Por que Noam Chomsky crê que o Partido Republicano dos EUA seja a 'organização mais perigosa da Terra’

Noam Chomsky
Image caption Noam Chomsky concedeu entrevista ao programa Newsnight, da BBC

Conhecido pelas posições políticas de esquerda e pela crítica da política externa dos EUA, o linguista americano Noam Chomsky disse, em entrevista à BBC, que o Partido Republicano dos EUA é "a organização mais perigosa da Terra".

"É uma declaração que causa indignação e quando disse isso eu avisei: 'É uma declaração que traz indignação, mas é a verdade'", afirmou o acadêmico.

"Você os está classificando (republicanos) como piores que Kim Jong-un, da Coreia do Norte, ou que o Estado Islâmico?", perguntou Evan Davis, apresentador do programa Newsnight, da BBC.

"O Estado Islâmico está comprometido em tentar destruir as probabilidades de termos uma existência humana organizada no futuro?", questionou Chomsky em resposta.

"O Partido Republicano é tão ruim assim?", rebateu o entrevistador.

"Bem, o que significa dizer 'nós não apenas não estamos fazendo nada em relação a mudança climática, também estamos tentando acelerar a corrida em direção ao precipício?'", afirmou Chomsky.

"Não faz diferença se eles acreditam de verdade ou não, se as consequências são 'vamos usar mais combustíveis fósseis, vamos acabar com as regulações que reduzem os gases do efeito estufa, vamos nos negar a dar subsídios a países em desenvolvimento', se essa é a consequência, isso é extremamente perigoso'", afirmou o ativista.

Chomsky, de 88 anos, é um dos principais intelectuais de esquerda da atualidade. Conhecido como "o pai da linguística moderna" e figura central da filosofia analítica, ele é autor de mais de 30 livros, entre eles Para Entender o Poder e Quem Governa o Mundo.

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Image caption Durante sua campanha presidencial, Trump prometeu tirar os EUA do Acordo de Paris

Direita e 'raiva' social

Apesar de criticar duramente o governo Donald Trump e o próprio presidente republicano, Chomsky disse não considerar que a ascensão de personagens como ele represente um retorno do fascismo.

"Não concordo que exista um fascismo incipiente na sociedade americana. Não há ideologia, a única ideologia do Trump é a do 'eu' - isso é muito diferente do Hitler, do Mussolini. Não há uma organização fascista, é um autoritarismo profundo e é muito perigoso, mas não se trata de fascismo."

Sobre o contexto político global, Chomsky também fez comentários sobre a extrema direita na Europa, citando a vitória do centrista Emmanuel Macron nas eleições francesas como ato de rejeição ao conservadorismo. Mas afirmou que o resultado não representa necessariamente um retrocesso do populismo na Europa.

"Não representa de forma alguma. Macron é um bom exemplo do colapso das instituições tradicionais - ele vem de fora desse espectro. E o voto nele é substancialmente um voto contra a (Marine) Le Pen, que é reconhecida, de maneira correta na minha avaliação, como alguém que poderia ser um sério perigo. Na verdade, acho que os eleitores votaram em Macron meio chateados, não era a escolha de muitos deles", disse.

Na conversa com a BBC, o intelectual comentou o momento atual da globalização, a "raiva" social e a polarização presentes em vários países do mundo. Para ele, as divisões continuam as mesmas, apesar de algumas transformações.

"Há muitas divisões na sociedade atual - religiosa, de todo tipo. Mas a divisão fundamental é a divisão de classes, e uma das razões para a raiva vemos hoje no mundo se dá porque nenhuma instituição e nenhum partido político está realmente representando os interesses da classe que representa grande parte da força de trabalho. Há outras fontes - mas são derivadas dessa de alguma forma, como a histeria anti-imigração, é em parte o reflexo da perda de oportunidades causada por programas neoliberais."

Chomsky não chegou a mencionar o Brasil na entrevista à BBC, mas já havia declarado seu apoio à ex-presidente Dilma Rousseff, em uma conversa com o programa americano de televisão Democracy Now, há cerca de um ano.

Na ocasião, pouco antes do impeachment da então presidente, ele afirmou que Dilma era "uma líder política que não roubou para enriquecer a si mesma" e que ela estava sendo "acusada por uma gangue de corruptos".

Ele também classificou o processo contra ela como um "golpe brando".

Política climática de Trump

Chomsky já havia dito anteriormente que os republicanos dos EUA estão "predominantemente comprometidos a acabar com a vida humana no planeta".

O presidente Donald Trump já classificou como "boatos" as pesquisas científicas que costumam embasar políticas sobre mudanças climáticas.

Em 2016, durante sua campanha, ele prometeu retirar os EUA do Acordo de Paris, um tratado internacional assinado por vários países que se comprometeram em combater as mudanças climáticas.

A gestão Trump, contudo, acabou de assinar a Declaração de Fairbanks, documento que classifica as mudanças climáticas como "séria ameaça" à região do Ártico e defende medidas para reduzir seus efeitos potencialmente prejudiciais.

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