Bangladesh declara luto após ataque a restaurante; militantes visaram estrangeiros

Pessoas ajudam a socorrer feridos de ataque a café Direito de imagem AP
Image caption Cerco a restaurante em área nobre de Dacca durou quase 12 horas e deixou dois policiais mortos

Bangladesh declarou dois dias de luto nacional pelas vítimas do ataque a um café por militantes islâmicos em Dacca, capital do país.

O ataque deixou 22 mortos, a maioria estrangeiros. Dois policiais estão entre as vítimas e outros 30 ficaram feridos.

O ataque foi um sequestro de 12 horas, em que militantes islâmicos jovens e bem-vestidos pouparam a vida de funcionários bengalis do restaurante e visaram, sobretudo, estrangeiros, segundo relatos de sobreviventes.

Após um cerco que durou toda a noite de sexta-feira (1º) para sábado (2), forças de elite de Bangladesh resgataram 13 pessoas, matando seis dos agressores e prendendo um.

Os militantes chegaram a repelir com uma granada uma tentativa anterior de invasão durante a madrugada, matando dois policiais.

Nove italianos, sete japoneses, um cidadão americano, um indiano e dois bengalis estão entre os mortos no ataque. Um italiano está desaparecido.

O ministro do Interior de Bangladesh afirmou neste domingo que os militantes não pertenciam ao grupo autodenominado Estado Islâmico, mas a um grupo militante local, banido do país há mais de uma década.

"Eles são membros do Jamaeytul Mujahdeen Bangladesh," disse Asaduzzaman Khan à agência de notícias AFP. "Eles não possuem relação com o Estado Islâmico."

O EI mais cedo havia divulgado fotos dos supostos responsáveis pelo ataque em frente a uma bandeira do grupo.

Enquanto isso, novos relatos de sobreviventes vieram à tona.

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Image caption Tropas do Exército se mobilizaram em razão de ataque que deixou 22 mortos na capital de Bangladesh

Sete amigos italianos estavam em uma mesa, e três ou quatro em outra, disse o argentino Diego Rossini, chef de cozinha do café, ao jornal The New York Times.

Ele afirmou que estava a caminho da cozinha porque alguém havia acabado de pedir uma massa italiana, e um grupo grande de clientes chegaria às 21h30.

Mas às 20h45 de sexta-feira, horário local (11h45 em Brasília), os sete jovens militantes entraram no local, com granadas e rifles. O argentino Rossini fugiu para o telhado. Escutou gritos e a frase "Allahu akbar" (Deus é grande, em árabe).

"Havia muitos estrangeiros", disse Rossini ao Canal 5 Notícias, estação argentina de TV por assinatura. "Eram eles que particularmente procuravam."

"Ainda não acredito que isso aconteceu. Foi como um filme, eles apontando armas para mim e podia ver os tiros passando. Estava com muito, muito medo", afirmou o argentino, que escapou ao pular para outro prédio.

O primeiro-ministro da Itália, Paolo Gentiloni, disse que um italiano ainda estava desaparecido - as vítimas do país trabalhavam na indústria de vestuário.

O Japão disse que havia oito cidadãos do país no café - um está entre os 13 resgatados, mas os outros sete morreram. Todos eram consultores da agência de ajuda internacional do Japão.

Quem eram os agressores?

Um perfil dos agressores começa a ficar mais claro - seis estão mortos e um está sob custódia das autoridades bengalis e sendo interrogado.

Todos seriam de famílias de alto nível socioeconômico, e estudaram em escolas particulares e universidades, e não em seminários islâmicos onde grupos militantes costumam recrutar integrantes.

Supostos ex-colegas de turma dos agressores se manifestaram em redes sociais dizendo ter reconhecido os agressores a partir das fotos divulgadas pelo EI.

Barreiras policiais se espalharam pelo distrito de Gulshan, a sofisticada região diplomática de Dacca onde fica o Holey Café, alvo do ataque, e boa parte da cidade foi colocada em alerta.

Mas muitos moradores dizem que agora é tarde, e questionam como homens fortemente armados conseguiram entrar sem problemas no café em uma noite de sexta-feira.

O episódio parece mostrar que a violência de cunho radical islâmico que Bangladesh vive nos últimos anos atingiu uma nova e mais mortífera dimensão.

"Foi um ato extremamente abominável", afirmou o primeiro-ministro de Bangladesh, Sheikh Hasina, em declaraçao em rede nacional. "Que tipo de muçulmanos são essas pessoas? Elas não tem nenhuma religião."

"Meu governo está determinado a exterminar o terrorismo e a militância (radical islâmica) de Bangladesh", afirmou.

O jornal local Daily Star disse que os agressores torturaram quem não sabia recitar o Alcorão. Eles formneceram refeições apenas aos reféns que eram de Bangladesh.

Nos últimos três anos, mais de 40 pessoas morreram em Bangladesh em ataques atribuídos a militantes islâmicos. Mas os ataques visaram principalmente indivíduos - blogueiros seculares, escritores, ativistas, acadêmicos e membros de minorias religiosas.

Quem eram as vítimas?

Nove italianos, identificados pelo governo italiano como: Cristian Rossi; Marco Tondat; Nadia Benedetti; Adele Puglisi; Simona Monti; Claudia Maria D'Antona; Vincenzo D'Allestro; Maria Rivoli e Claudio Cappelli.

Seven japoneses, cinco homens e duas mulheres. Autoridades japonesas confirmaram quatro nomes: Koyo Ogasawara, Makoto Okamura, Yuko Sakai e Rui Shimodaira

Dois cidadãos de Bangladesh idetificados pela imprensa nacional como Faraaz Ayaaz Hossai, estudante da Universidade Emory, nos EUA, e Ishrat Akhond.

O americano Abinta Kabir, também estudante na Universidade Emory.

O indiano Tarishi Jain, de 18 anos estudante da Universidade da Califórnia, nos EUA.

Análise: Anbarasan Ethirajan, analista da BBC para o sul da Ásia

"O timing, o alvo e a mensagem do ousado ataque ao café Holey em Dacca não poderiam ser mais claros.

Militantes islâmicos atacaram no último final de semana antes do festival religioso islâmico de Eid al-Fitr. Dezenas de clientes estavam no local, popular entre estrangeiros e bengalis de classe média.

O distrito de Gulshan é uma região de alta segurança, considerada uma das mais seguras de Dacca. Várias embaixadas e organizações não-governamentais atuam na região, e centenas de estrangeiros e bengalis riocos moram ali.

O governo reforçou a segurança após um trabalhador italiano de auxílio humanitário ser morto por possíveis militantes islâmicos no ano passado. É difícil atravessar o distrito sem passar por um posto de segurança. Mas o ataque recente mostrou que nem Gulshan está totalmente seguro.

O ataque ao café teve outra escala, e parece ter sido bem planejado e coordenado."


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Image caption Policial ferido após ataque a café; governo de Bangladesh sempre negou a presença do Estado Islâmico no país, diz ex-correspondente da BBC
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Image caption O sequestro começou enquanto os clientes do café se reuniam para as refeições após o jejum diário mantido durante o Ramadã