Quais as consequências das sanções dos EUA para a economia da Venezuela?

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Image caption Após sanções americanas, governo Maduro terá que escolher entre pagar a dívida externa e garantir abastecimento de alimentos e medicamentos

O cerco financeiro contra o governo da Venezuela está se fechando e isso pode trazer graves consequências para a economia do país e para a crise política.

Na sexta-feira, o presidente americano Donald Trump impôs novas sanções ao que chama de "ditadura" na Venezuela com a intenção de "reestabelecer a democracia" no país sul-americano.

"A nova medida do presidente proíbe realizar transações com títulos da dívida venezuelana e comprar bônus de sua empresa estatal petroleira (PDVSA)", diz o comunicado da Casa Branca.

Isso é um golpe nas finanças de um país que arrecada, com a exportação de petróleo, US$ 96 de cada US$ 100 em divisas e que, por causa da necessidade de importar alimentos, medicamentos e bens de primeira necesssidade, depende muito do desempenho do petróleo no exterior.

O presidente venezuelano Nicolás Maduro disse que uma primeira análise mostra que as sanções financeiras impostas pelos Estados Unidos causarão uma interrupção da exportação de petróleo ao país.

Esta situação se aprofundou nos últimos anos. A queda dos preços do barril nos mercados internacionais e da produtividade do setor petroleiro interno são algumas das razões que explicam a gravde crise econômica de um país que, apesar de ter as maiores reservas de combustível do mundo, sofre com uma alta inflação e com a escassez de produtos básicos, já que o Estado tem menos recursos para importá-los.

No último mês de janeiro, Maduro admitiu que as importações do país caíram mais de 50% em relação a 2015.

A dependência externa aumenta porque a Venezuela tem muitos termos de confissão de dívida assinados por outros países, aos quais recorre para obter financiamento.

'Política pouco civilizada'

Ao receber a notícia sobre a nova rodada de sanções, Maduro fez um pronunciamento em rede nacional para denunciar o que chamou de "ato ilegal de agressão". "A Venezuela nunca se renderá a nenhum poder imperial", afirmou.

Horas antes, o ministro de Relações Exteriores da Venezuela Jorge Arreaza disse que os EUA estavam tentando promover uma crise humanitária.

Arreaza também diz que seu país era vítima de "notícias falsas" que exageravam suas dificuldades econômicas.

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Image caption A inflação e a depreciação do bolívar, a moeda local, são dois dos gravez prolemas da economia venezuelana

Os EUA acusam o governo Maduro de violações de direitos humanos e subversão da democracia.

O ministro disse ainda que as sanções e "ameaças" dos EUA são "política pouco civilizada" e que Maduro não irá à Assembleia Geral da ONU em Nova York em setembro.

Impacto

No início do mês, o governo dos EUA já havia imposto sanções financeiras ao presidente Maduro e a alguns funcionários do governo que tinham contas e bens no país.

Segundo o comunicado da Casa Branca, a nova ordem executiva de Trump também "proíbe as transações com certos bônus existentes que pertencem ao setor público venezuelano, assim como os pagamentos de dividendos ao governo da Venezuela".

Por isso, as sanções terão um grande impacto na economia do país. Segundo o presidente Maduro, elas "afetam gravemente e ferem a economia em plena fase de recuperação". Mesmo assim, ele disse que não faltará nada para a população.

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Image caption Por causa do desabastecimento e dos preços regulados, os venezuelanos se acostumaram a esperar horas em filas para comprar produtos de primeira necessidade

"A maior parte do sistema financeiro mundial tem atividades nos Estados Unidos. Por isso o Estado venezuelano vai ter muita dificuldade em conseguir novos financiamentos ou vender novos ativos", disse à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC Mundo, o economista venezuelano Alejandro Grisanti, especialista em dívida.

Grisanti explica que as sanções também colocam o governo Maduro diante de uma escolha difícil: "Pagar a dívida externa ou importar mais alimentos e medicamentos".

A própria esquerda venezuelana questionou a ideia de que um governo socialista privilegie o pagamento dos compromissos financeiros em vez de satisfazer demandas que poderiam acalmar a hostilidade da população em relação ao Executivo.

Esse clima foi aproveitado nos últimos meses pela oposição, que não só culpa Maduro pela crise econômica, mas também o acusa de ser uma ditadura. Protestos recentes contra o governo deixaram mais de 120 mortos.

Dívida externa

Maduro se gaba de que a Venezuela paga sua dívida pontualmente. "Somos o país que mais pagou sua dívida externa per capita", disse recentemente, ao contabilizar US$ 65 milhões de pagamentos nos dois últimos anos.

