O que se sabe sobre caso de menino uruguaio encontrado morto ao lado de técnico que chamava de pai

Felipe Romero e Fernando Sierra Direito de imagem Campanha de busca por Felipe | Facebook
Image caption Em cartaz para Fernando Sierra, Felipe o chamava de "papai" e dizia que técnico "o defendia"

O caso do menino Felipe Romero, de 10 anos, encontrado morto no último sábado ao lado de seu treinador de futebol que o sequestrara, chocou o Uruguai.

Exames preliminares indicam que o garoto vinha sendo vítima de abusos sexuais - mas ainda não há confirmação de autoria - e que foi morto com um tiro na cabeça. O corpo do treinador, Fernando Sierra, de 32 anos, estava ao lado.

A hipótese principal é que o treinador tenha atirado no menino e, em seguida, cometido suicídio.

Felipe foi sequestrado por Sierra, com quem mantinha uma relação quase paternal, no último dia 20 de abril. O treinador buscou o garoto na escola antes do horário normal de saída e sumiu sem dar informações.

Dois dias depois, os corpos foram localizados em Villa Serrana, uma região turística de serra a cerca de 150 km de Montevidéu.

"O homem (Sierra) estava deitado com as costas no chão, e o menino estava como que abraçando o homem, com a cabeça junto ao peito dele", afirmou à BBC Mundo, o médico forense Sergio Mozzo, que realizou a autópsia.

"O menino também apresentava uma lesão na cabeça, causada pela bala, que deixou um hematoma no seu couro cabeludo", acrescentou. Ambos estavam sem sapatos e havia uma arma calibre 22 no local.

O médico disse ainda ter identificado marcas que indicam abusos sexuais no menino - até mesmo com alguma frequência. Mas ainda não há provas de que o treinador teria sido responsável.

"Houve estupro. As marcas encontradas no menino mostram uma laceração que possivelmente foi do mesmo dia ou do dia anterior", disse ao serviço em espanhol da BBC.

O médico também citou indícios que evidenciariam que o abuso ocorria com certa frequência. Ainda assim, para confirmar com clareza o que aconteceu, ponderou, será preciso aguardar o resultado final da autópsia, em cerca de uma semana.

A juíza criminal Adriana Morosini, responsável pelo caso, também afirmou que será preciso aguardar exames para tentar identificar a autoria dos abusos.

"Não posso determinar hoje com as provas que tenho que Fernando Sierra é o responsável", afirmou à rede de TV Canal 13.

O presidente uruguaio, Tabaré Vásquez, disse que a morte do garoto foi "terrível, muito lamentável e absolutamente incompreensível".

Afastamento

O treinador Sierra, a quem Felipe chamava de pai, tinha a confiança total da mãe do garoto, Alexandra Pérez, funcionária da polícia local.

Sierra havia sido apresentado a ela por uma colega de trabalho, cujo filho também havia frequentado a casa do treinador. Segundo informações do site Maldonado Notícias, essa conhecida disse à mãe de Felipe conhecer toda a família do técnico e que eram "boa gente". A confiança da mãe era tanta que o técnico obteve sua permissão para levar o menino para uma viagem ao Balneário Camboriú, no Brasil.

Mas tudo mudou quando a psicóloga de Felipe recomendou à mãe que proibisse encontros a sós entre os dois.

A tia do menino, Maíra del Carmen Romero, disse à BBC que a psicóloga de Felipe recomendara o afastamento após notar um comportamento estranho do garoto. Não está exatamente claro o conteúdo do alerta feito pela psicóloga após ser procurada pela mãe. Ambas serão ouvidas pela Justiça.

Segundo o jornal El País do Uruguai, que entrevistou a mãe de Felipe, a razão pela qual o menino foi levado para avaliação de uma psicóloga não foi a suspeita de abuso, mas, sim, o fato de que o menino passou a se referir ao técnico como pai. Ela teria ficado sabendo ainda, pelo diretor técnico do time, da suposta intenção do treinador em adotar o menino.

"Há alguns meses, no início do ano, Felipe começou a ter um comportamento estranho. Juan Sosa, o diretor da categoria de Felipe no time, contou-me que o Fernando havia comentado que estava preparando os papéis para adotar Felipe. Também soube que a mãe do Fernando já andava dizendo que Felipe era seu neto e que estava pronto para ir morar com eles", disse Alexandra Pérez.

"Então, consultei a psicóloga sobre isso. Ela teve uma entrevista com Felipe. E chamou a atenção dela, por exemplo, quando ela perguntou ao menino sobre Fernando e ele respondeu: 'É meu pai'."

