Sete personagens centrais para entender a crise na Venezuela

Maduro com o ministro Vladimir Padrino Direito de imagem EPA
Image caption Maduro com o ministro Vladimir Padrino; presidente vê sua popularidade reduzir com a crise de abastecimento

A crise venezuelana ficou ainda mais intensa nos últimos dias, depois que o presidente Nicolás Maduro assinou decreto, em 1º de maio, determinando a realização de uma Assembleia Constituinte para mudar a Constituição em vigor desde 1999.

A oposição, setores do chavismo e a Igreja Católica venezuelana rejeitaram a proposta. Opositores acusaram o governo de modificar a Carta Magna para "se perpetuar no cargo" e "cancelar toda possibilidade de convocar eleições". E setores do chavismo entendem que a Constituição atual deve ser respeitada por ser o guia deixado pelo ex-presidente Hugo Chávez aos venezuelanos.

Maduro, por sua vez, argumentou que "será uma Constituinte popular, trabalhadora. Uma Constituinte chavista (...) Convoco uma Constituinte cidadã, não uma Constituinte de partidos e elites."

Os protestos, tanto a favor, como contra o governo - e que já eram frequentes na Venezuela -, passaram a ser diários desde 1º de abril, logo depois que o Tribunal Supremo de Justiça anunciou que incorporaria funções da Assembleia Legislativa (equivalente ao Congresso Nacional, liderada por opositores). A iniciativa acabou suspensa.

Mas desde então, cresceram as dúvidas sobre como a crise venezuelana terminará. Pelo menos 30 pessoas já foram mortas nas manifestações, segundo agências internacionais de notícias, e aumentou a desconfiança entre governo e oposição e dentro da própria base do chavismo.

"A situação na Venezuela é muito delicada e não é possível prever qual será a saída", diz à BBC Brasil Simón Pachano, professor de Ciências Políticas da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), no Equador, em entrevista à BBC Brasil.

Quais são os principais personagens e as principais forças em ação na Venezuela? Veja na lista a seguir:

1. O presidente

Nicolás Maduro havia sido vice-presidente e chanceler do governo Chávez e, quando assumiu a Presidência, em 2013, o país caribenho já enfrentava problemas econômicos. A situação, porém, piorou nos últimos anos, após a queda no preço do petróleo, principal produto de exportação do país.

Como presidente, Maduro busca seguir algumas marcas registradas de Chávez, como os longos discursos transmitidos pela televisão e a oposição ferrenha aos seus críticos, que chama de "golpistas". Para ele, as agruras venezuelanas são responsabilidade, entre outros, do "império", como costuma se referir aos Estados Unidos.

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Image caption Indígenas venezuelanos morando sob viaduto em Manaus; país caribenho enfrenta pobreza, inflação e escassez de alimentos

Mas seus críticos dizem que Maduro tem não apenas menos carisma, como habilidade política inferior à de Chávez. Com isso, analistas apontam a queda de sua popularidade diante da inflação galopante e da escassez de produtos nas gôndolas de supermercados e farmácias.

Diante disso, são praticamente diários os protestos convocados, tanto pela oposição, quanto pelo governo. É uma "queda de braços" que está sendo resolvida nas ruas, diz o professor de Ciências Políticas chileno Guillermo Holzmann, da Universidade de Valparaíso.

Maduro também viu seu apoio externo minguar, com as mudanças de governo na América do Sul. Brasil e Argentina passaram a fazer oposição direta à Venezuela, que além disso foi suspensa do Mercosul.

O bloco que reúne Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai tem divulgado notas frequentes, junto com outros países como Colômbia e México, pedindo uma saída para a crise venezuelana, incluindo "a libertação dos presos políticos".

2. O líder das tropas

Analistas definem o governo venezuelano como "civil-militar" desde os tempos em que o país era governador por Chávez, que era militar. O papel do ministro da Defesa e chefe das Forças Armadas, Vladimir Padrino López, é definido pelos especialistas como "fundamental" no atual sistema político venezuelano.

O ministro é o líder das tropas do país, que, sob sua ordem, já saíram às ruas, sem armas, para pedir o fim dos protestos da oposição, como ocorreu em abril. Na época, o ministro disse que as Forças Armadas "ratificam apoio incondicional ao governo Maduro".

As Forças Armadas, principalmente o Exército, são uma importante peça de sustentação de Maduro, mas é um apoio delicado: paira sobre o país o fantasma de intervenções militares passadas, e sempre há o temor, por parte de governistas, de que os militares passem para o lado da oposição. Nos últimos dias, o governo reconheceu que três militares foram considerados desertores e teriam escapado para a Colômbia. Especula-se que teriam se negado a reprimir protestos, de acordo com a imprensa local.

O analista argentino Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nova Maioria, de Buenos Aires, entende que "há sinais de fatiga" de setores das Forças Armadas ao longo período de crise no país caribenho, o que poderia colocar em xeque sua fidelidade ao governo Maduro.

