Inferno no paraíso: a sangrenta guerra do narcotráfico nas principais cidades turísticas do México

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Image caption Em Cancún, balneário turístico mexicano, trava-se uma guerra pelo mercado de drogas

O informante disse que os corpos estavam enterrados perto da praia.

Quando médicos legistas e militares começaram a cavar, apareceram quatro corpos; em seguida, oito; dois dias depois, tinham sido encontrados 18.

Em um país como o México, onde há milhares de casos como este, a descoberta poderia ser apenas mais uma a se somar às estatísticas.

Mas neste caso foi diferente, porque a cova clandestina, encontrada em junho passado, ficava a poucos quilômetros de Los Cabos, no Estado de Baja California Sur.

Há até pouco tempo, seria difícil acreditar que casos como este pudessem ocorrer em um dos balneários mais exclusivos do México.

Mas foi o que aconteceu. A imprensa local, como o Semanário Zeta, apontou para o grupo de Dámaso López Núñez, "El Licenciado", como responsável pela cova. López Núñez é um dos principais colaboradores de Joaquín Guzmán Loera, "El Chapo", um dos chefes do alto escalão do Cartel de Sinaloa - e que se encontra preso nos EUA.

A cova no balneário fazia parte de uma guerra interna que Núñez e seu filho, Dámaso López, "El Mini Lic", travavam com gangues aliadas pelo controle da organização.

A sinistra descoberta perto da praia trouxe outra revelação: a guerra do narcotráfico chegou aos paraísos turísticos mexicanos.

No entanto, apesar desse e de outros episódios semelhantes nesse e em outros destinos turísticos, o fluxo de visitantes não diminuiu e ainda se respira um ar de normalidade, especialmente nas zonas mais concorridas dos balneários.

A dureza dos números

Segundo dados do Sistema Nacional de Segurança Pública local, junho foi o mês mais violento do país desde 1991, quando os índices começaram a ser registrados.

Uma das regiões que aperecem com destaque nas estatísticas é Los Cabos, um balneário que é um destino frequente de artistas de Hollywood.

Em 2016, a procuradoria do Estado de Baja California Sur - onde fica Los Cabos - realizou 50 investigações por homicídio doloso. No primeiro semestre de 2017, foram 133 os indiciamentos por assassinato.

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Image caption Autoridades apontam Dámaso López Núñez como responsável pela violência em Los Cabos

Mas isto não afetou a popularidade do balneário. A média de ocupação durante a semana é de 74% e, nos finais de semana, quase completa, segundo a associação local de hotéis.

E ao mesmo tempo, 54% dos moradores de Los Cabos dizem se sentir inseguros, de acordo com a edição de junho da Pesquisa Nacional de Segurança Pública Urbana do Instituto Nacional de Estatísticas e Geografia (Inegi), uma porcentagem bem inferior à média nacional, de 74,9%.

Não é o único destino turístico com problemas. Em janeiro passado, em Cancún, no sudeste do país, ocorreram vários confrontos armados na área turística. Em 26 de julho, o chefe do quartel de Los Zetas foi capturado no balneário, e poucos dias depois apareceram restos humanos em bolsas de plástico.

Segundo a Comissão Nacional de Segurança (CNS) e a Secretaria de Governação (equivalente ao Ministério da Justiça), o aumento da violência se deve a uma disputa de cartéis do narcotráfico.

Autoridades chegaram a enviar centenas de militares aos balneários. Mas alguns especialistas acreditam que o problema requer outras ações, além da vigilância nas ruas.

"O crime organizado tem cada vez mais capacidade de fogo, aplicam mais violência", disse à BBC Mundo, Guillermo Zepeda Lecuona, pesquisador da Faculdade de Jalisco.

"A conspiração com as autoridades e a lavagem de dinheiro continuam. Esses dois temas se mantém intactos."

Apesar de a percepção de insegurança (79,3%) em Cancún ser bem maior que em Los Cabos, a taxa de ocupação de hotéis supera os 90% no local, uma amostra clara de que o turismo, apesar da violência, vai bem, obrigado.

"Realmente não há um ataque direto contra o turismo", afirmou o presidente da Associação de Hotéis de Cancún, Carlos Gosselín Maurel. "Mas se isto pode afetar o turismo? Com certeza pode, então não podemos tapar o sol com a peneira".

"O que há agora em Cancún são turistas que fizeram reservas há um ano", acrescenta, "e não tivemos cancelamentos, não nos sentimos afetados".

Guerra do narcotráfico

Mas voltando ao tema, por que há violência nos centros turísticos do país?

No caso de Cancún, a explicação é uma antiga disputa de grandes cartéis pela região costeira de Quintana Roo, contou à BBC Mundo Martín Barrón, pesquisador do Instituto Nacional de Ciências Penais.

Durante várias décadas, o Caribe mexicano foi uma das principais portas de entrada de cocaína. Em vários momentos, a zona foi controlada por cartéis de Juárez e Los Zetas, organizações que foram praticamente desarticuladas nos últimos anos.

Mas isto aumentou a violência, destaca o especialista. "Há uma disputa de grupos menores, e houve o aumento no número de sequestros e execuções."

"Houve aumento das extorsões e da pressão a boates, bares, casas noturnas da zona hoteleira de Cancún, em Benito Juárez, até Xcaret, que está ao sul (de Quintana Roo)", afirmou.

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Image caption Los Cabos é uma das zonas turísticas mais exclusivas do México

Enquanto isto, o que acontece em Los Cabos é consequência da guerra interna no Cartel de Sinaloa. Após a captura e extradição de "El Chapo" Guzmán, seu principal colaborador, Dámaso López "El Licenciado", pretendia assumir o controle da organização.

De acordo com a Secretaria de Defesa Nacional, o Cartel Jalisco Nova Geração faz parte dessa disputa interna. E esse grupo apoia López Núñez na disputa pelo mercado de Baja California Sur.

"El Licenciado" foi detido em maio passado; e seu filho, Dámaso López Serrano, "El Mini Lic", entregou- se ao governo dos Estados Unidos no dia 27 de julho do ano passado.

Não está claro se esses acontecimentos influenciam na segurança do balneário.

'A violência se democratizou'

Mas o narcotráfico não é a única causa de violência nos destinos turísticos mexicanos.

Em maio passado, foram assassinados quatro taxistas em San Miguel de Allende, no Estado de Guanajuato.

Foram registradas várias ações violentas na cidade, conhecida pela arquitetura hispânica barroca, desde setembro de 2016, como explosão de bombas caseiras em bares e sequestros.

Em junho passado, inclusive, a polícia prendeu o chefe de uma das quadrilhas especializadas em sequestros mais perigosas do país, segundo a CNS.

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Image caption A violência também chegou a San Miguel de Allende, 'a melhor cidade do mundo' para se visitar, segundo a revista Travel+Leisure.

San Miguel de Allende foi qualificada pela revista Travel+Leisure como a "melhor cidade do mundo" para se visitar.

A Procuradoria Geral de Justiça de Guanajuato insiste que a violência se deve à disputa entre criminosos locais.

"A violência se descentralizou e a impunidade se democratizou", alerta Zepeda Lecuona.

"Agora, há agentes do Ministério Público que controlam gangues criminosas, policiais que têm redes de pequenos assaltantes. Por isso, há o aumento da percepção de insegurança no país."