Saída do Reino Unido pode causar efeito dominó na UE?

Bandeira da UE com furo mostrando o Parlamento Britânico Direito de imagem EPA
Image caption Há temores de que Brexit possa alimentar outros 'movimentos separatistas'

Em menos de um mês, a França realizará o primeiro turno de sua eleição presidencial. De acordo com a mais recente pesquisa, publicada na quarta-feira, a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, encabeça as intenções de voto, com 25,2%.

Ainda que muitos analistas digam que a controversa líder de extrema-direita não tem lastro suficiente para vencer um segundo turno, o fato é que Le Pen comanda uma legenda que tem como principais plataformas o controle da imigração e a intenção de questionar formalmente, através de um plebiscito, a presença francesa da União Europeia (UE).

O discurso de Le Pen mostra que o Reino Unido não é o caso isolado no que diz respeito a um euroceticismo mais robusto. Apesar do choque provocado pelo Brexit, a insatisfação com o bloco político econômico de 28 nações não é exclusividade de uma maioria de britânicos.

Na recente eleição parlamentar na Holanda, houve um suspiro de alívio quando o PVV, partido eurocético comandado pelo polêmico Geert Wilders, um homem sem papas na língua para expressar sua oposição à imigração e à presença holandesa na UE, ficou "apenas" em segundo lugar na contagem de votos - apesar de a legenda aumentar seu percentual de eleitores e número de assentos no Legislativo.

Tanto França como Holanda tinham registrado vitórias do não em plebiscitos sobre o Tratado de Lisboa, a Constituição europeia.

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Image caption Schulz vê projeto europeu sob ameaça

Não por acaso, a formalização da decisão de Londres de deixar o bloco traz à tona considerações sobre o futuro do projeto da UE. Tanto pelo fato de ser a primeira vez que uma nação "pede para sair", quanto pelo calibre da retirada - o Reino Unido tem um oitavo da população da UE, um sexto de seu PIB e metade das armas nucleares.

"A União Europeia nunca esteve tão sob ameaça e não devemos subestimar o significado da saída do Reino Unido, cujo impacto nós ainda não temos como entender ou medir", disse recentemente, em um pronunciamento no Parlamento Europeu, o ex-deputado e ex-líder da casa Martin Schulz, candidato ao governo alemão nas eleições de setembro.

"Temos candidatos abertamente falando em retirada da UE", completou ele, em uma alusão direta a Le Pen.

Sentimentos negativos em relação ao bloco não são novidade. Em meados dos anos 80, quanto teve início o programa de integração legal e econômica que culminou em 1992 com o Tratado de Maastricht, ansiedades em relação à transferência de poderes para Bruxelas tinham surgido sob a forma de protestos contra "danos à democracia". Algo expressado formalmente quando os eleitores dinamarqueses rejeitaram Maastricht em um plebiscito, temendo que as nações mais poderosas econômica e politicamente fossem subjugar os interesses nacionais do país.

Uma forma de combater essa insegurança foi fortalecer as credenciais democráticas de instituições da UE, em especial o Parlamento Europeu, que existe desde 1979. No entanto, as mais recentes eleições para a câmara continental têm sido marcadas pelo baixo comparecimento dos eleitores - em 2014, por exemplo, ele foi de apenas 43% - e pela ascensão de partidos eurocéticos, como o Ukip, do Reino Unido, criado especificamente nos anos 90 para defender a secessão britânica de Bruxelas.

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Image caption Grupos de parlamentares eurocéticos comemora a oficialização do Brexit em Estrasburgo, na França

"Não estamos falando aqui de algum tipo de desintegração repentina, mas sim do risco real de uma erosão da coesão entre as nações. Daí a importância de se chegar a um consenso sobre reformas e ações em áreas prioritárias como segurança e imigração. Mas perder o Reino Unido não é um golpe mortal para a UE, é, sim, um momento muito triste", avalia Stefan Lehne, do centro de estudos Carnegie Europe.

Thomas Wright, do centro Brookings, classifica como "mito" a possibilidade de um "Brexit contagioso". Seu argumento começa com o fato de que a atual configuração da UE, em que 19 dos 28 Estados adotaram a moeda única, o euro, torna a missão bem mais difícil justamente para nações com rebeldia "latente", como França e Holanda.

"Economistas já mostraram que, se um país da Zona do Euro decidisse sair, isso criaria a mãe de todos os colapsos bancários. O Reino Unido, como sabemos, não faz parte deste grupo", afirma.

"É como se a união monetária funcionasse com uma espécie de escudo. Para o bem ou para o mal".

Wright aponta para o fato de que mesmo países que elegeram governos eurocéticos resistem em buscar secessões. Um exemplo é a Polônia, ainda que a contradição ideológica esteja ligada ao fato de que mais de 2 milhões de poloneses vivem em outros países da UE e suas remessas de dinheiro para o país de origem sejam um importante fator econômico.

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Image caption Eurocética Marine Le Pen lidera algumas pesquisas de opinião na França

Apesar de considerar o Brexit como um teste de viabilidade da UE como modelo de integração internacional, Thomas Raines, pesquisador do Royal Institute of International Affair, diz que a secessão britânica criou uma certa onda de simpatia ao projeto europeu em alguns dos principais países do bloco - incluindo França, Alemanha e Itália, as maiores economias sem o Reino Unido. Isso com base em uma pesquisa feita pelo grupo de estudos.

"Percebemos que, em termos gerais, o público europeu apoia a premissa de que seus países devem ter um bom relacionamento com o Reino Unido, mas que a UE não deve comprometer seus princípios para isso. Ou seja, os eleitores mostram que aceitam uma linha pragmática de negociação. Ao mesmo tempo, 56% dos entrevistados acham que a saída do Reino Unido enfraqueceu a União Europeia".