China faz alerta a Hong Kong duas décadas após saída dos britânicos

Pro-democracy activists chant slogans on the Golden Bauhinia Square, a gift from China at the 1997 handover, during a protest a day before Chinese President Xi Jinping is due to arrive for the celebrations, in Hong Kong, China 28 June 2017. Direito de imagem Reuters
Image caption Ativistas pró-democracia protestam antes da chegada do presidente chinês; eles querem eleições diretas para chefe executivo do território

Há exatamente vinte anos, em 1º de julho de 1997, o Reino Unido devolvia Hong Kong à China e e encerrava um domínio de mais de 150 anos sob o território.

Passadas duas décadas, algumas coisas mudaram, mas Hong Kong ainda se divide entre aqueles favoráveis à soberania absoluta chinesa e aqueles que desejam mais liberdade de expressão e direito a voto.

As celebrações da data, inclusive, foram marcadas por protestos de ativistas críticos ao governo chinês, que chegaram até mesmo a ser presos - e depois libertados.

Em seu discurso na primeira visita que fez à cidade desde que se tornou presidente da China, Xi Jinping fez justamente um alerta sobre atos contra a soberania chinesa que "são inaceitáveis".

"Qualquer tentativa de colocar em risco a soberania e a segurança da China, ou que desafiam o poder do governo centra... ou qualquer tentativa de usar Hong Kong para realizar atividades de infiltração e sabotagem contra o continente será considerada um ato que ultrapassa a linha vermelha e é absolutamente inadmissível", disse ele.

Xi Jinping disse ainda que Hong Kong nunca teve tanta liberdade como tem agora.

No entanto, apesar de a lei aprovada na região quando ela foi devolvida à China afirmar que a cidade deveria ser governada pelo princípio de "um só país, dois sistemas distintos", a recusa do governo chinês em liberar o voto universal para eleger os governantes de Hong Kong tem acirrado os ânimos principalmente dos jovens no país.

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Image caption Protestos marcaram as celebrações dos 20 anos de devolução de Hong Kong à China

A maior onda de protestos pela democracia na região aconteceu em 2014, mas nas celebrações deste fim de semana, também houve manifestações contra a China e algumas pessoas foram detidas.

Em sua visita ao país, Xi Jinping aproveitou para acompanhar o juramento e saudar Carrie Lam, a primeira mulher a se eleger chefe executiva de Hong Kong. Ela recebeu quase 800 votos dos 1.194 possíveis no Comitê Eleitoral em janeiro - a eleição na região é feita por esse comitê, e a crítica de parte da população é que a maioria dele é vista como "pró-China".

A BBC aproveita esta data comemorativa para resgatar a história de Hong Kong e listar alguns dos desafios que a região enfrenta atualmente.

A guerra do Ópio

Efetivamente, Hong Kong passou a ser território britânico ao final da primeira Guerra do Ópio, em 1842, quando foi anexado pelo Reino Unido. Esse foi um dos primeiros exemplos do que ficou conhecido posteriormente como "a diplomacia dos canhões".

Nessa época, o Reino Unido importava quase todo o chá consumido no país da China, mas não conseguia que o país asiático se interessasse por nenhum dos produtos que tinha para oferecer como exportação.

Até que a Companhia Britânica das Índias Orientais encontrou algo que poderia equilibrar aquela balança comercial (à época completamente desigual): o ópio.

A droga foi rapidamente proibida pelas autoridades chinesas , e foi aí que os britânicos recorreram aos contrabandistas.

E quando o imperador Daoguang reclamou que o tráfico ilegal estava gerando milhões de viciados em seu país, suas queixas foram ignoradas.

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Image caption Último governador britânico de Hong Kong recebe a bandeira depois de ela ter sido baixada pela última vez

Foi então que, em 1839, as autoridades chinesas confiscaram 20 mil caixas de ópio. E o Reino Unido respondeu enviando um pequeno exército que, em poucos anos, derrotou completamente as forças chinesas e obrigou Pequim a assinar um acordo de paz humilhante.

Entre as condições impostas pelo Tratado de Nanquim estavam o pagamento de 21 milhões de dólares de prata para reparar os danos causados, além da abertura de vários portos do país a todos os navios mercantis.

E, acima de tudo, o acordo previa a cessão perpétua da ilha de Hong Kong - pouco tempo depois, os britânicos também anexariam a vizinha península de Kowloon, em 1860.

Essa nova concessão também foi arrancada a força no fim da Segunda Guerra do Ópio, quando o Reino Unido foi além e obrigou a China a permitir o comércio da droga.

O atual território de Hong Kong ficou assim em um outro acordo assinado em 1898, quando a China cedeu os chamados "Novos Territórios" (incluindo 235 ilhas vizinhas) para uso britânico por 99 anos. Esse "contrato" venceu em 1997, quando, então, o Reino Unido devolveu a região para o governo chinês.

'Um país, dois sistemas'

Segundo a historiadora Diana Preston, o britânico responsável por negociar o último acordo com os chineses, Claude McDonald, colocou a vigência por um período de 99 anos porque achava que aquilo seria o mesmo que "para sempre".

