 mil libras nos bairros.

As estatísticas do site indicam ainda que os londrinos gastam em média 2,50 libras por dia em transporte (R$ 11), 160 libras por mês em contas de água, luz, gás, telefone e internet e em torno de 100 libras por semana em alimentação.

Por outro lado, os salários médios (líquidos) na capital giram em torno de 1,6 mil libras (cerca de R$ 7 mil) por mês.

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Image caption Índice de desemprego no Reino Unido (4,8%) é um dos menores da Europa

Londres, porém, não é o Reino Unido, e o custo de vida diminui sensivelmente para quem vive fora da cidade.

Estudos citados pela mídia britânica colocam o país em uma modesta 23ª posição em uma lista de lugares mais caros do mundo para se viver (o Brasil aparecia em 57º).

Só que isso não quer dizer que a vida é fácil. Segundo estatísticas oficiais, desde a crise mundial de 2008 o custo de vida britânico cresceu quatro vezes mais do que a média salarial do país.

Organizações de assistência financeira estimam que o salário anual necessário médio para alguém solteiro se manter no país fica na casa de 19 mil libras (R$ 80 mil).

O sistema de saúde britânico é realmente acessível a todos? Pessoas de alta e baixa renda usam os mesmos hospitais?

A resposta às perguntas de Diego Henrique Inácio é sim.

Criado em 1948, o NHS, a versão britânica do Sistema Único de Saúde brasileiro, foi o primeiro do mundo a oferecer acesso universal e o financiamento quase exclusivo por meio de impostos (98,8%). É gratuito para residentes no Reino Unido e considerado um motivo de orgulho para os britânicos.

Nos últimos anos, o NHS tem passado por problemas financeiros que têm afetado a qualidade do serviço, a ponto de um dos principais argumentos da campanha contra a permanência do Reino Unido da União Europeia ter sido a promessa de usar na área da saúde o dinheiro que seria mandado para o orçamento do bloco.

No entanto, pouco mais de 10,5% dos britânicos têm planos de saúde privados, de acordo com as mais recentes iniciativas. E isso significa, sim, que os hospitais públicos são usados por pacientes de diferentes perfis sociais.

Existe salário mínimo no Reino Unido?

Pelo menos dois leitores, Ailton Junior e Thiago Hedler, quiseram saber mais detalhes sobre a política de salário mínimo no Reino Unido.

O salário mínimo existe, mas se trata de uma garantia incrivelmente nova no país - enquanto ele foi regulamentado no Brasil em 1940, no Reino Unido ele só virou lei em 1998.

Também diferentemente do Brasil, ele é calculado por hora de trabalho e tem valores diferentes por faixa etária, variando de 4 libras por hora (R$ 17) para menores de 17 anos e 7,20 (cerca de R$ 30) para maiores de 25 anos - o valor integral equivale a aproximadamente R$ 30,50.

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Image caption Verba para a família real proveniente do contribuinte é de menos de R$ 3 por habitante

Como é o sistema de impostos?

O imposto de renda só incide a partir de rendimentos anuais superiores a 11 mil libras.

A alíquota básica é 20%, subindo para 40% no caso de vencimentos anuais superiores a 43 mil libras e para 45% no caso de quem ganha mais de 150 mil libras por ano. Além disso, há o VAT (Value Added Tax) de 20% incidente sobre a maioria dos produtos e serviços comercializados.

Quanto do imposto pago pelos britânicos é usado para sustentar a família real?

Essa interessante pergunta nos foi enviada por Amanda Soares de Brito.

Em junho deste ano, o governo britânico informou que, no ano fiscal 2015-16, a Coroa Britânica recebeu mais de R$ 160 milhões do contribuinte, o que significa dizer que cada habitante do Reino Unido contribuiu com 58 centavos de libra (cerca de R$ 2,50).

Mas o contribuinte não é a única fonte de receita dos Windsors, já que a atual soberana, Elizabeth 2ª, tem fortuna pessoal avaliada em mais de R$ 1,2 bilhão - e, apesar de estar no trono desde 1952, só começou a pagar imposto a partir da década de 1990.

As finanças da família real são um assunto complexo - as despesas com segurança, por exemplo, são absorvidas pelo Estado.

Nos últimos anos, diversas vozes na sociedade britânica defenderam uma reformulação do sistema de financiamento, especialmente depois da divulgação de despesas como o gasto de R$ 1 milhão para o aluguel de um jatinho para o herdeiro do trono, o príncipe Charles, comparecer ao enterro do ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela, em dezembro de 2013.

Defensores da família real afirmam que ela contribui para o soft power (influência cultural e ideológica) britânico, além de movimentar o turismo.

Qual é a maior fonte de riqueza do Reino Unido?

De acordo com o Escritório Nacional de Estatísticas (ONS, na sigla em inglês), o setor de serviços responde por quase 80% do PIB do Reino Unido.

Um dos destaques é a chamada indústria dos serviços financeiros, cuja participação, de quase 10% do PIB, quase supera a contribuição da manufatura no país, que foi berço da Revolução Industrial.

Londres é o maior centro financeiro da Europa - a cidade abriga diversos polos de importantes mercados onde são feitas negociações em nível mundial.

A cidade tem a maior bolsa de valores da Europa e a terceira do mundo, atrás apenas da de Nova York e da Nasdaq, o maior centro de resseguros do mundo, além de sediar grandes polos mundiais de negociação de diversas commodities, como petróleo, café, açúcar e metais diversos.

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