"Pagamos até o último centavo de dólar", afirmou novamente na sexta-feira.

O presidente atribui a uma "guerra econômica" o fato de que, apesar dos pagamentos, a dívida venezuelana continua sendo vista como de alto risco, o que contribui para a situação econômica geral do país.

Esse risco faz com que os bônus venezuelanos sejam muito valorizados pelos investidores porque dão uma alta rentabilidade.

"A má gestão econômica de Maduro e a dilapidação dos ativos do país fizeram com que a Venezuela fique, inclusive, mais próxima da suspensão dos pagamentos", disse a Casa Branca na sexta-feira.

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Image caption Oposição venezuelana acusa governo de vender os ativos do país a preços muito baixos para conseguir manter o fluxo de caixa

Um default, ou suspensão de pagamentos, seria fatal para um país que exporta petróleo para todo o mundo.

Para evitar isso, a Casa Branca afirmou que os funcionários venezuelanos "estão apelando para mecanismos de financiamento muito pouco transparentes e vendendo os ativos do país a preços de liquidação".

Esses "preços de liquidação" são os que provocaram a fúria da oposição no mês de maio, quando o banco Goldman Sachs comprou US$ 2,8 bilhões em bônus da petroleira estatal PDVSA do Banco Central da Venezuela. O banco investidor americano pagou apenas US$ 865 milhões por uma dívida que vence em 2022.

A oposição afirma que o governo está vendendo mal os ativos do país para conseguir fluxo de caixa e diz que, se chegar ao poder, não reconhecerá uma dívida que não foi aprovada pelo Parlamento, de maioria opositora.

Há três semanas, no entanto, a nova Assembleia Constituinte, controlada pelo governo e não reconhecida por um grande número de países, tem poderes absolutos, inclusive de aprovar um novo financiamento.

Para proteger sua imagem, o Goldman Sachs teve que responder à polêmica. Este mês, o Credit Suisse, outro grande banco investidor, anunciou que estava proibindo a compra e a venda de certos bônus venezuelanos por causa do risco de que este dinheiro ajude a financiar violações de direitos humanos, como argumenta a oposição.

Soluções

Mas o que o governo Maduro pode fazer em relação a essa situação?

"Preparei um conjunto de decisões e medidas para nos defender do bloqueio comercial, de petróleo e financeiro que Donald Trump vai decretar contra a Venezuela. Estamos preparados", disse Maduro na última semana, usando o termo "bloqueio", que Cuba também usou para se referir durante décadas ao embargo econômico e comercial dos EUA à ilha.

Entre as consequências das sanções pode estar a impossibilidade de a PDVSA repatriar os lucros de sua filial nos Estados Unidos, a Citgo. "Trump praticamente decretou o financiamento da Citgo", disse o presidente venezuelano.

Até o momento, Maduro não deu detalhes sobre as medidas que usará para proteger o país. Nas três semanas desde seu estabelecimento, a Assembleia Constituinte também não tomou nenhuma decisão econômica.

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Image caption A ajuda da China pode ser um fator chave para que a Venezuela consiga amortizar o impacto das sanções americanas

A solução passaria por recorrer aos poucos grandes sócios que a Venezuela ainda tem: China e Rússia. "A Venezuela não está sozinha", disse o presidente, sem mencionar seus aliados tradicionais.

Na última quinta-feira, o portal de notícias venezuelano El Estímulo disse que o governo venezuelano propôs ao governo chinês "a criação de um fundo binacional que se encarregue de comprar bônus da dívida com desconto".

"A Venezuela pagaria a China com bônus de maior duração e com vencimento mais longo. É uma maneira de diferenciar os pagamentos", disse Grisanti, afirmando ainda que o país já fez a proposta outras vezes, mas que o gigante asiático hesita em aumentar seu risco na Venezuela.

A Rússia, por sua vez, é um país com capacidade financeira muito menor do que a da China.

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Image caption O diretor da petroleira russa Rosneft, Igor Sechin (à esq.), tem uma relação próxima com Maduro, mas empresa anunciou que não adiantará mais dinheiro à Venezuela

No início de agosto, a petroleira russa Rosneft, grande aliada da PDVSA, disse que havia adiantado um pagamento de US$ 6 bilhões a sua sócia, mas que não tinha a intenção de fazer mais adiantamentos de dinheiro.

Apesar de admitir que o país sentirá as sanções financeiras, Maduro diz que tentará evitar seu impacto na população.

Com menos acesso a dólares, o Executivo venezuelano deverá escolher com muito mais cuidado no que investi-los. Se não pagar a dívida, se aproximará o fantasma do default. Mas se aumentar o desabastecimento de produtos básicos, aumenta também a tensão social.

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