Morre em São Paulo a jornalista Guila Flint: confira seu último texto para BBC Brasil

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Morreu em São Paulo na madrugada do último domingo a jornalista Guila Flint, aos 62 anos de idade.

Radicada em Israel desde a década de 1960, Guila cobriu por mais de 15 anos a situação política do Oriente Médio para a BBC Brasil.

A jornalista também colaborou para veículos como os jornais O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e o site Opera Mundi.

Guila também é autora dos livros Miragem de Paz: Israel e Palestina - Processos e Retrocessos e Israel Terra em Transe - Democracia ou Teocracia? (com Bila Sorj), ambos da editora Civilização Brasileira.

Filha de refugiados do nazismo vindos da Polônia, Guila nasceu em São Paulo em 1954. Ainda adolescente, mudou-se sozinha para Israel. Morou em um kibutz, mas fixou-se em Tel Aviv.

Chegou a trabalhar como tradutora de livros do português para o hebraico, mas foi como jornalista que passou a maior parte da carreira.

Começou a colaborar para a BBC Brasil em 1997.

No final de 2016, após ser diagnosticada com um câncer, voltou para São Paulo. Guila Flint foi enterrada no último domingo no Cemitério Israelita do Butantã, zona sul da capital paulista.

Leia o último texto publicado por Guila na BBC Brasil:

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21 anos após o assassinato de Rabin, apenas minoria segue seu legado em Israel

A cada ano que se passa desde aquele 4 de novembro de 1995, quando o então primeiro-ministro Itzhak Rabin foi assassinado por um extremista da direita israelense, o legado de paz deixado por ele é lembrado e respeitado por menos pessoas no país.

Desde aquela noite em novembro, quando Igal Amir deu 3 tiros nas costas de Rabin, executando o que é considerado um dos assassinatos políticos mais bem sucedidos da história, Israel mudou muito.

Durante o interrogatório na polícia, Amir declarou que quando Rabin estava caminhando em direção a seu carro, minutos depois de fazer um discurso histórico em favor da paz com os palestinos, na então Praça dos Reis de Israel, em Tel Aviv (que após o assassinato passou a chamar-se Praça Rabin), ele teve poucos segundos para decidir se atirava nele ou em Shimon Peres, o então ministro das Relações Exteriores, que morreu em setembro deste ano.

"Eu estava à mesma distância dos dois (Rabin e Peres), mas sabia que só podia matar um, pois os policiais imediatamente pulariam em cima de mim" afirmou Amir. "O meu objetivo era eliminar o chamado processo de paz com os palestinos, e para alcançá-lo achei que seria melhor eliminar Rabin".

Em retrospectiva, parece que Amir acertou. O processo de paz morreu ali, naquela praça, com a morte de Rabin, e desde então não ressuscitou. Desde então, a cada ano, a paz entre israelenses e palestinos parece mais distante e impossível de ser alcançada.

Acordo e Nobel da Paz

Depois de um conflito que durava quase um século, no acordo de Oslo, assinado por Rabin e o líder palestino Yasser Arafat, pela primeira vez houve um reconhecimento mútuo entre israelenses e palestinos. O acordo, assinado em setembro de 1993, rendeu a Arafat, Rabin e Peres o prêmio Nobel da Paz.

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Image caption O então primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin em discurso na ONU.

Segundo o acordo, israelenses e palestinos iniciariam negociações sobre os diversos temas básicos do conflito. O chamado processo de paz foi de fato a série de negociações iniciadas em 1993, porém o assassinato de Rabin interrompeu o processo, que nunca mais se recuperou.

O assassinato é considerado uma das três razões principais para o fracasso do acordo entre israelenses e palestinos. A segunda foi a série de atentados suicidas cometida pelo grupo extremista Hamas nas grandes cidades israelenses, que deixou centenas de civis mortos.

O terceiro motivo é a contínua ampliação dos assentamentos israelenses, fato que destruiu a confiança dos palestinos acerca das intenções de Israel.

As oposições internas tanto na sociedade israelense como na sociedade palestina venceram os favoráveis ao acordo e o resultado é o fortalecimento da extrema-direita em Israel e do grupo islamista Hamas na Palestina.

Guinada para a direita

Alguns meses após o assassinato, em maio de 1996, o líder da direita, Benjamin Netanyahu, foi eleito primeiro-ministro de Israel. Naquela época se acentuava a guinada da politica israelense do centro para a direita.

