Como escândalo da Odebrecht ajudou a derrubar presidente do Peru

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Image caption Pedro Pablo Kuczynski é acusado de ter recebido recursos da brasileira Odebrecht

Três meses após ter sido mantido no cargo graças a uma votação apertada no Congresso, o presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, renunciou à Presidência do país, acuado por um escândalo de acusação de compra de votos, que se segue a suspeitas de recebimento de dinheiro da construtora brasileira Odebrecht.

"Devo renunciar à Presidência do país porque não quero ser um estorvo ao caminho da nação. Não quero que (a crise política) afete a minha família e o país", afirmou Kuczynski nesta quarta-feira, negando as acusações de corrupção e alegando que a oposição manobrou para derrubá-lo. "A oposição tentou me pintar como uma pessoa corrupta e conseguiu. Reafirmo meu compromisso com um Peru melhor para todos."

Na tarde desta quarta-feira, jornais peruanos já afirmavam que o presidente tinha a carta de renúncia pronta para ser entregue ao Congresso peruano - o qual pretendia votar nesta quinta-feira se PPK seria destituído ou não de seu cargo. Segundo as agências de notícias, a polícia já estaria em alerta máximo para possíveis episódios de violência, em meio ao aprofundamento da crise política.

Com sua renúncia, assume a Presidência o vice, Martín Vizcarra.

Conhecido como PPK, Kuczynski, de 79 anos, assumiu a Presidência do Peru há menos de dois anos, em julho de 2016, para um mandato até 2021.

Eleito com promessas de modernização do país e combate à corrupção, PPK viu sua situação começar se complicar no ano passado, com acusações - que ele nega - de ter ocultado pagamentos da Odebrecht a empresas vinculadas a ele entre 2004 e 2013.

PPK sobreviveu a uma votação de impeachment no Congresso em dezembro - ocasião em que críticos o acusaram de ter concedido um indulto ao ex-presidente Alberto Fujimori (até então detido por corrupção e violação de direitos humanos) em troca de apoio parlamentar. O indulto provocou diversos protestos populares no Peru.

Apesar das pressões, Kuczynski parecia voltar a se fortalecer no poder. Até que, na terça-feira, a oposição divulgou vídeos gravados secretamente que supostamente mostram aliados do presidente oferecendo lucrativos contratos públicos ao reduto político de um parlamentar na tentativa de comprar seu apoio na segunda votação de impeachment, prevista para esta quinta, ainda por conta de acusações envolvendo a Odebrecht.

Apoio e documentos

As imagens e conversas foram divulgadas pelo partido Fuerza Popular e envolvem o político Kenji Fujimori - que é filho de Alberto Fujimori. Opositores argumentam que o indulto teria sido resultado da troca de apoio que Kenji deu a PPK em dezembro, evitando no último momento sua destituição.

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Image caption Polícia diante do palácio presidencial peruano; segurança foi reforçada em meio ao aprofundamento da crise política

Não se sabe ao certo quando os vídeos foram gravados, e os trechos divulgados pela imprensa peruana não deixam claro se houve compra de apoio. Mas a divulgação das imagens, por si só, dificultou a sustentação de PPK na Presidência, levando políticos até então indecisos a defender a saída do presidente, que ficou isolado.

Em seu pronunciamento nesta quarta, PKK afirmou que "as imagens dos vídeos foram editadas".

"Os vídeos complicaram demais a situação de PPK", explicou à BBC Brasil o analista Carlos Aquino, professor de economia internacional da Universidade Nacional San Marcos (UNMSM), de Lima.

Ao mesmo tempo, nos últimos dias, vazaram documentos que a inteligência peruana havia entregue à comissão parlamentar do país que investiga os desdobramentos da Lava Jato no Peru. Os documentos, que incluem extratos bancários, sugerem que empresas com elos com PPK - First Capital e Westfield Capital - teriam recebido dinheiro da Odebrecht e repassado as quantias para a conta do presidente.

As transferências teriam sido feitas entre 2005 e 2016, quando ele foi ministro da Economia, primeiro-ministro e candidato presidencial, segundo reportagem do El Comercio, de Lima.

Na sexta-feira passada, ele foi questionado na comissão da Lava Jato no Congresso sobre o caso e negou irregularidades. "O responsável pela (inteligência peruana) deveria ser demitido", disse.

A presidente da Comissão, a fujimorista Rosa Bartra, disse que PPK não esclareceu as dúvidas sobre o caso.

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Image caption Peruanos assistem a pronunciamento de renúncia; PPK afirmou que vídeos que levaram a sua queda foram manipulados

Impacto da Lava Jato

No Peru, as investigações da Lava Jato envolvem os principais políticos e partidos do país, e as revelações são contínuas.

Em fevereiro deste ano, o ex-diretor da Odebrecht Peru, Jorge Barata, teria revelado as contribuições da empresa para os principais partidos políticos peruanos na campanha presidencial de 2011, incluindo as legendas de Keiko Fujimori (filha de Alberto), de PPK e do ex-presidente Alejandro Toledo, considerado foragido pela Justiça por supostas propinas que teria recebido por parte da construtora brasileira.

Na terça-feira, já em meio ao clima de incertezas sobre o destino de PPK, o governo aprovou o pedido de extradição de Toledo, que mora nos Estados Unidos.

Toledo (2001-2006) e outro ex-presidente peruano, Ollanta Humala (2011-2016), são investigados no âmbito da Lava Jato. Humala, que está preso, é acusado de receber "dinheiro ilícito" da Odebrcht para financiar sua campanha eleitoral de 2011, quando foi eleito presidente.

Foi em meio ao clima de incertezas e a horas da votação desta quinta-feira que os vídeos foram divulgados.

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