FBI alertou governo Trump sobre racistas em maio: 'Mataram mais que qualquer grupo extremista doméstico nos últimos 16 anos'

Grupos racistas em manifestação na cidade de Charlottesville Direito de imagem Reuters
Image caption Segundo relatório da inteligência americana, o grupo foi responsável por 49 homicídios e 26 ataques

A tragédia do fim de semana em Charlottesville não pegou de surpresa o FBI (polícia federal americana) e o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos.

Em maio, um relatório assinado pelos dois órgãos informou o governo dos Estados Unidos que os supremacistas e grupos de extrema-direita americana são responsáveis por mais mortes do que qualquer outro grupo extremista doméstico do país nos últimos 16 anos.

"Extremismo supremacista branco impõe ameaça persistente de violência letal" é o título do informe.

"Eles provavelmente continuarão a representar uma ameaça de violência letal durante o próximo ano", informava o documento, revelado nesta segunda-feira pela revista Foreign Policy.

Ainda de acordo com o relatório apresentado pela inteligência americana, os supremacistas foram responsáveis por 49 homicídios em 26 ataques contabilizados no período.

O boletim conjunto foi entregue ao governo Donald Trump há pouco mais de três meses com "o objetivo de oferecer novos dados sobre os alvos dos supremacistas e extremistas brancos e a situação da violência praticada por estes grupos nos EUA".

O relatório pretendia ainda servir como base para investigadores federais, estaduais e locais contra o terrorismo, além de polícias e agências de segurança privada, "na contenção, prevenção ou combate a ataques terrristas nos EUA

'Unir a Direita'

Supremacistas, neonazistas e nacionalistas radicais organizaram marchas e protestos neste fim de semana na cidade de Charlottesville, no Estado americano da Virgínia.

O "Unite the Right" (ou "Unir a Direita") resultou em pelo menos 19 feridos e três mortos. A violência registrada nos protestos foi tamanha que o governo da Virgínia declarou estado de emergência para permitir a mobilização de mais forças de segurança, incluindo tanques e helicópteros.

Carregando escudos, usando capacetes e ostentando suásticas e símbolos nazistas, os manifestantes de extrema-direita protestavam contra os planos da cidade de remover a estátua do General Robert E. Lee, um militar comandou as forças dos Estados Confederados durante a Guerra Civil Americana (também conhecida como Guerra de Secessão) entre 1861-1865.

Na sexta-feira, em uma marcha que não foi autorizada pela polícia e a prefeitura da cidade, supremacistas brancos acenderam tochas - em uma clara referência ao grupo Ku Klux Klan - e gritaram palavras de ordem como "Vidas Brancas importam" e "Vocês não vão nos substituir" ao marchar pela Universidade da Virgínia, que fica na pequena cidade de 50 mil habitantes.

No sábado, quando o protesto parecia controlado, um homem de 20 anos avançou de carro contra uma multidão e matou Heather Heyer, uma advogada de 32 anos. Nesta segunda-feira, James Alex Fields Jr. teve um pedido de pagamento de fiança para aguardar julgamento em liberdade negado pela justiça local.

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Image caption Segundo o relatório, a maior parte dos ataques foi realizada com armas de fogo

Ataques

Só em 2016, segundo o relatório da inteligência americana, grupos supremacistas e extremistas brancos cometeram um ataque letal e outros cinco com potencial de mortes. Todos tinham como alvo minorias relogiosas ou raciais, "incluindo latinos, afro-americanos, um estudante chinês e uma pessoa identificada como judia".

A maior parte dos ataques foi realizada com armas de fogo - em seguida vieram os ataques com facas.

Uma estudante chinesa foi atacada com uma machadinha enquanto tirava fotos para um trabalho universitário, em fevereiro de 2016. Segundo o tribunal local que julga o caso, o suspeito teria se auto-identificado como um supremacista e dito que queria matar a estudante por sua "raça".

Dez dias depois, em Los Angeles, três homens pertencentes a um grupo racista foram presos após atacar um grupo de latinos. Eles teriam gritado ofensas raciais antes de avançar sobre os homens e atualmente aguardam julgamento.

Há um ano, em 21 de agosto de 2016, um homem que também se declarou como supremacista foi preso como suspeito de matar um homem negro com uma faca no Estado de Indiana, também motivado por ódio racial.

O relatório oficial entregue ao governo americano inclui outros casos e também citava membros da Ku Klux Klan como potenciais mobilizadores de ataques contra minorias.

Desde 2000, as minorias raciais são o principal alvo de ataques realizados por extremistas brancos nos EUA. Em seguida vêm brancos moradores de rua, traficantes, estupradores e outros supremacistas brancos "identificados como desleais ao movimento".

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Image caption O boletim conjunto foi entregue ao governo Donald Trump há pouco mais de três meses

Agências

Procurado pela revista Foreing Policy, um porta-voz do FBI disse que a agência não pode comentar relatórios específicos de inteligência.

"O FBI compartilha rotineiramente informações sobre potenciais ameaças para melhor habilitar a aplicação da lei para proteger as comunidades", disse a corporação.

Já o Departamento de Segurança Interna, que também assina o relatório conjunto, preferiu comentar apenas o episódio de Charlottesville.

"O pessoal do DHS tem mantido contato com o estado da Virgínia e com as autoridades policiais locais para oferecer qualquer assistência necessária para lidar com o incidente violento horrível registrado em Charlottesville", afirmou o órgão, em nota.

A Casa Branca ainda não comentou publicamente os dados do relatório.

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