Com reeleição, iranianos dizem 'sim retumbante' a presidente e dão aval para reformas no país

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Image caption Atual presidente começou o mandato no centro do espectro político islâmico e o termina à esquerda

A reeleição já seria um sinal da aprovação dos iranianos ao primeiro mandado do moderado Hassan Rouhani, de 68 anos. Mas a vitória do atual presidente do país se deu em condições ainda mais favoráveis: ocorreu ainda no primeiro turno e com uma ampla vantagem sobre o segundo colocado, o clérigo conservador Ebrahim Raisi.

Rouhani teve 57% do 40 milhões de votos, segundo o Ministério do Interior do país, enquanto Raisi ficou com 38,5%.

"Os iranianos disseram um 'sim' retumbante ao presidente Rouhani, que prometeu governar com uma visão moderada e olhando para fora do país", avalia o jornalista Kasra Naji, da BBC Persa.

"Nos últimos anos e especialmente nas várias semanas de campanha, ele prometeu expandir as liberdades políticas e individuais e responsabilizar os centros de poder, como a Guarda Revolucionária, por seus atos."

Agora, explica Naji, Rouhani terá mais tempo para "concretizar suas reformas, dar um fim ao extremismo no país e construir pontes com o mundo para colocar a economia de volta nos trilhos."

Principal rival do presidente, Raisi apontou terem ocorrido irregularidades na votação de sexta-feira e acusou apoiadores do presidente de terem feito propaganda eleitoral ilegal.

O fim da votação foi adiado em cinco horas, até meia noite, porque um número de pessoas maior do que o esperado foi às urnas - cerca de 70% da população. Autoridades disseram ter ampliado o horário "atendendo a pedidos" e por conta do "entusiasmo da população em participar" da eleição.

'Sem precedentes'

Naji, da BBC Persa, relata que políticos "linha-dura" representados nesta disputa por Raisi se esforçaram ao máximo para assumir o controle do único centro de poder do país que ainda não detêm: o Executivo.

Em reação, aqueles ao lado de Rouhani se mobilizaram na mesma medida, o que levou um comparecimento às urnas "sem precedentes". O jornalista destaca que, na capital Teerã, 5 milhões de pessoas votaram, o dobro da eleição anterior, em 2013.

"Foi uma vingança do povo contra os políticos linha-dura que os intimidaram, prenderam, executaram, os levaram ao exílio, os tiraram de seus empregos e discriminaram as mulheres", afirma Naji.

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Image caption Votação teve uma participação popular acima do esperado - 70% foram às urnas

Houhani começou seu primeiro mandato no centro do espectro político islâmico e, agora, iniciará o segundo posicionado à esquerda, ao lado dos reformistas.

Um dos principais pontos de sua campanha foi o acordo aceito por ele há dois anos de limitar a atividade nuclear no país em troca do fim das sanções. Ele quer manter isso de pé, ainda que o presidente americano Donald Trump busque pressionar o Irã e diga que pode romper com o combinado.

Na campanha, Rouhani afirmou que uma simples escolha errada do futuro presidente poderia colocar o país em uma guerra, perspectiva que perdeu força desde o acordo de 2015.

Rouhani também prometeu fortalecer a economia do páis, atualmente em crise, dar fim a limitações impostas à vida pessoal e política dos iranianos, afastar o Irã do pensamento extremista, ampliar o acesso à internet e buscar reestabelecer o contato do país com o mundo.

Ele tem sido uma figura importante na política iraniana desde a revolução de 1979, que deu fim à monarquia e instaurou uma república islâmica. Também foi influente durante a guerra com o Iraque, entre 1980 e 1988, e já assumiu diversos cargos importantes.

Entre 1989 e 2005, foi o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional (CSSN), o principal órgão de tomada de decisão do país e que responde diretamente ao chefe de Estado do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Ele deixou esse posto poucos semanas depois do combativo Mahmoud Ahmadinejad se tornar presidente, por terem visões políticas antagônicas.

'Moderação e prudência'

Ao se candidatar pela primeira vez, em 2013, seu lema de campanha foi "moderação e prudência", algo que ressoou junto a muitos iranianos que viam sua qualidade de vida e a reputação do país afundarem sob o comando de Ahmadinejad. Ele prometia aliviar as sanções, trabalhar por direitos civis e reestabelecer a "dignidade da nação".

"Muitos acreditam que ele não era a primeira escolha do aiatolá, mas que o Supremo Líder acabou por apoiar Rouhani por ver nele uma possibilidade de dar fim aos confrontos em torno da atividade nuclear no país sem desestabilizar todo o sistema", afirma Naji, da BBC Persa.

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Image caption Desde 1979, o Irã é uma república Islâmica em que o chefe de Estado é o Líder Supremo

Poucas semanas após assumir o cargo, Rouhani telefonou para o então presidente americano Barack Obama - o primeiro contato direto entre Irã e Estados Unidos desde a revolução. Também conseguiu que o aiatolá permitisse que o Ministério do Exterior, e não o CSSN, ficasse responsável pelas negociações nucleares com o Ocidente.

De partida, Rouhani disse que não haveria "soluções da noite para o dia" para os muitos problemas do Irã. "O fim das sanções não tem gerado o impacto esperado sobre a economia, e muitos iranianos dizem não ter sentido diferença no seu dia-a-dia", afirma Naji. "A economia segue em marcha lenta e precisa desesperadamente de investimento externo."

Rouhani prometeu ajudar a libertar líderes reformistas da oposição, presos desde 2011 sem julgamento, mas políticos linha-dura dificultaram a missão e os mantêm em prisão domiciliar.

O presidente também afirmou que trabalharia em prol da liberdade em um país onde abusos de direitos humanos ocorrem com frequência. Mas poucos acreditam que isso tenha melhorado durante seu mandato, e, em algumas áreas, avaliam que piorou.

Ainda há muitos jornalistas e ativistas da oposição presos, e o número de execuções no país aumentou muito. A mídia continua a ser bastante censurada sob o comando de Rouhani, e a internet permanece controlada.

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