A volta dos fantasmas da guerra de Biafra, que deixou 1 milhão de mortos há 50 anos

Nnamdi Kanu ao ser solto sob fiança, em abril Direito de imagem AFP/Getty
Image caption Acusado de traição, líder separatista ficou preso por mais de um ano e meio sem ter sido julgado

A República de Biafra foi uma pequena nação africana que existiu por só 31 meses, a partir de maio de 1967. Tais ambições separatistas levaram a uma guerra civil que virou uma das maiores tragédias humanitárias da história recente da África.

Entre 1967 e 1970, a luta pela independência desse território no sudeste da Nigéria - com 71 mil km2 e 18 milhões de habitantes - resultou na morte de mais de 1 milhão de pessoas, a maioria delas vítimas da fome, por conta de um bloqueio estatal que impediu o acesso de alimentos e medicamentos à região. Até que, em 1970, Biafra acabou reincorporada à Nigéria.

Agora, os fantasmas desse conflito parecem estar voltando: na semana passada, após vários meses de protestos e tensão, foi libertado Nnamdu Kanu, um dos líderes da República de Biafra. Acusado de traição, ele ficara detido por mais de um ano e meio sem ter sido julgado e saiu sob fiança.

Kanu havia fundado em 2014 o movimento Povo Indígena do Biafra (Ipob, na sigla em inglês), que demanda a independência de um conjunto de Estados nigerianos em que a população é formada em sua maioria pelo grupo étnico igbo.

Esse plano existe há 50 anos, quando líderes igbo declararam pela primeira vez a existência de Biafra, mas, após uma guerra brutal, a rebelião foi derrotada - mas não os sentimentos separatistas hoje liderados por Kanu.

Image caption Prisão de Kanu levou a diversos protestos na Nigéria

Ele era uma figura relativamente desconhecida até 2009, quando criou a Rádio Biafra para defender a separação do território, realizando transmissões desde a capital britânica, Londres, para a Nigéria.

Apesar de ter crescido no sudeste da Nigéria e estudado na Universidade de Nsukka, localizada na mesma região do país, Kanu se mudou para o Reino Unido antes de se formar.

Depois de criar o Ipob, fez pronunciamentos para grandes grupos de imigrantes da etnia igbo a favor da independência. Em algumas ocasiões, pediu que cidadãos participassem de uma insurgência armada contra o Estado nigeriano.

"Precisamos de armas e precisamos de balas", disse ele em um dos seus discursos. E foi isso que chamou a atenção dos serviços de segurança da Nigéria.

'Frívolas'

No entanto, Amarachi Chimeremeze, porta-voz do Ipob, disse à BBC não ter se tratado de uma convocação à luta armada de fato: "Foi uma metáfora, para dizer às pessoas que vamos lutar por isso".

Esse argumento será ponderado pelo juiz quando o julgamento de Kanu ocorrer - seu início está previsto para julho.

Em outubro de 2015, pouco depois de chegar à Nigéria para uma visita, ele foi preso no seu hotel em Lagos, maior cidade do nigeriana, sob acusações de participar de uma "conspiração criminal", realizar "intimidação" e de ser "membro de uma organização ilegal", o que pode levá-lo a ser condenado por traição.

Seu advogado, Ifeanyi Ejiofor, disse à BBC que essas acusações são "frívolas": "Foram elaboradas para mantê-lo na prisão. São uma cortina de fumaça sem qualquer consistência".

Desde sua prisão, apoiadores do Ipob realizaram protestos na Nigéria, o que fez o movimento ganhar força. Eles acreditam que a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos são sinais de um crescente apoio internacional ao "direito de uma nação determinar seu próprio destino", algo que eles defendem.

Manifestações a favor da independência do Biafra foram dispersadas pela polícia. Há relatos de participantes feridos e mortos pelas forças de segurança, que negam.

A Anistia Internacional afirma que ao menos 150 pessoas morreram em protestos pró-independência entre agosto de 2015 e agosto de 2016.

A violência chamou atenção para a causa. Cheta Nwanze, analista político que fez uma longa pesquisa sobre o movimento separatista, diz que "a prisão de Kanu foi um erro, porque fez-se exatamente o que ele queria".

"Na época das eleições, em 2015, sua rádio estava perdendo popularidade. Foi quando ele decidiu vir para a Nigéria para ser preso."

Image caption Analista poítico avalia que ser preso era exatamente o objetivo de Kanu ao voltar à Nigéria

Nwanze acusa Kanu de ser um oportunista e destaca um vídeo em que ele discursa em um protesto em Londres contra o Boko Haram, grupo extremista que atua na Nigéria, alguns meses antes de criar o Ipob, no qual ele fala sobre a necessidade de se impedir que o país seja dividido.

A porta-voz do Ipob nega que Kanu tenha retornado ao país para ser preso e diz que ele teria feito isso para mostrar seu compromisso com a luta pela independência.

"Ele voltou para provar que realmente deseja ver concretizado tudo que disse. O governo nigeriano agiu como se estivesse seguindo um roteiro e o prendeu", disse Chimeremeze à BBC.

'Tribo perdida de Israel'

Grupos de defesa de diretos humanos e alguns políticos mais experientes vinham pedindo a libertação de Kanu, argumentando que sua longa detenção sem um julgamento é ilegal.

Como é comum na Justiça nigeriana, o andamento do caso está atrasado. Neste um ano e meio em que o líder separatista ficou na prisão, não houve qualquer progresso significativo.

O governo ignorou diversas ordem judiciais determinando que ele fosse liberado sob fiança até uma nova decisão ser proferida na semana passada com base em "motivos de saúde".

Direito de imagem AFP
Image caption Anistia Internacional diz que ao menos 150 pessoas foram mortas em protestos entre agosto de 2015 e agosto de 2016

Mas ele foi liberado sob duras condições: Kanu não pode fazer declarações públicas, conceder entrevistas ou se reunir com mais de dez pessoas ao mesmo tempo.

Também precisou que um proeminente líder igbo e importante integrante da comunidade judaica nigeriana garantisse o pagamento de sua fiança, de US$ 260 mil (R$ 830 mil).

Kanu afirma ser um igbo judeu, membro de um grupo que se identifica como descendente de uma tribo perdida de Israel que se estabeleceu no oeste africano.

É difícil medir a força do seu movimento pela independência. Ainda que a guerra tenha dado fim às ambições separatistas de muitos cidadãos de Biafra, muitos igbos sentem que são tratados injustamente na Nigéria.

E alguns criticam o presidente Muhammadu Buhari por ele ter sido um dos soldados que derrotaram os separatistas em 1970.

Por sua vez, foi celebrada a atitude do vice-presidente Yemi Osinbajo de abrir um canal de diálogo sobre o ocorrido durante a guerra de Biafra.

Ainda não está claro qual será o futuro de Kanu e do Ipob. O movimento pode seguir o mesmo rumo do Massob, sigla em inglês para um grupo separatista prévio que perdeu influência após seu líder ser preso em 2005 e liberado dois anos depois.

Mas uma coisa é certa. Neste ano completa cinco décadas a ideia da independência de Biafra - e, há cinco décadas, a Nigéria fracassa em dar fim a esse anseio no país.

Tópicos relacionados

Notícias relacionadas