'Não teremos medo', diz brasileira na Suécia após ataque em Estocolmo

Garoto em frente a memorial a vítimas de ataque em Estocolmo Direito de imagem Claudia Wallin
Image caption Garoto em frente a memorial a vítimas de ataque em Estocolmo; cidade vivenciou atos de solidariedade após provável atentanto terrorista

Um dia após um ataque com caminhão deixar quatro mortos em Estocolmo, a região do provável atentado terrorista se tornou ponto de peregrinação e homenagens no centro da capital sueca.

Uma multidão se reuniu na área ao longo do dia - pais com bebês, idosos, políticos, imigrantes -, em uma cidade que parecia fazer questão de manter a calma.

Os atropelamentos ocorreram em Drottninggatan (rua da rainha), uma das principais vias de pedestres da cidade, pouco antes das 15h (10h pelo horário de Brasília) desta sexta-feira.

Após avançar contra a multidão, o caminhão atingiu a entrada de uma loja de departamentos, e o motorista deixou o local. Dez feridos continuam hospitalizados, dois deles em estado grave.

Pela manhã, já era grande a movimentação de pessoas no centro da capital, onde ruas permaneciam sob intenso policiamento.

A via de pedestres onde o ataque ocorreu só foi aberta no final do dia. Mas flores começaram desde cedo a ser depositadas nas proximidades da via, na praça Sergelstorget, de onde se pode ver a loja de departamentos contra a qual o caminhão do ataque se chocou após atropelar as vítimas.

O governo da Suécia disse que tudo indica se tratar de um atentado terrorista. Outras cidades europeias registraram ataques recentes parecidos, como Londres (março de 2017), Berlim (dezembro de 2016) e Nice (julho de 2016).

Ainda na sexta-feira, a polícia prendeu o principal suspeito de ser o motorista do caminhão. Trata-se de um homem natural do Uzbequistão, de 39 anos, e que já era conhecido dos serviços de segurança. Em um entrevista coletiva neste domingo, a polícia disse que o homem tinha "mostrado simpatia" às atividades do grupo extremista muçulmano Estado Islâmico.

A Suécia é um dos países que mais tem militantes lutando pelo EI na Síria e no Iraque em relação ao tamanho de sua população. Mais de 300 cidadãos deixaram o país para se juntar ao grupo, segundo autoridades locais.

No entanto, a até a tarde deste domingo na Suécia, nenhuma organização tinha reivindicado o atentado.

A polícia informou ainda que o homem estava sendo procurado pelas autoridades de imigração depois que um pedido de visto de residência na Suécia tinha sido negado em junho.

"Em dezembro de 2016, ele recebeu uma aviso de que deveria deixar o país em quatro semanas, mas despareceu", disse o chefe da polícia de Estocolmo, Jonas Hysing.

Solidariedade

Na cena do ataque, o imigrante sírio Imran carregava uma grandes caixa de pães doces, que distribuía a policiais e a quem mais passasse.

"Precisamos estar juntos neste momento. E nada melhor do que dividir o pão", disse, aos sorrisos.

Direito de imagem Claudia Wallin
Image caption 'Precisamos estar juntos neste momento', disse o imigrante sírio Imran, que levou pães para distribuir em área de ataque na capital sueca

Desde o momento do ataque, a capital sueca foi cenário de demonstrações de solidariedade. Moradores abriram suas casas a estranhos sem local para dormir em razão da paralisação do transporte público, motoristas deram carona a desconhecidos, restaurantes distribuíram comida.

A brasileira Cynara Isacsson, que vive no país europeu há seis anos com o marido sueco, chegou à cena da tragédia com um cartão, decorado com estampa de rosas vermelhas, para entregar a policiais.

"Vim agradecer à polícia sueca pelo trabalho rápido e competente durante esse ataque terrível. Sou muito agradecida por isso, porque me sinto segura e com vontade de sair para mostrar a esses terroristas que não teremos medo", disse a brasileira.

