Há mais de 100 mil crianças como Omran em Aleppo, diz correspondente da BBC

  • 18 agosto 2016
Crianças em Aleppo Direito de imagem AFP
Image caption Cerca de 100 mil crianças estão cercadas em Aleppo

A situação de Omran Daqneesh, de 5 anos de idade, não é exceção na cidade de Aleppo ou mesmo na Síria. Então, por que sua imagem, dentro de uma ambulância, tocou a tantas pessoas ao redor do mundo? A pergunta foi feita à correspondente da BBC Lise Doucet e ao fotógrafo Muhammed Muheisen, da agência Associated Press (AP), ambos com vasta experiência na cobertura do Oriente Médio e da guerra na Síria.

Imagens semelhantes, ponderaram, surgem diariamente de vítimas de ataques perpetrados pelos diferentes lados do conflito. No entanto, esta conseguiu retratar o horror da guerra de uma forma pungente. "A imagem assombra. É uma criança sem esperança, sozinha. Conta uma história completa. E as crianças são as verdadeiras vítimas da guerra", disse Muheisen à BBC.

"Este é o poder da fotografia. Alcançar o coração das pessoas. Começam a se sentir conectadas. Se tenho um filho, olho para a foto e para o meu filho e penso: tenho sorte de estar vivo". Esse é momento em que o Jornalismo pode cumprir seu papel, acrescentou o fotógrafo.

Omran, com seus cinco anos de idade, o mesmo tempo de duração da guerra civil no país, simboliza toda uma gerção de crianças que nunca conheceram o que é viver em tempos de paz. Em um relatório publicado em março, o Unicef estimou que uma em cada três crianças no país - não conhecem outra realidade além do conflito.

Direito de imagem Reuters
Image caption Omran agora passa bem. Foi resgatado de escombros após bombardeio

Os dois profissionais compararam também o impacto desta foto com o gerado pela imagem trágica do menino Aylan Kurdi, de apenas três anos, morto em uma praia após tentar cruzar o Mediterrâneo para escapar da guerra com a família. "Como daquela vez, temos agora uma janela de oportunidade", disse Doucet, referindo-se à pressão do público para uma solução.

"Há mais de 100 mil crianças como Omran, vivendo diariamente as circunstâncias punitivas da vida em Aleppo (referindo-se ao total de crianças nas áreas sob controle rebelde na cidade)", disse Doucet.

"Vemos agora um tsunami de reações de choque, alarme e tristeza nas redes sociais. Mas o que tem de mudar mesmo é a situação dentro do país, e este será o grande teste para a diplomacia. Isso que é necessário para acabar com a dor dele, mas também de outros", afirmou, acrescentando que uma decisão está nas mãos de Washington e de Moscow.

Muitos sírios já desistiram da ideia de paz no seu país - como se pode ver pelo grande número de migrantes arriscando a vida na tentativa de chegar à Europa. "Eles falam sobre a Síria como um lugar para morrer e não para viver", diz a correspondente.

"Mas para os sírios que ficaram, ainda há esperança. Eles se apegam a qualquer fio de esperança na esperança de que algo aconteça."

Direito de imagem Twitter/Reprodução
Image caption Internautas usaram imagem do menino para pedir ação por parte das grandes potências em relação ao conflito

Recentemente, autoridades russas vêm sugerindo a possibilidade de um acordo sobre como gerenciar Aleppo. A cidade está no meio do fogo cruzado entre rebeldes e forças do governo Bashar al-Assad.

Primeiro, o lado leste de Aleppo - controlado por rebeldes - foi sitiado pelas forças do governo. Depois, o oeste - controlado pelo governo - foi sitiado pelos rebeldes. Ambos os lados estão adotando essa tática, e são os civis e as crianças que pagam o preço.

Até quando?

O secretário de Estado americano, John Kerry, e o chanceler russo, Sergei Lavrov, têm se reunido há meses para discutir a situação na Síria.

Na quinta-feira, o enviado da ONU indicou que já decorreu tempo suficiente e chegou interromper uma reunião sobre ajuda humanitária em Genebra pela frustração de nenhum dos lados dar sinais de que os ataques seriam interrompidos.

Para Doucet, "muitos já se perguntam se Aleppo, como a guerra síria, está se tornando uma guerra sem fim".

"No início deste ano, uma suspensão de hostilidades trouxe relativa tranquilidade para a Síria, e as vidas de muitos foram poupadas", ela lembra. Agora, os combates recrudesceram.

Não somente as duas superpotências, Rússia e EUA, precisam concordar em parar as hostilidades na Síria. Também o Irã e os países do Golfo.

Com apoio da Rússia, o Irã está intensificando seus bombardeios a Aleppo, e os países do Golfo estão armando os rebeldes, que dessa forma avançam sobre as forças do governo.

"Todas estas guerras paralelas estão alimentando o conflito, e civis sírios de ambos os lados estão pagando o preço."

Direito de imagem AFP
Image caption Bombardeios fazem parte do cotidiano de Aleppo