A extrema-direita está em ascensão nos EUA?

Membros da Ku Klux Klan em protesto em Charlottesville, neste semana Direito de imagem Getty Images
Image caption Existem dezenas de grupos afiliados à KKK nos EUA, de leste a oeste

A violência que tomou conta das ruas de Charlottesville, uma cidade universitária no conservador estado da Virgínia, nos EUA, no sábado, tem como pano de fundo o dramático aumento na proeminência de grupos de extrema-direita no país.

A eleição de Donald Trump para a Casa Branca é citada como um fator que reenergizou ativistas e grupos que não apenas rejeitam ideologias de esquerda, como também do establishment conservador.

Ao mesmo tempo, sites de mídia social colaboram para a promoção destas visões de mundo.

A organização em prol dos direitos civis Southern Poverty Law Center (SPLC), que monitora mais de 1,6 mil grupos com discurso de ódio no país, diz que os pensamentos de extrema-direita foram "os mais bem sucedidos" em ganhar espaço no discurso político dominante.

Mas quem são esses grupos? Quão populares são? E o que querem conquistar?

A BBC Brasil reúne algumas das mais agremiações mais proeminentes nos EUA hoje em dia.

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Homem atropela manifestantes antirracismo em cidade dos EUA

Alt-right

Eles adoram provocar, deploram o politicamente correto e idolatram Donald Trump.

São conhecidos pelo termo alt-right - uma abreviação de alternative right, ou direita alternativa - que muitos críticos descrevem como nacionalistas brancos ressentidos pelo avanço dos direitos civis de negros, mulheres e gays nas últimas décadas.

O movimento existe principalmente online mas, como não requer afiliação formal, não é possível dizer quantos membros possui.

Segundo Allum Bokhari e Milo Yannopoulos, do site de extrema-direita Breitbart - influente na ideologia de Trump -, facções da alt-right incluem os "intelectuais", "conservadores naturais" e a "equipe de memes" - jovens ativistas dispostos a trollar os rivais nas mídias sociais.

Os pilares da ideologia são a "identidade branca" e a "civilização ocidental tradicional", segundo Richard Bertrand Spencer, que criou o termo em 2008. Liberdade, liberdade de expressão e o direito a ofender também estão na sua cartilha.

O crescimento da alt-right foi impulsionado pela campanha presidencial de Trump, no ano passado.

Em julho de 2016, então pré-candidato republicano à Casa Branca, Trump tuitou uma imagem de Hillary Clinton ao lado de uma estrela de seis pontas - parecida com a estrela de Israel - e a seguinte frase: "A Candidata Mais Corrupta da História!"

Ao longo da campanha, ele seria acusado de anti-semitismo, machismo, anti-islamismo e puro e simples racismo.

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Supremacistas brancos e grupos antirracismo entram em confronto nos EUA

Ku Klux Klan (KKK)

O grupo supremacista branco mais temido da história americana foi formado por ex-Confederados após a Guerra da Secessão (1861-65), na qual os estados escravagistas do sul saíram derrotados.

A KKK se multiplicou no sul americano no início do século passado e daí se projetou nacionalmente. Membros encapuzados, marchando à luz de tochas e batendo às portas das casas de seus inimigos para "julgá-los" pelos seus crimes viraram uma ocorrência comum nessa época.

Durante esse turbulento período, grupos supremacistas brancos promoveram linchamentos, enforcamentos e assassinatos de negros.

Além de discriminar contra afro-americanos, judeus e imigrantes, mais recentemente a KKK se posiciona contra gays, lésbicas e a população LGBT de forma mais ampla.

Tornou-se um movimento com o objetivo de evitar que esses grupos alcancem as mesmas liberdades e direitos civis que outros americanos. Suas facções o descrevem como "uma organização branca, patriótica e cristã enraizada na Ku Klux Klan do início do século 20."

Direito de imagem Reuters
Image caption Supremacistas brancos foram vistos usando uniformes militares e carregando armas

Segundo o Southern Poverty Law Center, há grupos afiliados à KKK em quase todos os Estados americanos, reunindo entre 5 mil e 8 mil membros.

No ano passado, o grupo disse que estava experimentando "um forte aumento no número de afiliados no Sul profundo", os rincões dos Estados sulistas americanos.

Neonazistas

Embora o nazismo original de Adolf Hitler não se retratasse nem como esquerda nem direita - propunha ser, segundo os historiadores, uma "terceira via" - os neonazistas de hoje se colocam assumidamente na extrema direita.

Com isso, compartilham ideais anti-semíticos e veneram a Alemanha nazista de Adolf Hitler. São protegidos pela Primeira Emenda da Constituição americana e decisões judiciais tomadas nas cortes americanas.

Em um caso proeminente, o Supremo americano invocou a Primeira Emenda para garantir o direito de um grupo neonazista de protestar na cidade predominantemente judia de Skokie, Illinois, portando suásticas.

Há diversos grupos neonazistas nos EUA, incluindo o Partido Nazista Americano e o Movimento Socialista Nacional (NSM, sigla em inglês). O mais visível deles, porém, é a Aliança Nacional (NA), cujo braço Vanguard America participou dos eventos em Charlottesville.

Os números mais recentes estimam que havia 2,5 mil afiliados em 2012, embora uma reportagem no New York Times de 2011 falasse em 400.

Muitos deles estão na Virgínia, embora seu alcance chegue a 32 dos 50 Estados americanos. Segundo o SPLC, também aumentam os vínculos entre neonazistas europeus e americanos.

Outros grupos

Movimento Socialista Nacional (NSM, sigla em inglês) - Fundado em 1994, é um dos maiores grupos neonazistas dos EUA, com braços em mais de 30 Estados.

Conselho de Cidadãos Conservadores: Fundado em 1985 e originado a partir de movimentos pró-segregação nos Estados do sul americano.

Partido da Liberdade Americano: Fundado em 2009, com origens na Califórnia. A agremiação defende uma agenda racista e anti-migratória.

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