O drama silencioso da mutilação genital feminina na Colômbia

Mulheres Embera Direito de imagem NATALIO COSOY/BBC MUNDO
Image caption Mulheres embera participam de um encontro para trocar experiências sobre mutilação genital feminina

"Vou te contar uma história das margens do rio Garrapatas", me disse Laura (nome fictício)*.

A história começa com o nascimento de uma menina, o oitavo bebê de uma mãe da mesma localidade em que vive Laura, uma indígena da tribo emberá, da Colômbia.

"Ela viu o que as parteiras faziam", explica. "E fez sozinha: cortou com uma tesoura o clitóris do bebê, e começou a jorrar sangue".

Laura lembra que, no desespero, a mulher não contou ao marido o que tinha feito. Em vez disso, disse que a pequena havia nascido doente. "Coisa de espíritos", afirmou.

Eles caminharam dois dias para tentar curá-la no cânion do Garrapatas, no limite dos Estados de Valle del Cauca e Chocó, no oeste colombiano, uma zona remota e de difícil acesso. Mas não tiveram como salvar a criança.

"A bebezinha morreu assim, jorrando sangue, com hemorragia."

Cura e mutilação

A mulher não pensava em causar danos à filha. Pelo contrário: acreditava que estava fazendo bem ao bebê, uma "cura" - ou "corte do calo", nomes pelos quais o procedimento, do qual homens não participam, é chamado entre as indígenas.

Na cultura ocidental, a mutilação genital feminina (MGF) é severamente questionada.

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Image caption Em certas comunidades embera já não se pratica a mutilação

Tanto que o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), organismo da ONU responsável por questões populacionais e que trabalha para erradicar esse tipo de procedimento, o classifica como "internacionalmente reconhecida como uma violação dos direitos humanos".

Na legislação colombiana, a morte consequente de uma mutilação genital está contemplada na lei do feminicídio de 2015.

"Quando nasciam, amarravam as perninhas, compravam uma gilete... as meninas nascem com uma coisinha assim (representa a vulva com a mão e com um dedo o clitóris), então cortavam isso. Hoje em dia não pode, dá cadeia", conta Irene Guasiruma, uma anciã da comunidade de Wasiruma, no Valle del Cauca.

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Image caption Irene Guasiruma sofreu a mutilação quando era bebê

Ela conta isso sentada na porta de uma das casas do vilarejo, rodeado por montanhas onde se cultiva café e abacate e onde vivem cerca de 40 famílias.

Dona Irene saiu mais cedo para ver os grãos de seu pequeno cafezal e voltou dizendo, em tom reflexivo: "Não tenho isso, não tenho nada, tenho limpo. Como se chama isso? (não consegue pronunciar a palavra clitóris e ri, com pudor, ao escutá-la). Isso, isso não tenho".

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Image caption Irene vive em área com cafezal, cercada por crianças
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Image caption Cultivo de café sustenta toda a vizinhança

Em 2007, as mortes de duas meninas no Estado de Risaralda, no centro do país, chamou a atenção do país para a prática da mutilação genital feminina entre os índios emberá. Desde então, as autoridades e organismos internacionais tentam conscientizar os indígenas da região.

Eles visitaram uma comunidade em que as mulheres não tinham uma palavra para denominar o clitóris. Quando apontaram o local no desenho de um corpo feminino, disseram: "dor".

E eu pergunto à anciã Irene se ela já praticou a mutilação.

"Não, eu nunca assassinei meninas. Pobrezinhas, como alguém vai cortar isso? Minha mãe gostava de cortar as meninas, mas nunca matou ninguém, cortava de forma perfeita."

Algo peculiar

Um pouco antes dessa conversa, ela estava sentada com mais de uma dezena de crianças ao seu redor e contando histórias tradicionais, como a da menina que virou sereia.

Os mais idosos cumprem um papel essencial na comunidade emberá, são sua memória viva, e referência para os mais jovens, inclusive líderes, conselheiros e governadores, que vêm até eles para pedir conselhos e tomar decisões de acordo com o que diz o conhecimento tradicional.