3. A chanceler

Delcy Rodríguez, ministra venezuelana das Relações Exteriores, é conhecida por suas declarações polêmicas nas reuniões multilaterais e em sua conta no Twitter. No plano externo, Delcy Rodríguez é um dos rostos do governo Maduro.

Ela costuma criticar com frequência os atuais governos dos países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), aos quais definiu, por exemplo, como de "direita" e "sem modos". Em uma reunião da Organização de Estados Americanos (OEA), em Washington, a chanceler qualificou o secretário-geral do organismo, o uruguaio Luis Almagro, de "mentiroso" e "traidor".

Num fórum em Caracas, ela disse que o Brasil "é uma vergonha mundial", onde "há escândalos todos os dias" e que houve "um golpe" contra a ex-presidente Dilma Rousseff. Seus críticos minimizam sua força dentro do governo Maduro. Quando perguntado sobre suas críticas ao Brasil, o chanceler Aloysio Nunes Ferreira disse que ela "não tem muita importância".

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Image caption Henrique Capriles durante protesto; opositor pressiona pela realização de eleições na Venezuela

4. O principal opositor

Ex-candidato presidencial em duas ocasiões, Henrique Capriles é governador do Estado de Miranda e foi inabilitado para disputar eleições durante os próximos 15 anos. Ele defende eleições gerais no país como saída para a crise venezuelana.

Na última eleição presidencial, de 2013, ele perdeu por margem apertada para Maduro. Hoje ele é um dos líderes dos protestos e entende que a pressão das ruas levará à convocação dos pleitos (as eleições para governador e legislativas programadas para 2016 não foram realizadas, e pelo calendário eleitoral a eleição presidencial será em 2019).

Por ser mais moderado, ele é a face da oposição venezuelana mais aceita internacionalmente e internamente.

5. O opositor preso

Ex-prefeito de Chacao, Leopoldo López está preso desde 2014 e foi condenado a mais de 13 anos de prisão por "instigação pública", entre outros delitos, durante um protesto que deixou 43 mortos, segundo a Justiça. López passou a simbolizar, como definem a oposição e o Mercosul, "presos políticos" da Venezuela.

Na semana passada, diante de rumores sobre sua integridade física, governistas divulgaram um vídeo dele na prisão como "prova de vida". A mulher de López, Lilian Tintori, esteve com presidentes da região, como Mauricio Macri, pedindo apoio à sua libertação.

Dos 780 presos nos últimos protestos, 251 foram colocados à disposição de tribunais militares e não civis - algo que também foi alvo de protestos por parte de ONGs, oposição e da OEA.

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Image caption Protesto na Venezuela, em 8 de maio; secretário da OEA diz que país vive 'uma ditadura' e seu povo é 'saqueado'

6. A voz crítica externa

Para o secretário-geral da OEA, o senador uruguaio Luis Almagro, existe uma "ditadura na Venezuela e um povo saqueado", e um novo governo deve ser eleito "com legitimidade democrática que permita ao país sair do poço", como disse em entrevista à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Em março, Almagro propôs a suspensão da Venezuela do organismo, caso não fossem convocadas eleições gerais no país num prazo de 30 dias. "Aprovar a suspensão do governo venezuelano é o mais claro gesto que podemos fazer pelo povo venezuelano, pela democracia no continente, por seu futuro e pela justiça", disse Almagro.

Logo depois, a Venezuela formalizou, em abril, o pedido para deixar a organização. Almagro foi acusado pelo governo de Maduro de ser "inimigo do povo venezuelano".

No âmbito interno, Almagro, que foi chanceler do governo de José "Pepe" Mujica, tem sido criticado pelo ex-presidente por suas críticas à Venezuela. "Uma pessoa nesse cargo (na OEA) deve servir de ponte, de união, e não parte (do conflito)", afirmou Mujica, segundo o jornal El País, de Montevidéu.

7. O mediador

O papa Francisco fez novos apelos, na semana passada, pelo diálogo entre governistas e opositores na Venezuela. Em uma carta aos bispos na Venezuela, ele pediu que sejam estabelecidas "pontes" para "dialogar seriamente" por uma saída para a crise.

No ano passado, foi formada uma comissão, com a participação da Igreja Católica, para se tentar o entendimento entre governo e opositores. A iniciativa não avançou. Para analistas, como o cientista político Simón Pachano, da Flacso, a culpa é da "desconfiança de todos contra todos".

Na sexta-feira passada, a Conferência Episcopal Venezuelana (CEV) divulgou comunicado criticando a proposta de Maduro de convocar a Assembleia Constituinte. De acordo com o site do jornal El Nacional, de Caracas, a CEV afirma que "o que o povo venezuelano mais precisa é comida, medicamentos, liberdade, segurança pessoal e jurídica e paz". No texto, afirma-se também que "tudo isso se conseguiria se o governo agisse a partir do texto Constituição em vigor e com maior sensibilidade diante de tantas carências".

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