Em cartas escritas para o treinador - sob análise da polícia, segundo a imprensa local - o garoto escrevia "Papai, te amo" e "Papai me defende quando ninguém me defende". No Dia dos Pais, disse a mãe, escreveu a ele pelo Whatsapp: "Feliz dia, papai. Te amo, papai. Espero que você esteja sempre comigo."

Direito de imagem Reprodução Canal 13 | Telenoche
Image caption Próximo a local onde estavam os corpos, polícia encontrou sapatos, roupas, cartelas de tranquilizantes e a carteira com documentos do técnico

Felipe era filho de Luis Romero, um conhecido ex-jogador de futebol que era um "pai ausente", segundo disse a mãe do garoto ao jornal El País.

Segundo a mãe, no mesmo dia em que foi orientada pela psicóloga, ela procurou o técnico e disse que o menino continuaria indo às aulas de futebol, mas que eles não poderiam mais ficar a sós ou conversar pelo WhatsApp.

A mãe disse ainda que, após a conversa, o técnico disse: "entendo, entendo", mas "fez uma cara horrível". "Dava para ver que ele não havia gostado do que eu tinha dito."

Dias depois, apesar da conversa, a mãe voltou para casa e viu que Sierra havia levado o menino. Ela o questionou por mensagem de texto e a resposta, segundo a mãe, foi: "Estamos indo para casa, vamos comer um assadinho, uma comidinha, jantamos e depois o trago de volta". Ao retornarem, ela conta que, ao insistir que o técnico não poderia ficar com a criança sozinho, Sierra começou a chorar e disse, segundo a mãe, "Se você tirar Felipe de mim, me mato".

Tranquilizantes

Outro achado na cena do crime foram cartelas de tranquilizantes - um sedativo suave que pode ser comprado sem receita médica.

"Encontramos no bolso do homem duas cartelas de um tranquilizante natural leve, mas que, em um menino, pode ter um efeito mais forte. E no bolso da camisa do garoto, encontramos mais uma cartela, da qual estavam faltando sete comprimidos", descreveu o perito Mozzo.

"Suspeitamos que ele tenha dado os comprimidos à criança, a autópsia poderá confirmar isso", completou.

Sierra não tinha antecedentes criminais e arma que provavelmente usou não era dele, segundo a juíza do caso.

De acordo com o El País, o celular de Fernando Sierra foi encontrado na estrada perto do local onde os corpos foram encontrados. O aparelho havia sido esmagado por carros e estava danificado.

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Image caption Juíza diz que é necessário esperar mais resultados de exames para determinar se técnico teria sido responsável por abuso sexual em garoto

Sumiço

Na tarde da última quinta-feira, Sierra buscou o garoto na escola antes do horário normal com a justificativa de que "o tempo estava ruim" e afirmou que tinha a permissão da mãe para fazê-lo. De acordo com a escola, o técnico estava listado como um dos adultos de referência para o garoto e costumava buscá-lo, e também participava de reuniões de pais e professores.

Falando à BBC Brasil sob condição de anonimato, uma amiga da família disse que Alexandra Pérez, que trabalha no departamento de polícia de Maldonado, estava em um curso da polícia e havia pedido que outra mãe buscasse seu filho na escola. Por volta das 18h, ela ficou sabendo que a criança já havia saído na companhia do técnico. Depois de conversar com a diretora da escola e ir até a casa de Fernando Sierra, ela denunciou o treinador à polícia.

A juíza Morosini afirmou que, nos próximos dias, deve colher depoimentos da mãe do garoto, de sua professora, da diretora da escola e da psicóloga.

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Image caption Segundo mãe de garoto, técnico teria dito que "se mataria" caso não pudesse mais conviver com Felipe

'Como filho'

Sierra e Felipe se conheceram em 2015, por meio da equipe infantil do clube Defensor de Maldonado. Sierra era o técnico da equipe em que o menino jogava.

Apesar de Sierra ter ficado por pouco tempo à frente do grupo de Felipe, eles desenvolveram uma relação próxima.

"Ele levava e trazia Felipe dos treinos, das partidas, andavam juntos para todos os lados, ele o tratava como se fosse seu filho, e Felipe o tratava como se fosse seu pai", diz Myriam Sosa, dirigente do Defensor Maldonado responsável pela divisão infantil.

Até sua morte, Sierra ainda trabalhava como técnico. Ele se apresentava como um "amigo da família", conta Sosa, e, por isso, ninguém estranhava tanta proximidade entre ele e o garoto.

"Fernando sempre foi uma pessoa tranquila, muito correto, muito educado com os pequenos, muito respeitoso. Ninguém podia pensar que algo assim aconteceria", diz Sosa.