Isolada, Coreia do Norte enfrenta pior seca da década - e crianças são as mais ameaçadas

Agricultores em colheita de maçã perto de Pyongyang, na Coreia do Norte, em 2012 Direito de imagem Getty Images
Image caption A produção agrícola norte-coreana foi afetada tanto por enchentes quanto pela seca

Em meio a sua pior seca desde 2001, a Coreia do Norte enfrenta uma escassez severa de alimentos, deixando o país dependente de importações de alimentos em caráter emergencial, adverte um relatório da ONU.

Os mais vulneráveis à fome são as crianças e os idosos, que correm um risco maior de desnutrição e morte.

A situação é agravada pelo fato de a ajuda humanitária ter sido dramaticamente reduzida nos últimos anos, em parte por causa das sanções impostas à Coreia do Norte em retaliação a seu programa armamentista - e que aumentaram o isolamento desse que é visto como o país mais recluso do mundo.

A crise atual evoca outra de maior gravidade, nos anos 1990, quando estima-se que centenas de milhares de norte-coreanos tenham morrido por conta de uma escassez alimentar de grandes proporções.

A ausência de chuvas entre abril e junho tem dizimado colheitas de primeira necessidade, como arroz, milho, batatas e soja, indispensáveis para a sobrevivência de grande parte da população durante a entressafra, que vai de maio a setembro.

O braço da ONU para agricultura (FAO, na sigla em inglês) estima que as colheitas iniciais de 2017 da norte-coreana caíram mais de 30% em relação ao ano passado.

Após meses de seca, as chuvas voltaram a cair em julho, mas já tarde demais para garantir o plantio dos alimentos que precisariam ser colhidos entre outubro e novembro.

Direito de imagem Reuters
Image caption Líder norte-coreano Kim Jong-un; Estado ainda controla a produção agrícola, mas implementou reformas

Isso significa também que as chuvas que caírem a partir de agora não vão resolver o problema agrícola atual - e que a insegurança alimentar deve se deteriorar ainda mais nos próximos meses.

Segundo a FAO, o país precisará importar alimentos por ao menos três meses para garantir o suprimento adequado.

Além da seca, enchentes

Paradoxalmente, a insegurança alimentar foi incrementada nos últimos anos também por enchentes, que destruíram plantações, casas e aldeias inteiras.

O efeito cumulativo de enchentes e produção agrícola insuficiente já havia causado a estagnação na habilidade do país em lidar com a escassez de alimentos e a desnutrição.

Para a FAO, serão necessárias intervenções de infraestrutura para, por exemplo, melhorar os sistemas de irrigação do país, de forma a reduzir o desperdício de água.

A mais grave escassez de comida na história recente do país ocorreu a partir de 1996 e, dois anos depois, o Programa Mundial de Alimentos da ONU disse ter montado sua maior operação de auxílio emergencial para evitar uma crise ainda mais grave.

Naquele ano, o órgão da ONU disse que planejava prover ajuda humanitária para cerca de um terço da população norte-coreana - ou 7,5 milhões de pessoas.

Na época, pesquisas identificaram crianças entre 1 e 2 anos com desnutrição aguda; algumas famílias se alimentavam de galhos para sobreviver.

Em 2001, depois de a Coreia do Norte ter enfrentado seu mais duro inverno em 50 anos, o país voltou a enfrentar uma escassez grave de milho e trigo.

Ajuda global

O governo da Coreia do Norte controla uma das sociedades mais fechadas do mundo e resistiu à oferta de ajuda humanitária internacional até meados dos anos 1990.

Entre 1996 e 2001, o Programa Mundial de Alimentos disse ter distribuído alimentos a cerca de 8 milhões de norte-coreanos.

Mudanças na economia do país ao longo das duas últimas décadas tornam mais difícil a repetição da tragédia de 20 anos atrás. A agricultura ainda é controlada pelo Estado, mas reformas foram implementadas discretamente para permitir que agricultores possam guardar para si uma parte maior de suas colheitas, o que levou a um aumento na produção.

O acesso externo ao país, porém, continua sendo rigidamente controlado.

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