A bebê refugiada que comoveu a Itália após perder a mãe em naufrágio

Favour nos braços do médico Pietro Bartolo Direito de imagem Pietro Bartolo
Image caption Favour nos braços do médico Pietro Bartolo

A história de uma bebê nigeriana de nove meses emocionou a Itália e ganhou as manchetes internacionais nos últimos dias. Favour virou um novo símbolo da crise dos refugiados após ser resgatada de um barco no mar Mediterrâneo. Sua mãe, grávida, morreu no trajeto.

Na ilha de Lampedusa, já em território italiano, a criança recebeu os primeiros-socorros.

"Ela estava em bom estado de saúde. Um grupo de 20 mulheres tinha se revezado para tomar conta dela depois que sua mãe morreu", contou à BBC Brasil o médico Pietro Bartolo, sobre o resgate, na semana passada.

Responsável pelo único ambulatório da ilha, ele se tornou famoso depois de estrelar o documentário Fuocoammare, que ganhou o Urso de Ouro de Berlim deste ano ao narrar a crise dos refugiados.

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Foi Bartolo que, sem querer, levou Favour até a fama: uma foto sua carregando a criança se tornou um viral na internet. "Demos leite, comida, a lavamos, trocamos suas roupas. Ela era belíssima e serena, passou o dia comigo, não queria sair do meu colo, ficou bastante apegada", diz Bartolo.

Pai de três filhos, ele ainda se prontificou a adotá-la, mas Favour teve de partir com uma inspetora de polícia para Palermo, onde há uma estrutura especializada para abrigar recém-nascidos e bebês desacompanhados.

Ela agora aguarda decisão da Justiça. O telefone do ambulatório, porém, continua tocando: são dezenas de pessoas ligando para saber da bebê, enviar doações e se candidatar a adotá-la.

Mais resgates de crianças

A história de Favour, no entanto, não é a primeira - e nem a única. Do início do ano até agora, cerca de 7,7 mil crianças desembarcaram na Itália, das quais 6,8 mil sozinhas.

O número é três vezes maior do que o registrado no mesmo período de 2015, segundo a ONG Save the Children. No ano passado, um total de 16.478 menores migrantes e refugiados desembarcaram na Itália.

"Outro dia recebemos um menino de cinco anos com um grave caso de hipotermia. Ele foi trazido em um helicóptero da guarda costeira depois de ser resgatado no mar. Seu nome era Mustafa e tinha perdido a mãe e o irmão em um naufrágio. Foi um milagre ele se salvar. Agora está bem, também em Palermo", conta o médico Bartolo.

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Segundo ele, o problema não é falta de médicos ou de estrutura na Itália. "É preciso evitar que as pessoas arrisquem suas vidas no Mediterrâneo. Elas não deveriam sequer pensar ou poder embarcar em condições tão precárias, em primeiro lugar", afirmou.

ONGs locais, porém, alertaram que o sistema de recepção de menores na Sicília enfrenta graves dificuldades.

"Cerca de 120 crianças estão no centro de Pozzallo há um mês por causa da falta de espaço em outros locais", informou em comunicado a organização AccoglieRete, que assiste crianças e adolescentes desacompanhados na Sicília.

No porto de Augusta, 90 menores estavam sendo abrigados improvisadamente sob tendas de primeiro-socorros.

Em resposta à comoção pública que foto de Favour causou, o governo italiano anunciou nova parceria com o Unicef (agência da ONU para a infância) para o monitoramento dos centros de recepção de menores na Sicília e no sul da Itália.

Com a melhora das condições climáticas nas últimas semanas, uma nova onda de barcos cruzando o Mediterrâneo rumo à Itália está sendo registrada.

Já ocorreram quatro naufrágios e ao menos 400 mortes, incluindo a de 40 crianças, segundo a ONU. Cerca de 12 mil migrantes foram resgatados.

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