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Image caption O funeral de Rabin foi acompanhando por diversas autoridades

Hoje, 21 anos depois, Israel está dando uma nova guinada, desta vez da direita para a extrema-direita. Posições em favor de um acordo com palestinos e da devolução dos territórios ocupados durante a guerra de 1967 tornaram-se minoritárias.

Segundo pesquisas de opinião, a maioria dos israelenses é contra a volta de Israel às fronteiras anteriores à chamada Guerra dos Seis Dias. A maioria dos israelenses também é contra a retirada dos assentamentos construídos por Israel nos territórios ocupados na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

O número de colonos que hoje moram nesses territórios já passa dos 600 mil e o desmantelamento dos assentamentos parece impossível até aos olhos dos pacifistas mais otimistas. A ONU considera estes assentamentos ilegais.

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Image caption Shimon Peres e Yitzhak Rabin visitam um quartel do Exército em Tel Aviv em setembro de 1995. Na época, Rabin era Ministro da Defesa.

Porém, de fato, sobraram poucos pacifistas otimistas em Israel. Hoje em dia, o otimismo passou para o lado dos defensores do Grande Israel, cujo projeto revelou-se como bem sucedido.

Vinte e um anos após o assassinato, o governo é composto por partidos contrários à desocupação. Vários dos ministros são colonos habitantes em assentamentos nos territórios ocupados. O principal aliado do partido governista Likud na coalizão governamental é o partido Lar Judaico, liderado pelo atual ministro da Educação, Naftali Benett.

O Lar Judaico defende a permanência de Israel na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental e é explicitamente contra a fundação de qualquer Estado palestino no território considerado por ele como o Grande Israel, terra pertencente ao povo judeu, de acordo com o escrito na Bíblia.

Benett afirma claramente que se o primeiro-ministro Netanyahu fizer qualquer movimento em direção à devolução de territórios para os palestinos, o Lar Judaico deixará a coalizão, causando assim a queda do governo.

Netanyahu também não dá sinal algum de que pretende seriamente retomar qualquer tipo de negociação com o líder palestino Mahmoud Abbas.

Situação irreversível?

Os líderes palestinos, que obtiveram o controle de uma pequena área da Cisjordânia, a chamada área A, onde se encontram as grandes cidades palestinas, perderam completamente a esperança de que algum dia possa haver paz com Israel e de que eles possam construir um Estado independente e viável nos territórios da Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Faixa de Gaza.

A Faixa de Gaza encontra-se completamente desconectada da Cisjordânia e é dominada pelo grupo extremista Hamas, que também rejeita qualquer acordo com Israel.

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Image caption Yasser Arafat, Yitzhak Rabin e Shimon Peres na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz, em 1994.

Abbas, que supostamente é presidente da Autoridade Palestina, ficou isolado na Cisjordânia e impossibilitado até de visitar Jerusalém Oriental.

A oposição pró-Hamas cresce na Cisjordânia e, segundo as pesquisas, se as eleições fossem hoje, o grupo sairia vitorioso nessa região também. A facção secular Fatah que, liderada por Yasser Arafat, apoiou o acordo de Oslo com Israel, perderia o pouco poder que ainda detém.

Enquanto isso, graças ao crescimento demográfico, à continua construção e ao deslocamento de mais israelenses de dentro das fronteiras originais para os territórios ocupados, os assentamentos continuam se ampliando.

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Image caption O assassino de Rabin, Igal Amir

Existe quase uma unanimidade entre os analistas de que a situação política e demográfica que se criou na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental seja irreversível.

Quase ninguém acredita que algum governo em Israel será jamais capaz de retirar mais de 600 mil pessoas instaladas nesses territórios, portanto não haverá condições para a criação de um Estado Palestino com continuidade territorial.

Na cadeia, com um sorriso no rosto

O assassinato de Itzhak Rabin, que na época causou uma enorme comoção no país e no mundo, hoje desperta a tristeza de poucos em Israel.

Neste sábado (5) haverá um comício na Praça Rabin, em Tel Aviv, para lembrar o primeiro-ministro assassinado. Algumas dezenas de milhares de pessoas devem participar.

Igal Amir encontra-se na cadeia, condenado à prisão perpétua. Porém alguns dizem que não está distante o dia em que ele venha a ser anistiado e libertado.

Nesse meio tempo ele casou-se e teve um filho, recebe visitas regulares de sua esposa e, sempre que aparece na mídia, está com um largo sorriso estampado no rosto.

* A jornalista Guila Flint morou por mais de quatro décadas em Israel e é autora do livro 'Miragem de Paz - Israel e Palestina, Processos de Retrocessos', publicado pela Editora Civilização Brasileira.