No geral, os idosos são médicos tradicionais, e as idosas, como Irene, botânicas.

Durante nossa visita, um médico tradicional do mesmo vilarejo e outro homem jogavam água misturada com diferentes plantas sobre as pessoas que entravam em uma casa - o objetivo era "limpá-los" de espíritos negativos.

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Image caption Irene é responsável por fazer os costumes perdurarem
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Image caption Antes de entrar em casa, todos deviam passar por "ritual de limpeza"

Era um encontro para falar sobre a mutilação entre os emberá - participaram homens e mulheres dessa e de outras tribos indígenas, assim como representantes do Estado e da ONU.

Mas algo particular aconteceu nesse evento. Em uma das últimas palestras do dia, uma anciã de outra tribo, Blanca Lucila Andrade, deixou todos perplexos ao admitir que não somente ela havia sido submetida à mutilação genital, como que também tinha realizado o procedimento em suas quatro filhas e netas.

Blanca não é emberá, mas da tribo nasa, do Estado do Cauca. Basicamente, ela acabava de derrubar a teoria de que a prática havia sido erradicada entre os seus. E falava com um espírito de resistência.

Mulher pequena e forte, elegante em seus trajes e chapéu tradicionais, ela conversou comigo depois da apresentação.

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Image caption Blanca Lucila Andrade revelou que os Nasa ainda praticam a mutilação

"Agora, quando uma família me diz que quer que eu faça, eu faço; mas se me dizem eu não querem, não faço. É uma coisa rara. Mas nunca sangram quando eu faço", diz ela, que atua como parteira tradicional.

Ela já tinha sido advertida de que se trata de um procedimento nocivo - o que, aliás, a deixou "surpresa".

Mas claramente a prática não acabou nem entre os nasa nem entre os emberá.

Recentemente foram reportados outros dois casos de meninas emberá que apresentaram infecções generalizadas por causa da mutilação.

Consequências

"As consequências físicas mais frequentes são as infecções localizadas. É uma região (do corpo) coberta e úmida, onde não se fazem curativos", explica Leonardo Quinteros Suárex, do Instituto Nacional de Medicina Legal da Colômbia.

"Também podem ocorrer sangramentos longos, que provocam perda massiva de sangue e podem levar à morte."

As sequelas podem afetar a vida cotidiana das meninas e mulheres e complicar partos.

A maioria dos casos desse tipo de mutilação ocorre na África e no Oriente Médio, onde, até 2008, mais de 140 milhões de meninas e mulheres haviam sofrido algum procedimento do gênero.

A ONU estima que, a cada ano, 3 milhões de meninas correm o risco de ser mutiladas e morrer por consequência disso em todo o mundo.

Na América Latina, há registros informais da mutilação em grupos indígenas - e alguns de ascendência africana - de Brasil e Equador até o México, ainda que se acredite que na maioria deles a prática tenha sido erradicada ou desaparecido.

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Image caption Da mutilação entre os embere, só podem participar a mãe, a avó e a parteira

Mas não entre os emberá, a segunda maior tribo indígena na Colômbia - são cerca de 250 mil índios -, uma nação que chega às fronteiras do país com o Equador e o Panamá. A ONU está investigando a possibilidade de existirem casos também nesses países.

"Dizem que eles fazem com uma tesoura ou uma gilete, ou queimam com uma colher - a esquentam no fogo e vão machucando para chamuscar o clitóris da menina", descreve Laura sobre a prática na comunidade emberá (principalmente entre os emberá Chamí).

Outras pessoas me contaram que o corte pode ser feito com a folha afiada de uma planta, e há parteiras tradicionais que dizem fazer a "cura" simplesmente colocando plantas na região da vagina.

Estimativas apontam que duas em cada três mulheres emberá Chamí sofreram a mutilação. Os dados não são confirmados nem oficiais.

'Como assim, vocês não fazem?'

Em 2007, quando os casos de Risaralda vieram à tona, muitos criticaram os emberá, em especial as parteiras tradicionais, geralmente encarregadas de realizar a mutilação.

Isso acabou causando muita confusão entre eles, que acreditam que a vida é sagrada. Não conseguiam entender como algo que supunham ser benéfico poderia causar a morte.

