'Não somos uma ameaça': a reação de uma veterana à proibição de militares trans nos EUA

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Image caption Para a ex-oficial, ao contrário do que Trump diz, custos de trans nas Forças Armadas são 'insignificantes'

A ex-oficial da inteligência da Marinha dos EUA Devlin McKee nunca se esqueceu do dia em que foi homenageada com uma medalha pelos resultados de seu trabalho e com uma menção honrosa pelos serviços prestados na corporação entre 2001 e 2005.

Orgulhosa, ela conta que atuava na construção de operações e táticas classificadas como de "segurança máxima" pelas Forças Armadas americanas.

Na tarde desta quarta-feira, a veterana McKee recebeu "com choque" com a notícia de que transexuais como ela serão proibidas de atuar no Exército, na Marinha e na Aeronáutica. A decisão foi anunciada no Twitter pelo presidente Donald Trump, argumentando que essas pessoas significam gastos e transtornos para o governo.

"Depois de me consultar com meus generais e especialistas militares, por favor saibam que o governo dos EUA não aceitará ou permitirá que indivíduos trangênero sirvam em qualquer capacidade no Exército americano", escreveu o republicano.

"Nosso Exército tem que se concentrar em vitórias decisivas e esmagadoras e não pode ser prejudicado com os enormes gastos médicos e transtornos que transgêneros no Exército representariam. Obrigado."

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Image caption Trump enfrenta críticas de democratas e movimentos sociais após declaração sobre trans

Surpresa

O anúncio pegou de surpresa mais de 2.400 militares transexuais que, segundo a consultoria Rand, fazem parte da ativa das forças armadas americanas. Segundo entidades como a ONG Human Rights Watch, entretanto, este número pode chegar a 10 mil - e se incluir oficiais da reserva, como McKee, poderia ultrapassar 100 mil pessoas.

"Fazer a transição e abraçar minha verdadeira identidade me tornou uma pessoa muito mais forte e eficiente", disse McKee à BBC Brasil.

"Nós, pessoas trans que serviram, estão servindo ou querem servir, somos pessoas como todas as outras. Sermos capazes de nos aceitar e viver autenticamente aumenta nossa capacidade de funcionar no mundo."

"Nós não somos uma ameaça", afirmou a veterana. "Somos uma parte importante e valiosa da população."

O anúncio se tornou o principal assunto do dia nos Estados Unidos, ofuscando as manchetes sobre investigações contra o presidente que vinham dominando o noticiário.

Se confirmada pelo Pentágono, a decisão pode revogar uma política criada pelo ex-presidente Barack Obama, que no ano passado autorizou o governo a pagar terapias hormonais e operações de readequação sexual para militares transexuais.

A política passaria a valer em 1o de julho deste ano, mas Trump havia decidido postergá-la por seis meses. Segundo o Pentágono, os militares precisavam de mais tempo para rever o "impacto da medida na prontidão e letalidade das Forças".

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Image caption Trump fez anúncio polêmico no Twitter

Reações

O ativista Peter Boykin, presidente da associação Gays Pró-Trump, comemorou a decisão de Trump: "Se você for servir as Forças Armadas, o faça como um homem legal ou uma mulher legal. Não temos tempo para confusão de gênero entre militares".

Já Tony Perkins, presidente do Conselho de Pesquisa Familiar, disse que as Forças Armadas não são lugar para "experimentos sociais".

"Eu aplaudo o presidente Trump por manter sua promessa de retornar às prioridades militares - e não continuar a experimentação social da era Obama, que paralizou as Forças Armadas da nossa nação."

Mas Trump também enfrenta uma onda de críticas de parlamentares do partido Democrata, movimentos sociais e membros de seu próprio partido.

Em nota, o senador republicano John McCain, presidente do Comitê de Serviços Armados do Senado, disse que "não há razão para forçar membros do serviço que sejam capazes de lutar, treinar e realizar a deixar os militares".

"O tuíte do presidente nesta manhã em relação aos militares transgêneros é mais um exemplo de por que os principais anúncios de políticas não devem ser feitos via Twitter", disse McCain.

Movimentos sociais já anunciaram que a decisão deve ser levada a tribunais.

"Estamos comprometidos com os transgêneros membros do serviço militar. Vamos lutar tão bravamente por eles quanto eles estão lutando pelo país e vamos começar pelo tribunal federal", afirmou o grupo de defesa dos direitos LGBT OutServe-SLDN.

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Image caption Ex-oficial da inteligência da Marina dos EUA diz que precisou manter sua identidade masculina durante a carreira

Motivação

Para a ex-oficial McKee, a motivação de Trump não seria a economia ou possíveis transtornos de saúde, mas essencialmente "política".

"Este é um movimento puramente político. As pessoas trans serviram e estão servindo sem prejuízos", afirmou. "Usar pessoas trans como bodes expiatórios não é algo exatamente novo."

Ela cita uma pesquisa da consultoria Rand, financiada pelo Departamento de Defesa americano e divulgada em jornais como New York Times e Washington Post, que aponta que os gastos militares com pessoas trans não chegam a 0,15% do orçamento total.

"Os custos são relativamente insignificantes, considerando que os cuidados de saúde para o pessoal da ativa e para os veteranos já fazem parte do orçamento da Defesa e que Trump já disse que pretende expandir esses gastos em 10%", afirmou McKee à BBC Brasil.

"O Partido Republicano quer marginalizar ainda mais as pessoas trans. Embora isso afete transexuais militares, o objetivo real é tirar a legitimidade das nossas identidades, da nossa existência."

Outro estudo sobre os gastos militares em saúde, publicado pelo jornal especializado Military Times, aponta que os gastos das Forças Armadas com Viagra e outros remédios ligados a impotência são cinco vezes maiores do que os gastos com militares transexuais.

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Image caption Anúncio pegou de surpresa mais de 2,4 mil militares transexuais que fazem parte da ativa das Forças Armadas

'Decisão militar'

McKee conta que precisou manter sua identidade masculina durante os anos de serviço militar - e que este foi um dos motivos que a levaram a abandonar a carreira.

"Era a época da política do 'Não pergunte, não diga'", afirmou à BBC Brasil.

Aprovada pelo Congresso em 1993, essa política oficial, chamada em inglês de "don't ask, don't tell", proibia homossexualidade ou transexualidade de forma aberta nas Forças Armadas.

Em 2010, Barack Obama sancionou uma lei permitindo que gays e lésbicas pudessem admitir abertamente sua orientação sexual - a permissão para transexuais veio seis anos depois.

A medida anunciada por Trump pelo Twitter não deve entrar em vigor imediatamente, segundo informou a porta-voz Sarah Sanders a repórteres na tarde desta quarta-feira, na Casa Branca.

Questionada se transexuais em campos de batalha serão imediatamente enviados de volta aos EUA, ela disse que a "implementação desta política deve ser elaborada".

Sanders afirmou tratar-se de "uma decisão militar" e que ela "não deveria ser nada além disso".

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