'Foi assédio sexual em sua expressão máxima', diz executiva envolvida em novo escândalo no Vale do Silício

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Image caption Após caso envolvendo Dave McClure vir a público, Cheryl Yeoh decidiu compartilhar sua história para estimular outras mulheres a falar

As revelações da empresária malasiana Cheryl Yeoh, que denunciou por assédio sexual um dos maiores investidores do Vale do Silício, se converteram em um escândalo de grandes proporções no principal polo mundial de empresas de tecnologia.

Dave McClure renunciou ao cargo de diretor-executivo da empresa 500 Startups, que ele mesmo fundou, após as declarações de uma ex-funcionária - o que estimulou Yeoh a contar sua história de assédio, mais grave, em um blog.

Em sua primeira entrevista exclusiva, à BBC, ela explicou por que decidiu falar sobre o incidente, que ocorreu em 2014. "Fiquei chateada e ferida, mas também surpresa ao perceber que isso não era algo fora do comum e é considerado normal no mundo das startups, da tecnologia."

"Agora percebo que isso não é normal e que é parte do problema, Por isso precisamos falar alto e claramente e começar um debate sobre como mudar essa dinâmica e sua narrativa", afirma.

Na semana passada, uma das mulheres que tentou emprego na empresa de McClure contou, em uma reportagem no New York Times, como havia sido assediada por ele durante o processo de contratação e, ao rejeitá-lo, deixou de ser contatada pela empresa.

Em um texto publicado no site Medium, McClure reconheceu que havia passado dos limites "com muitas mulheres em situações relacionadas ao trabalho, nas quais claramente tive comportamento inapropriado". Ele também anunciou que renunciaria ao cargo.

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Image caption McClure foi acusado de assédio por mensagem de texto a uma jovem empresária e renunciou à direção de sua empresa

Avanços

O executivo recebeu diversas mensagens de apoio nas redes sociais por sua confissão, mas Yeoh decidiu revelar as situações pelas quais passou por considerar que o caso não havia sido tratado com a gravidade necessária.

"Naquele momento, a acusação era que ele tinha enviado uma mensagem de texto a uma empresária que participava de um processo de contratação dizendo: 'Não sei se devo te contratar ou dar em cima de você'. Isso não é bom, mas é uma ofensa menor", disse à BBC.

"Quando ele renunciou ao cargo e se desculpou, todos pensaram que foi por esse comentário. Muitas pessoas disseram: 'Você não merece isso, só agiu como homem, que mal há nisso?'. Mas elas não sabiam até que ponto ele havia assediado outras pessoas."

Em seu blog, ela relatou ter recebido propostas sexuais de McClure e ter sido agredida sexualmente por ele em 2014.

"Se alguém usa seu poder como investidor e faz avanços físicos e sexuais repetidos contra mulheres em um contexto profissional, isso vai além de ser repugnante", ela escreveu, em referência ao título do texto de McClure, "Eu sou repugnante. Me desculpem".

Yeoh disse que, em 2014, já tinha um relacionamento profissional com McClure. Depois de uma reunião na Malásia, o executivo e outros colegas decidiram ir a seu apartamento debater novas ideias.

Ela diz que McClure encheu seu copo de uísque sem que ela pedisse durante toda a noite e se recusou a ir embora junto com os colegas. Sem saber como reagir, conta, ela disse que ele poderia dormir no quarto de hóspedes se estivesse bêbado, mas ele tentou segui-la até seu quarto.

Quando ela o rejeitou e disse que ele deveria ir embora de seu apartamento, Yeoh conta que ele a prensou contra a parede, tentou beijá-la e disse "Só esta noite, por favor, só dessa vez", afirmando que gosta de mulheres "inteligentes e fortes como ela". Yeoh o empurrou e o colocou para fora de casa.

A empresária relatou ainda outras duas vezes, anos antes, em que McClure a havia convidado a "passar no seu quarto de hotel para conversar e tomar um vinho" e ela havia negado.

"Eu sequer o havia convidado (para o apartamento)", afirma. "Ele e alguns outros sócios quiseram vir para fazer um brainstorming de ideias e no mundo das startups é comum ter encontros assim após o trabalho. Muitos acordos são fechados fora dos escritórios."

