O professor nerd que vai disputar um título mundial de boxe contra Manny Pacquiao

Jeff Horn em foto de 2012 Direito de imagem Getty Images
Image caption Horn em 2012, quando disputou a Olimpíada de Londres; atleta fez renascer interesse australiano pelo boxe

Na sala de aula, ele era chamado de senhor Horn. No ringue, porém, ele se transforma na Vespa.

Um relativamente desconhecido professor de educação física australiano está prestes a disputar o título mundial de boxe na categoria meio-médio, contra o filipino Manny Pacquiao.

Se Jeff Horn, de 29 anos - chamado também de "o professor lutador" - conseguir superar o atual campeão, mudará sua vida para sempre.

Sua história no boxe começou 11 anos atrás, quando ele - que se descreve como nerd - entrou em uma academia para aprender autodefesa.

Ainda estudante, seus hobbies eram livros e jogos de tabuleiro, e ele constantemente sofria bullying dos colegas.

O único lutador de sua família era seu avô, Ray Horn, que havia participado de lutas nos anos 1930.

Seu pai, Jeff Horn sênior, é um construtor. Sua mãe, Liza Sykstra, trabalha para uma organização de assistência social.

"Biguei poucas vezes no ensino médio", conta Horn à BBC. "E poucas vezes eu ganhei."

Direito de imagem EPA
Image caption Jeff Horn vai enfrentar Manny Pacquiao em 2 de julho, com torcida favorável

Mas seu treinador, Glenn Rushton, disse a Horn que ele seria capaz de se tornar um campeão de boxe e decidiu ensiná-lo.

"Vi um talento natural nele - tinha pernas boas e eficientes, era competitivo", declarou Rushton ao jornal australiano The New Daily.

Em 2012, Horn chegou às quartas-de-final do boxe da Olimpíada de Londres, ao mesmo tempo em que concluía seus estudos em Educação.

Chegou a dar aulas em escolas públicas australianas enquanto buscava a profissionalização no boxe, até chegar no ponto atual: é considerado o segundo melhor peso meio-médio do mundo, atrás apenas de Pacquiao. A derrota em Londres foi sua última até agora.

"Estou a apenas um mês da maior luta da minha vida", disse Horn no começo de junho. "Tenho recebido mensagens de meus ex-alunos me desejando sorte."

'Batalha de Brisbane'

Marcada para 2 de julho, a luta entre Horn e Pacquiao está sendo considerada a mais importante da história da Austrália e fez renascer, ao menos temporariamente, o interesse do país pelo boxe. Está sendo chamada de "a Batalha de Brisbane", em referência à cidade que sediará o combate.

São esperados mais de 50 mil espectadores no ginásio, e os ingressos para o evento custam centenas de dólares.

A luta também será televisionada para mais de 150 países, segundo o empresário de Horn, Jim Banaghan.

Direito de imagem Getty Images
Image caption Pacquiao é considerado uma lenda do boxe: já ganhou títulos em oito categorias de peso

Tudo isso fez com que a família e a mulher de Horn se vissem diante de um frenesi midiático.

"Eles estão felizes por mim, mas também nervosos", diz o australiano. "Não querem que eu me machuque."

Mas a "Batalha de Brisbane" talvez seja apenas um evento secundário se comparada à luta de 2015 entre Pacquiao e Floyd Mayweather, que se converteu na mais lucrativa da história do boxe.

Pacquiao, 38, que também é senador nas Filipinas, parecia mais interessado em seu celular do que em seu oponente quando participou de uma série de entrevistas promocionais em abril.

"Sei que o que meu oponente está sentindo agora é fome", disse Pacquiao na ocasião. "Já passei por isso. Estive nessa situação. Quando comecei, quando era jovem, até à noite, antes de dormir, eu pensava nas lutas."

Direito de imagem Getty Images
Image caption Pacquiao também protagonizou a luta mais lucrativa da história, contra Floyd Mayweather

Será que Horn tem, então, alguma chance contra Pacquiao, uma lenda do boxe atual e o único boxeador a ter vencido títulos em oito categorias de peso diferentes?

Qualquer que seja o resultado da luta, ela mudará a vida do professor australiano, que se tornará um milionário com o que ganhará dos patrocinadores. E uma vitória pode se tornar um dos maiores feitos do esporte australiano.

O lendário promotor do boxe Bob Arum, que chegou a trabalhar com Muhammad Ali, acredita que a torcida em casa pode dar a Horn uma vantagem considerável.

"Se a luta contra Pacquiao fosse em Las Vegas ou no Madison Square Garden, em Nova York, não veria muitas chances (para Horn) porque acho que ele nunca tomaria o controle", afirmou ao jornal Courier-Mail. "Mas o fato de lutar em frente de tantos conterrâneos vai acalmar os nervos de Jeff, e acho que ele vai se sair bem."

Direito de imagem ABC
Image caption Horn começou a carreira como professor até buscar o boxe como forma de autodefesa

O boxeador australiano Anthony Mundine, dono de três títulos mundiais, disse que um revés de Pacquiao é possível, mas recomenda que o filipino de 38 anos não seja subestimado.

"Ainda que ele esteja no fim da carreira e tenha passado o seu auge, ainda é um lutador perigoso", afirmou à Associated Press. "Mas tudo pode acontecer no boxe."

Horn tem treinado seis dias por semana, imaginando como será entrar no ringue diante de milhares de fãs e diante de Pacquiao.

À primeira vista, os lutadores não poderiam ser mais diferentes entre si. Pacquiao viveu uma infância de miséria nas Filipinas e agora tenta a sorte na política. Horn teve uma vida de relativa prosperidade na Austrália e se tornou professor. Será que eles têm algo em comum?

"Parece que nós dois somos caras legais - exceto quando dentro do ringue", diz Horn. "Vamos tentar acabar um com o outro."