Por que a mesquita destruída em Mossul na batalha contra o Estado Islâmico era importante

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Image caption Bandeira preta do EI foi hasteada durante a batalha por Mossul

A Grande Mesquita de al-Nuri, em Mossul, no Iraque, foi destruída durante confronto entre as forças do governo e o grupo extremista autodenominado Estado Islâmico.

O Exército do Iraque informou que os militantes explodiram a mesquita e a minarete (torre muçulmana) de al-Hadba, um dos marcos mais famosos da cidade. O EI, por sua vez, acusou a coalizão coordenada pelos EUA de destruir o prédio, que tinha enorme importância simbólica para ambos os lados do conflito.

Foi nela que o líder do grupo, Abu Bakr al-Baghdadi, fez uma rara aparição pública no início de julho de 2014, na qual proferiu um discurso proclamando a criação de um novo "califado" poucas semanas depois de seus homens tomarem o controle da cidade.

A Grande Mesquita recebeu o nome de Nur al-Din Mahmoud Zangi, um governante turco de Mossul e Aleppo, que ordenou sua construção em 1172, dois anos antes de sua morte.

Durante seus 28 anos de comando, Nur al-Din conquistou Damasco e pavimentou o sucesso de Saladin, que serviu como seu comandante no Egito antes de fundar a dinastia Ayyubid e retomar Jerusalém em 1187.

Nur al-Din também é reverenciado pelos jihadistas por seus esforços para fazer a ortodoxia muçulmana sunita prevalecer sobre o xiismo.

Apesar da sua conexão com uma personagem tão ilustre, tudo o que restava da mesquita original era uma minarete inclinada, algumas colunas e o mirabe, um nicho indicando a direção de Meca.

A torre cilíndrica era coberta de um elaborado trabalho de tijolos inspirado pelo design iraniano e coberto com uma pequena cúpula de gesso branco.

No momento que foi concluída, a torre tinha 45 metros de altura. Mas quando o explorador Ibn Battuta visitou Mossul, no século 14, a torre já estava bastante inclinada e tinha o apelido de "al-Hadba", ou "jubarte".

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Image caption O minarete de Hadba já estava inclinada em imagem de 1932

Mistério e sangue

A causa da inclinação nunca foi totalmente conhecida. De acordo com a tradição local, a torre se curvou ao profeta Maomé quando ele passou por cima dela ao subir ao céu, ignorando o fato de que ele morreu séculos antes de ela ter sido construída.

Especialistas acreditam que a inclinação foi causada pelos fortes ventos do noroeste, o efeito do sol nos tijolos no lado sul ou o fraco gesso usado para manter os tijolos juntos.

Bombas que atingiram Mossul durante a Guerra entre Irã e Iraque também destruíram canos subterrâneos próximos à base do minarete, permitindo que o esgoto enfraquecesse as fundações.

Em 2012, a Unesco - agência da ONU para educação, ciência e cultura - calculou que a torre ficou inclinada em 2,5 metros do eixo perpendicular e alertou que tinha um grave problema de estrutura, com risco de desmoronar.

Em 2 de junho de 2014, a agência anunciou ter começado conversas com o governo provincial de Nineveh com o objetivo de estabilizar o minarete.

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Image caption Militantes EI controlaram Mossul em junho de 2014 antes de avançar rumo ao norte do Iraque

Mas no fim daquela semana, Mossul virou palco de confrontos violentos iniciados quando militantes do que era conhecido como Estado Islâmico no Iraque e do Levante (EIIL) realizaram um ataque surpresa.

Depois de tomarem a cidade, eles se dirigiram ao sul rumo à capital Bagdá, tomando o controle de grande parte das províncias de Nineveh, Salahuddin e Diyala em questão de dias.

Em 12 de junho, militantes mataram sumariamente o imã da Grande Mesquita, Mohammed al-Mansouri, por se recusar a se unir a eles, de acordo com a ONU.

No final de junho, o EI declarou formalmente o "califado", um estado governado, de acordo com a Sharia, pelo substituto de Deus na Terra, o califa.

Abu Bakr al-Baghdadi se nomeou califa Ibrahim e exigiu fidelidade de muçulmanos ao redor do mundo. O grupo se renomeou Estado Islâmico, retirando a menção ao Iraque e do Levante.

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Image caption Líder do EI, Abu Bakr al-Baghdadi, proferiu um sermão da sexta-feira na Grande Mesquista em julho de 2014

Em 4 de julho daquele ano, Baghdadi proferiu um sermão de sexta-feira do púlpito da Grande Mesquita de al-Nuri - sua primeira aparição pública em muitos anos.

Vestido com robe e turbante pretos - um sinal de que ele diz ser descendente da tribo do profeta Maomé Quraysh - Baghdadi disse que aceitou com relutância o título de "comandante dos fiéis".

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Image caption Moradores de Mossul disseram que EI tentaram explodir o minarete de Hadba antes de tomar a cidade

No final do mês, moradores reclamaram que militantes do EI tentaram explodir o minarete de Hadba como parte do esforço para destruir santuários e túmulos reverenciados por muçulmanos, o que o grupo jihadista condena.

Dois moradores disseram que, quando militantes chegaram na Grande Mesquita carregando explosivos, uma multidão correu para o pátio e deu as mãos para formar uma corrente humana ao redor da torre.

Os militantes supostamente recuaram e saíram após serem advertidos por essas pessoas: "Se vocês explodirem o minarete, terão de nos matar".

Os moradores estavam certos de que os extremistas iriam voltar, mas o minarete ainda estava de pé quando as forças de segurança iraquianas se moviam como parte de uma ofensiva para retomar Mossul, iniciada pelo governo em outubro passado com o apoio aéreo e terrestre da coalizão liderada pelos EUA.

Na quarta-feira à noite, o comando iraquiano responsável pela ofensiva disse que o Serviço de Combate ao Terrorismo avançou a 50 metros da mesquita e do minarete quando os militantes do Estado Islâmico "cometeram outro crime histórico" e explodiram a edificação.

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