Por que é tão difícil identificar os autores do ciberataque global - e onde podem estar as pistas

WannaCry ransomware Direito de imagem EPA

Enquanto as empresas afetadas ao redor do mundo pelo ransomware WannaCry tentam se reorganizar, as atenções se voltam agora para descobrir quem promoveu o ataque cibernético devastador.

O vírus foi espalhado através de uma vulnerabilidade do sistema operacional Windows que havia sido identificada pela Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos.

Os hackers se aproveitaram da vulnerabilidade para infectar computadores em dezenas de países, orquestrando um "sequestro" e pedindo um "resgate" dos arquivos, que supostamente seriam liberados mediante um pagamento em bitcoins.

Até agora, ninguém parece saber quem são os responsáveis ou onde eles estão.

O diretor de pesquisas da empresa de segurança F-Secure, Mikko Hypponen, diz que as análises da companhia ainda não conseguiram revelar de onde partiu o ataque.

"Estamos rastreando mais de cem grupos de hackers diferentes, mas não temos informações sobre de onde o WannaCry está vindo".

As pistas que podem revelar quem estaria por trás do problema até agora são poucas e distantes entre si.

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Image caption O rastreamento dos pagamentos via bitcoins pode ser útil para identificar os responsáveis

Análise

A primeira versão do vírus apareceu no dia 10 de fevereiro e foi usada numa campanha de ataques curtos que começou em 25 de março.

E-mails spams e websites de "armadilha" foram usados para espalhar o WannaCry 1.0, mas quase ninguém foi pego na primeira tentativa.

A versão 2.0 - que atingiu milhares de pessoas na última sexta-feira - é muito parecida com a original, a não ser pela inclusão de um módulo que transformou o vírus em uma espécie de verme capaz de se propagar sozinho. Ou seja, nem era preciso clicar em nada para ter o computador infectado, já que o vírus conseguia, ao entrar em uma rede, invadir todas as máquinas dentro dessa rede.

De acordo com o Lawrence Abrams, editor do site de notícias Bleeping Computer, que rastreia ameaças virtuais, a análise do código interno do WannaCry revelou pouco sobre o ataque.

"Em alguns casos de ransomware, conseguimos pistas com base nos rastros dos arquivos executáveis ou caso tenham feito o upload (dos vírus) para checar se ele é detectável antes da distribuição", disse Abrams.

Essas pistas poderiam apontar se o ataque é obra de algum grupo já estabelecido, mas até agora não é possível ter certeza.

"Foi (um ataque) bastante limpo", conclui ele.

Outros pesquisadores também perceberam aspectos do vírus que sugerem que esse pode ser o trabalho de um grupo novo.

Muitos apontam que o vírus afeta facilmente os computadores que usam o alfabeto cirílico - usado, por exemplo, pelos russos. Ao mesmo tempo, muitos dos vírus que estão sendo distribuídos a partir da Rússia tentam justamente evitar de maneira ativa atingir as pessoas daquele país.

Além disso, o horário marcado no código infeccioso indica que ele partiu de uma máquina que está nove horas atrás do horário GMT - o que sugere que os responsáveis estariam no Japão, Indonésia, nas Filipinas ou no extremo oriente da China e da Rússia.

Deficiências

Há outras pistas sobre a forma curiosa com a qual o WannaCry opera que sugerem que esse possa ser o trabalho de alguém novo no ramo.

Para começar, o sucesso do vírus foi quase que demasiado, já que ele fez mais de 200 mil vítimas - um número muito maior que os afetados por ransomwares que costumam alvejar grandes organizações. E administrar esse número enorme de vítimas vai ser bem difícil.

Seja quem for que estiver por trás do vírus, inadvertidamente o deixou deficiente por não registrar o domínio no seu código central. E isso facilitou que o pesquisador especialista em segurança Marcus Hutchins limitasse a propagação, já que Hutchins conseguiu registrar e tomar o controle desse domínio.

Há ainda outros métodos usados para administrar as máquinas infectadas pelo vírus - o mais conhecido deles seria usar o software Tor, que proporciona o anonimato pessoal durante a navegação pela chamada dark web -, e as atividades nesses endereços estão sendo examinadas.

Segundo o professor Alan Woodward, da Universidade de Surrey, na Inglaterra, há ainda outros artefatos no código do vírus que podem ser úteis para os investigadores.

Um deles é verificar se o uso do domínio que desativou a propagação do vírus, conhecido como "kill-switch", foi consultado antes de o vírus ser enviado.

Ele ainda alerta que outras informações podem ter sido incluídas no código do vírus por razões diferentes.

"Em alguns casos os criminosos colocam bandeiras falsas para confundir e ofuscar", disse.

Dinheiro

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Image caption O mapa das infecções pelo WannaCry

O pagamento de "resgate" exigido pelos hackers costuma ser na moeda virtual bitcoin.

A maioria dos ataques de grande escala provocados por ransomwares geram um endereço único de bitcoin para cada infecção. Isso facilita o trabalho dos ladrões e garante que eles possam restaurar os arquivos somente das pessoas que pagaram pelo resgate.

Mas o WannaCry usou três endereços de bitcoin codificados para recolher pagamentos dos resgates, o que dificulta a identificação de quem fez os pagamentos, assim como a devolução dos arquivos às máquinas daqueles que efetuaram os pagamentos - isso levando em conta que o grupo por trás do ataque tenha a intenção de devolver os arquivos sequestrados.

Para James Smith, diretor executivo da Elliptic, empresa que analisa as transações em bitcoin, os pagamentos na moeda virtual podem ser a melhor forma de rastrear os criminosos, já que o sistema registra quem gastou o quê.

Segundo ele, o bitcoin não é tão anônimo quanto a maioria dos ladrões gostaria, porque toda transação fica publicamente registrada na cadeia.

Isso poderia ajudar os investigadores a montar o quebra-cabeças sobre o fluxo do dinheiro - de onde ele está partindo e para onde está indo.

"Os criminosos são motivados pelo dinheiro, então eventualmente esse dinheiro será coletado e transferido. A grande questão é quando esse movimento será feito, e esperamos que isso dependa de quanto seja pago em resgates nos próximos dias".

Atualmente, o total pago a esses endereços de bitcoins é de mais de US$ 50 mil (R$150 mil).

"Todos estão olhando para esses endereços com muito cuidado", disse Smith.

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