Em resposta, a 500 Startups escreveu que apreciava "o fato de Cheryl ter se pronunciado, e compreendemos o quanto foi perturbador e doloroso para ela passar por essa experiência, e ter a coragem de revelá-la".

A BBC entrou em contato com Dave McClure, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

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Image caption Em seu blog, Yeoh conta em detalhes a noite em que sofreu um avanço de McClure, e outros episódios pelos quais passou anteriormente

'Envergonhado'

A partir do relato de Sarah Kunst no New York Times, pelo menos outras 12 mulheres a contactaram para falar sobre episódios de assédio sexual envolvendo McClure, segundo Yeoh.

"Não pude evitar pensar no que poderia ter acontecido se eu estivesse mais vulnerável e se ele tivese usado a força. Foi horrível, ninguém deveria passar por isso. Por isso acho que foi assédio sexual em sua máxima expressão", afirma.

"E também ocorreu uma dinâmica de poder. Ele tinha um acordo pendente conosco. Se eu falasse sobre o ocorrido, isso poderia comprometer a aceleradora de startups, o que não afetaria só a mim. Senti que não podia denunciá-lo porque toda a região seria afetada pelo que ocorreu naquela noite."

Yeoh diz que enviou a McClure um resumo do que contaria em seu blog antes de publicar o texto. Afirmou que ainda estava chateada e que as desculpas que ele publicou não eram suficientes.

"Ele me respondeu e disse que sabia, estava envergonhado e sentia muito, que não podia negar nada daquilo."

A BBC teve acesso a essa troca de mensagens.

Quando saiu do apartamento de Yeoh, McClure a enviou mensagens durante a madrugada. Ela soube, depois, que ele também escreveu a outra empresária de tecnologia e "se insinuou".

"Ela me mostrou as mensagens e eu fiquei impressionada (a BBC também teve acesso a estas capturas de tela). Esse não é o comportamento de alguém que estava bêbado e errou. Foi premeditado, ele tentou diversas vezes."

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Image caption Um júri da California descartou que houvesse discriminação de gênero no caso da executiva Ellen Pao em uma empresa de capital de risco no Vale do Silício, mas a repercussão do caso gerou outras denúncias

Receio

Segundo a empresária, a falta de conhecimento sobre as leis da Malásia a respeito de abuso sexual e sua posição como diretora-executiva de uma empresa de US$ 30 milhões também a impediram de denunciar. "Agora vivo nos EUA e o caso não ocorreu aqui, mas estou pesquisando o que posso fazer na Malásia."

O receio de serem julgadas, em sua opinião, impedem muitas mulheres de revelar os episódios pelos quais passam.

"É muito fácil culpar a vítima. Me perguntam: 'Por que você deixou ele entrar na sua casa? Por que vocês estavam bebendo?' Muito poucas pessoas estão dispostas a deixar que isso suje seu nome."

"No meu blog, tentei categorizar os níveis de assédio ou ataque sexual. Acho que um comentário que não é apropriado deveria ter consequências muito diferentes do que um contato físico indesejado. E acho que essas categorias diferentes podem fazer com que as pessoas se sintam melhor na hora de denunciar", diz.

"Aconselho a outras mulheres que escrevam tudo sempre que passarem por uma situação como essa e mandem por e-mail a si mesmas imediatamente, para que a data fique registrada e depois elas consigam se lembrar bem. Ou enviem a sua melhor amiga, a sua mãe ou a alguém de sua confiança. E, quando se sintam com forças, enviem à pessoa que passou dos limites para que ele saiba que isso não é normal e como você se sentiu."

A empresária, no entanto, acredita que "as coisas estão mudando" no Vale do Silício porque "cada vez mais mulheres têm coragem de falar publicamente".

"Foi o que aconteceu em 2015, com o caso de Ellen Pao (que denunciou discriminação de gênero em uma empresa de capital de risco), e mais recentemente com (as denúncias de) discriminação na Uber. E depois outras histórias apareceram sobre (a companhia de investimentos) Binary Capital", relembra.

"Há mais pessoas conscientes disso e estão sendo criadas políticas mais transparentes para afrontá-lo. Esperemos que os perpetradores pensem duas vezes antes de voltar a agir."

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