No cartão de Cynara, as palavras, em sueco, diziam: "Muito obrigada por tomar conta de nós. Abraços de uma brasileira e um sueco, Cynara e Kristofer".

Direito de imagem Claudia Wallin
Image caption Brasileira Cynara levou cartão de agradecimento a policiais com as inscrições 'Muito obrigada por tomar conta de nós'

"Temos orgulho de nossa sociedade aberta a todos, independentemente de raça, credo ou cor. E nenhum tipo de ódio ou assassino irá tirar isso de nós", disse à BBC Brasil a líder do Partido Moderado, Anna Kinberg Batra, que depositou flores no local do ataque.

Perto dali, o sueco Felipe Menezes, filho de pai chileno, levava o filho para depositar uma flor no memorial às vítimas do ataque.

"Viemos prestar nossa homenagem às vítimas, mostrar que não estamos com medo e dizer que queremos contribuir para um mundo melhor", disse Menezes, que afirmou temer o crescimento da extrema direita no país.

Direito de imagem Claudia Wallin

"É muito possível que isso ocorra, é uma tendência vista em outros países europeus. Por isso que precisamos estar aqui, juntos. Para mostrar que valorizamos a diversidade e a nossa sociedade aberta."

Àquela altura, juntou-se à multidão o ministro do Interior sueco, Anders Ygeman.

"O ataque pode lançar sombras sobre o debate político na Suécia. Mas é cedo demais para dizer se haverá um impacto no crescimento do apoio aos extremistas de direita", disse o ministro à BBC Brasil.

"O terror que já abalou diversos países europeus impactou agora a Suécia. Mas os cidadãos de Estocolmo demonstram hoje sua enorme força, coragem e esperança no futuro. Permaneceremos firmes na defesa de nossa sociedade aberta, e na crença de que pessoas de diferentes credos e etnias possam viver em harmonia, lado a lado", pontuou Ygeman.

A polícia sueca confirmou ter localizado um artefato suspeito dentro do caminhão usado no ataque. O objeto estava no banco do motorista, mas investigações ainda estavam em curso neste sábado para verificar do que se trata.

Reação do governo

O primeiro-ministro da Suécia, Stefan Lofven, classificou o episódio como ataque terrorista e determinou reforço na segurança das fronteiras do país.

Direito de imagem JONATHAN NACKSTRAND/AFP
Image caption "Muito pânico ao redor, muitas pessoas se abraçando e telefonando para familiares", relatou a colaboradora da BBC Brasil na Suécia, que estava próxima ao local do incidente

"Terroristas querem que tenhamos medo, que mudemos nosso comportamento e não vivamos nossas vidas normalmente, mas faremos isso. Terroristas nunca poderão derrotar a Suécia, e estamos determinados a continuar sendo uma sociedade aberta e democrática", afirmou.

A Suécia tem baixos índices de criminalidade, e costuma figurar entre os países mais seguros do mundo.

Em 2010, duas bombas foram detonadas no centro de Estocolmo, matando o agressor - um homem de nacionalidade sueca nascido no Iraque - e ferindo duas pessoas.

Em outubro de 2015, um homem mascarado que seria simpatizante da extrema direita matou um professor e um aluno em um ataque à faca.

Em fevereiro deste ano, o presidente dos EUA, Donald Trump, citou um ataque terrorista na Suécia que não existiu e responsabilzou a política d eimigração do país pelo episódio inexistente - o que revoltou muitos suecos.

A Suécia já recebeu quase 200 mil imigrantes e refugiados nos últimos anos - um índice per capita superior ao de qualquer país europeu. Houve, contudo, uma queda nos numeros no último ano após a introdução de novos controles de fronteira.

Por outro lado, estima-se que o país tenha o maior número per capita na Europa de militantes do grupo autodenominado Estado Islâmico.

Tópicos relacionados

Notícias relacionadas