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Image caption Também é tradição emberá a pintura típica no rosto de meninas e mulheres, que vai mudando na medida em que elas crescem, se casam ou ficam viúvas

"O principal desafio é que essa é uma prática tradicional, e muitas comunidades acreditam que não é maléfica", resume Jorge Parra, representante do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) na Colômbia.

Para os emberá, é um parâmetro de normalidade. Quando uma funcionária do governo foi falar com as mulheres da comunidade, a primeira pergunta que lhe fizeram foi: "Como assim, vocês não fazem?".

Em 2007, órgãos do Estado e entidades internacionais chegaram a considerar se seria o caso de tirar as meninas que haviam sido submetidas à mutilação de suas mães e entregá-las a uma entidade encarregada de cuidar de crianças.

Com isso, surgiu o risco de a comunidade se fechar em si mesma, ou seja, o risco de que uma já prática silenciosa ficasse ainda mais ocultada por medo do escárnio público, de perder suas filhas ou até mesmo da prisão.

Por que fazem isso?

Há várias explicações sobre as razões de os emberá e os nasa praticarem a mutilação feminina, mas fundamentalmente se acredita que a prática poderia eliminar o desejo de uma mulher de estar com outros homens que não sejam o marido.

"Assim, ela se torna uma mulher que será aceita pelo homem que se converta em seu esposo", explica Irene Guasiruma.

"Por isso, anteriormente cortavam essa coisinha, porque se a mulher não tem isso, não tem nada de fogosa, não fica excitada", disse.

Mas ela logo assegura: "Pura mentira, até quando se tem isso cortado também se busca outro marido, se troca de marido".

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Image caption Dar poder e voz às mulheres é chave para avançar na erradicação da mutilação, de acordo com Esmeralda Ruiz, especialista no tema.

Entre os emberá, existe ainda a crença de que o clitóris pode crescer e se converter em um pênis.

Tanto que, para demonstrar que isso não ocorria, uma enfermeira do hospital de Mistrató, em Risaralda, reuniu um grupo de parteiras emberá, ficou nua e lhes mostrou o próprio clitóris como prova.

A origem

De acordo com o historiador Victor Zuluaga, há três versões sobre a origem dessa prática.

Por um lado está a ideia de que se trata de uma prática ancestral da comunidade; por outro, que foi introduzida por um grupo de monjas no início do século 20; e, finalmente, que foi algo que os indígenas adaptaram dos escravos negros muçulmanos que vieram de Mali no século 18.

Zuluaga está convencido de que a última hipótese é a mais provável.

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Image caption O líder emberá Alberto Guasiruma pede ao Estado colombiano para que a comunidade possa debater o tema internamente

"É uma teoria bastante consistente", diz Esmeralda Ruiz, consultora da UNFPA sobre temas de mutilação.

Os defensores dessa teoria acham que, ao esclarecer que não se trata de um costume ancestral da própria tribo, seria mais fácil abandoná-lo.

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Image caption O historiador Zuluaga Gómez diz acreditar que práticas como a mutilação foram adotadas dos escravos

"Se as parteiras tradicionais acreditam que é da cultura da tribo elas, não vão abandonar a prática. Mas se entendem que não é originária da cultura delas, vão dizer: 'ah então podemos deixar de fazer, não tem problema'", disse Ruiz.

Mas em qual dessas teorias os emberá acreditam?

Depende da zona onde vivem, da idade e de quão arraigada está a convicção de que se trata de uma prática tradicional.

Alberto Guasiruma, conselheiro ancião da Organização Regional Indígena do Valle del Cauca, explica que neste momento há uma discussão sobre essa ser uma prática que deve ser abandonada ou mantida.

Ele pede ao governo colombiano que as intervenções sejam feitas com base em reflexões internas da própria comunidade.

"É um tema que requer muita reflexão, porque não é uma decisão fácil de tomar. Creio que não é uma decisão das autoridades, mas da comunidade em seu conjunto. E a última palavra é dos anciões. É um tema muito mais das mulheres, de como elas se sintam melhor".