Empresa aponta 'manipulação' em eleições na Venezuela

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro Direito de imagem Ronaldo Schemidt/AFP/Getty Images
Image caption No domingo, eleitores escolheram 545 membros da Constituinte, que terá poderes ilimitados

"As eleições da Assembleia Nacional Constituinte da Venezuela tiveram sua participação manipulada", afirmou nesta quarta-feira a Smartmatic, empresa responsável pelo sistema de votação eletrônica na polêmica votação.

O governo de Nicolás Maduro havia afirmado que 41,5% dos eleitores, cerca de oito milhões de pessoas, foram às urnas. A gestão ainda não se manifestou sobre as acusações da companhia de que o número foi inflado.

No domingo, os votantes elegeram uma Assembleia Constituinte com poderes ilimitados, duração desconhecida e com a missão de redigir uma nova Constituição e reformar o Estado.

Foram escolhidos 545 membros da Constituinte, que darão início a uma nova era no país após 18 anos da aprovação da Carta Magna venezuelana, promulgada em 1999, primeiro ano de governo do então presidente Hugo Chávez (1954-2013), padrinho político de Maduro.

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O momento em que líderes opositores são presos em suas casas de madrugada na Venezuela

Na segunda, os Estados Unidos impuseram sanções contra o país e a classificaram o governo venezuelano como uma ditadura.

Um milhão

Segundo a Smartmatic, a diferença entre o número anunciado pelo governo e real participação foi de ao menos um milhão de eleitores. A companhia já forneceu tecnologia para votação eletrônica em eleições em vários países, como no Brasil e nos Estados Unidos.

Em conferência em Londres, o diretor-executivo da empresa, Antonio Mugica, afirmou que essa diferença é uma estimativa. Segundo ele, apenas uma auditoria permitirá saber a quantidade exata de eleitores que foram votar no domingo.

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Image caption Antonio Mugica, da Smartmatic, afirmou que houve uma diferença de um milhão de votos

O executivo não quis comentar sobre qual seria o impacto da suposta manipulação no resultado das eleições.

De origem venezuelana, a multinacional Smartmatic tem disponibilizado plataforma de votação eletrônica na Venezuela desde 2004. No domingo, ela também foi a responsável por totalizar os votos.

Não houve participação de auditores da oposição que, segundo a empresa, "eram fundamentais para analisar o processo de votação".

A BBC Mundo, o serviço espanhol da BBC, questionou Mugica sobre ter discutido essa suposta discrepância com o governo de Maduro. O diretor da companhia, que é venezuelano, ficou alguns momentos em silêncio. Depois, respondeu negativamente.

"Passamos os últimos dias nos certificando de que estamos falando a verdade", explicou. "Achamos que as autoridades não iriam gostar do que tínhamos a dizer".

Questionado sobre a credibilidade de suas afirmações, o executivo afirmou que os números "estão aí" para quem quiser analisá-los.

"O que podemos afirmar sem nenhuma dúvida é que o número oficial e os dados no sistema não concordam um com o outro", disse.

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Image caption Governo de Nicolás Maduro afirmou que 8 milhões de pessoas participaram das eleições

Controvérsias

Entre 2004 e 2015, a Smartmatic participou de 14 eleições na Venezuela. Foram mais de meio milhão de máquinas de votação e 377 milhões de votos processados, segundo a própria empresa.

A companhia, porém, já foi alvo de controvérsias.

Nascida na Venezuela, a empresa - que hoje tem sede em Londres - já foi acusada de ter ligações estreitas com Hugo Chávez.

Em 2004, a oposição ao então presidente acusou a empresa de não ter conseguido evitar fraudes durante um referendo que confirmou o líder no poder. No entanto, a votação foi referendada por observadores internacionais da União Europeia, da OEA (Organização dos Estados Americanos) e do Centro Carter.

Nas Filipinas, candidatos perdedores também sustentaram que houve fraudes em votações administradas pela companhia.

Mas essa é a primeira vez que a Smartmatic se envolve em polêmicas envolvendo autoridades eleitorais de um país.

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