Mas conforme os "Novos Territórios" foram ganhando importância, a pressão para que eles fossem devolvidos à China aumentou. Ainda mais porque o próprio país asiático estava cada vez mais poderoso e decidido a romper com acordos antigos que o governo considerava injustos.

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Image caption Após mais de 150 anos de domínio britânico, Hong Kong foi devolvido à China em 1º de julho de 1997

Para a devolução de Hong Kong à China, o Reino Unido iniciou um processo de negociação com o país asiático que começou em 1982. Uma das principais dificuldades era que, enquanto a China vivia em um sistema econômico comunista desde 1949, Hong Kong era regida segundo os princípios do capitalismo e democracia britânicos.

Naquela época, o território havia se tornado um dos principais centros financeiros e comerciais do mundo.

Sendo assim, reconhecendo essas diferenças, a China aceitou governar Hong Kong sob o princípio de "um único país, e dois sistemas distintos", garantindo que o território teria um "alto nível de autonomia, com exceção feita à defesa e às relações exteriores" pelos próximos 50 anos.

Assim, na prática, foi feito de Hong Kong uma "Região Administrativa Especial". Isso fez com que o território tivesse seu próprio sistema de leis, diversos partidos políticos e direitos essenciais garantidos, como liberdade de expressão.

Na miniconstituição criada para pontuar esses direitos, que ficou conhecida como "Leis Básicas", é estabelecido claramente que "o objetivo final é que o líder do território seja eleito por voto universal e de acordo com os procedimentos democráticos".

Democracia

O direito de eleger diretamente um chefe executivo - cargo que, com a devolução à China, veio para substituir o de governador, que antes era nomeado pelo Reino Unido - tem sido motivo de grandes protestos e reivindicações da população do território.

No entanto, ainda hoje, não há uma eleição democrática para o cargo. O chefe é eleito por um comitê de cerca de 1.200 membros - e a maioria deles é considerada pró-China.

Além disso, somente a metade dos membros do Conselho Legislativo - algo similar a um parlamento local - são eleitos diretamente, sendo que a outra metade é nomeada por grupos profissionais com interesses especiais.

O clamor popular pela democracia aumentou em 2014, quando o governo chinês decidiu que iria permitir a eleição direta para chefe executivo, mas daria ao povo a chance de escolher entre uma lista de candidatos pré-aprovados pela China. Foi aí que uma onda de protestos tomou conta das ruas de Hong Kong.

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Image caption Hong Kong está dividido entre quem defende a soberania chinesa e quem pede democracia e quer fortalecer a identidade local

Os ativistas pela democracia criticaram a iniciativa chinesa porque consideram que, dessa maneira, o país poderá descartar qualquer candidato que tenha ideias contrárias ou pouco agradáveis ao seu governo.

Ainda assim, nem todo mundo é a favor da democracia plena com eleições diretas em Hong Kong. Há grupos no território que defendem a soberania chinesa e que argumentam que a contínua desobediência civil e oposição a Pequim só prejudicaria a reputação e a economia da cidade, bem como sua relação com a China.

Estudiosos veem que, desde a devolução de Hong Kong para a China, a cidade passou a viver de maneira dividida - afinal foram 100 anos desenvolvendo sua própria identidade, e agora 20 anos tendo que conviver sob o domínio e a influência de outra, completamente diferente.

"Com a devolução, muitos de nós pensamos que seria natural que crianças e jovens aprendessem o hino nacional (chinês) e aprendessem a respeitar e amar a China em suas aulas", disse o antropólogo Gordon Mathews.

Pequim pensava que Hong Kong aceitaria esse retorno à pátria chinesa depois de décadas de governo estrangeiro. Mas em vez disso, o povo de Hong Kong acabou desenvolvendo um forte senso de identidade local, que geralmente é definida pelo sentimento "anti-continente".

O jornalista de Hong Kong, Ching Cheong, lembrou que, em 1997, uma preocupação era a "continuação", se os valores de Hong Kong seriam destruídos, e o território seria transformado em "apenas outra cidade chinesa". Para ele, a identidade local só se fortaleceu, principalmente com as tentativas chinesas de exercer cada vez mais influência na região.

Futuro

Além disso, muitos também estão preocupados com essa influência cada vez maior da China em outros aspectos da política de Hong Kong - uma influência que vem de encontro à tradição mais liberal do território.

Mas também convivem ali aqueles que querem que o Partido Comunista da China se envolva mais nos assuntos da Região Administrativa Especial.

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Image caption Hong Kong tem diversos protestos contra a influência chinesa e pró-democracia desde 2014

E essas divisões ficam particularmente evidenciadas sempre durante o aniversário da devolução do território à China, especialmente agora, quando se aproxima o ano de 2047.

Na teoria, a partir desta data, a China já não está mais obrigada a manter a autonomia que foi garantida no acordo assinado com o Reino Unido à época da devolução.

Alguns acreditam que Hong Kong deveria buscar logo sua independência - mas a China sequer considera essa possibilidade.

Por enquanto, as possibilidades se resumem na extensão do status de "Região Administrativa Especial" ou na perda total da autonomia do território.

Com a nova geração cada vez mais politizada, os especialista preveem uma batalha política longa e dura sobre o futuro de Hong Kong.