O 'sobrevivente designado': a pessoa que será presidente dos EUA se toda a cúpula do governo morrer

O ator Kiefer Sutherland Direito de imagem AP
Image caption Kiefer Sutherland é o protagonista da série televisiva "Sobreviviente Designado"

"O Capitólio (parlamento dos EUA) foi atacado. Os congressistas, o gabinete, todos morreram. O senhor é o presidente agora".

São essas as palavras que escuta o personagem Tom Kirkman, interpretado pelo ator Kiefer Sutherland, na série de TV Sobrevivente Designado, que desde setembro tem sido exibida nos EUA pela rede ABC.

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Image caption Donald Trump e o vice, Mike Pence

A trama pode ser fictícia, mas está baseada na realidade. A legislação americana estabelece a figura do "sobrevivente" designado.

Ele ou ela entram na linha de sucessão da Presidência apenas em momentos específicos - quando o presidente e todos os outros políticos da linha sucessória participam juntos, de um mesmo encontro.

Na verdade, isso ocorre normalmente em duas ocasiões: na cerimônia de posse do presidente e no Discurso do Estado da União, em que anualmente o presidente discursa no Capitólio. Toda vez que ocorre um desses eventos, o presidente aponta um sobrevivente designado, que geralmente é uma pessoa de seu gabinete.

Nessas ocasiões, ele é o terceiro na linha de sucessão do mandatário, depois do vice-presidente e do presidente da Câmara dos Representantes.

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Image caption Durante o Discurso do Estado da União, o "sobreviviente designado" está em outro lugar, sob forte escolta

Tal dispositivo tem como objetivo garantir a continuidade do governo em caso de um evento catastrófico em que morram o chefe de Estado e o resto dos políticos na linha de sucessão. Isso faria do "sobrevivente designado" o presidente interino.

Essa pessoa é escolhida pelo mandatário. Na posse de Trump, o escolhido foi o senador Orrin Hatch, eleito pelo Estado de Utah.

Ausente

É de praxe que alguém do gabinete se ausente propositadamente desses eventos pelo menos desde o início dos anos 1960, de acordo com o site do Senado americano. O surgimento dessa preocupação em garantir a continuidade de governo concidiu com o acirramento da Guerra Fria.

"É um programa que representa a intenção do presidente de que os EUA garantam a sobrevivência de um governo constitucional e a continuidade de suas funções no caso de qualquer circunstância", define o site do Senado.

Poderoso por algumas horas

Antes dos anos 80, o nome do sobrevivente designado não era anunciado publicamente. A tradição foi quebrada em 1984, quando Ronald Reagan era presidente. O ministro da Habitação e Desenvolvimento Urbano, Samuel R. Pierce, tinha sido o escolhido.

Durante os últimos dois mandatos de Barack Obama, oito pessoas foram nomeadas sobreviventes designados em ocasiões diversas.

Em fevereiro de 1997, o então ministro da Agricultura, Dan Glickman, foi nomeado sobrevivente designado pelo então mandatário, Bill Clinton, que iria fazer um discurso sobre o Estado da União.

Enquanto Clinton discursava no Congresso, Glickman decidiu visitar a filha em Nova York. Ele deixou a capital americana em um voo que teve a companhia de médico, seguranças e um funcionário que supostamente carregava a maleta contendo os códigos de ativação do arsenal nuclear americano - pelo que contou ao programa NewsHour, da rede de TV americana PBS.

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Image caption Dan Glickman (à esquerda) foi o "sobrevivente" de Clinton, en 1997.

Quando chegou ao aeroporto de La Guardia, em Nova York, o ministro teve escolta até Manhattan. Após o discurso de Clinton, Glickman decidiu ficar na cidade, e a caravana prontamente se retirou.

"Três horas antes, eu era o homem mais poderoso do mundo. Três horas mais tarde, eu sequer consegui achar um táxi", brincou Glickman.

'Refém'

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Image caption No Reino Unido, monarca é "trocado" por deputado durante cerimônia de Abertura do Parlamento

No Reino Unido, há uma prática diferente: um "refém designado". Durante o discurso anual que a rainha Elizabeth 2ª faz para abrir o Parlamento britânico, um deputado é levado para o Palácio de Buckingham como garantia de que a soberana voltará para casa de forma segura.

Hoje é apenas uma tradição simbólica, mas que nasceu por uma razão sangrenta. Em 1649, o rei Charles 1º foi decapitado, no auge de uma guerra civil. Foi capturado justamente durante uma ida ao Parlamento.

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