5 desafios para Miguel Díaz-Canel, o sucessor de Raúl Castro na Presidência de Cuba

Díaz-Canel votando na eleição de candidatos para Assembleia Nacional em março Direito de imagem REUTERS/Alejandro Ernesto
Image caption Díaz-Canel (ao centro) comandará o país sob a sombra de Birô Político do Partido Comunista, que ainda é dominado por políticos da 'velha guarda'

Embora esteja há muito tempo se preparando para isso, a tarefa de Miguel Díaz-Canel não será fácil.

O engenheiro de 58 anos, que desde 2013 atuava como o primeiro vice-presidente de Cuba, será eleito sucessor de Raúl Castro nesta quinta-feira.

Trata-se de uma troca histórica no poder do país. Pela primeira vez em quase 60 anos, o país terá um novo líder que não pertence à família Castro ou à geração que fez a Revolução triunfar e levou a ilha ao socialismo.

Com o processo de reformas econômicas iniciado por Raúl Castro aparentemente encalhado, a aproximação com os Estados Unidos empacada e analistas advertindo para a deterioração da economia, o novo líder cubano terá pela frente grandes desafios.

Estes são os cinco maiores:

1. Busca por legitimidade à sombra de "geração histórica"

O país está acostumado a ser liderado por pessoas que participaram ativamente da luta de guerrilha contra o regime de Fulgencio Batista, o que vinha sendo visto até agora como uma espécie de atestado de legitimidade da política interna de Cuba.

Fidel Castro foi o líder daquele movimento armado e, desde sua vitória em 1959, foi oficialmente aclamado como o líder histórico da revolução socialista.

Quando, devido a seus problemas de saúde, ele passou o poder a seu irmão Raúl, temporariamente em 2006 e definitivamente em 2008, o sucessor contou com o aval de ter participado da revolução armada e de seu parentesco com Fidel.

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Image caption Fidel e Raúl Castro lideraram a luta armada em Sierra Maestra

Mas, como afirma Rafael Hernández, diretor da revista cubana Temas, "a autoridade de Raúl ou Fidel não será herdada por ninguém".

Trata-se de uma mudança geracional profunda; Díaz-Canel era um bebê quando Fidel conduziu as nacionalizações de empresas estrangeiras, a reforma agrária e se aproximou da União Soviética, após tentativas dos EUA de boicotar e derrubar o novo regime.

Por décadas, o poder ficou concentrado nas mãos de uma pessoa, primeiro Fidel, depois Raúl. Hernández, entretanto, acredita que agora haverá um "processo de descentralização".

Segundo ele, com Raúl Castro foi imposto um estilo mais colegiado de governar e Díaz-Canel "caracteriza-se por sua capacidade de trabalhar em equipe".

Para Hernández, Díaz-Canel se verá obrigado a explicar mais suas decisões a outros dirigentes. O novo presidente poderá ter menos autonomia e espaço limitado de manobra para avançar com reformas.

Além disso, terá sobre si a sombra de Raúl Castro, que continuará sendo o primeiro secretário do Partido Comunista de Cuba (PCC), reconhecido na Constituição como "a principal força da sociedade e do Estado".

Ao lado dele, permanecem no Birô Político do partido – seu principal órgão de decisão, atualmente com 17 integrantes – nomes como Ramiro Valdés e José Ramón Machado Ventura, companheiros de Raúl e Fidel na chamada "geração histórica", que Díaz-Canel elogia e à qual promete lealdade.

Rafael Rojas, acadêmico cubano do Centro de Pesquisas Econômicas e Ensino (CIDE) da Cidade do México, acredita que o Birô Político manterá o "poder real" e que nele se decidiu "acompanhar a transferência do comando do Conselho de Estado (principal órgão do Executivo, seu presidente é o presidente do país) entre uma geração e outra, com uma imobilidade institucional e ideológica que respeite o novo ímpeto de renovação da nova liderança."

Ele prevê que Díaz-Canel formará "um governo muito, muito continuista, especialmente em seus primeiros anos, porque a continuidade é uma garantia de sua legitimidade".

Para aqueles que, como a oposição, esperam que a saída de Raúl Castro traga uma rápida transformação na ilha, seu sucessor enviou uma mensagem clara anunciando a "continuidade de tudo".

2. Incrementar as reformas econômicas

Durante a Presidência de Raúl Castro, a implementação de medidas liberais estimulou a atividade econômica, permitiu que grande parte da dívida externa negociada com os países do chamado Clube de Paris fosse perdoada, aliviou as contas do Estado e fez o setor privado florescer, mesmo que lentamente.

As medidas de abertura abriram as portas para ações até então vetadas a habitantes da ilha, como abrir pequenas empresas privadas, comprar e vender casas e carros, viajar para o exterior e se hospedar em hotéis.

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Image caption A economia vive tempos difíceis, mas não tanto quanto no Período Especial, quando caiu a União Soviética

Mas ultimamente as coisas mudaram de rumo.

Em 2016, houve uma acentuada desaceleração do crescimento econômico. O dado mais recente de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) confirmado pelo Escritório Nacional de Estatística (ONE, na sigla em espanhol) mostrou um aumento de 0,5%, muito abaixo dos 4,4% de 2015.

O ministro da Fazenda e Planejamento, Ricardo Cabrisas, fez um balanço de 2017 perante a Assembleia Nacional dizendo que foi um ano "tenso e complexo", e que o PIB teria crescido 1,6%.

Em março passado, Raúl Castro incentivou os cubanos a olhar para o futuro "com total confiança" e reconheceu "erros e insuficiências" na implementação das reformas.

Carmelo Mesa-Lago, professor de economia na Universidade de Pittsburgh (EUA), não acredita que os dados oficiais cubanos sejam confiáveis e argumenta que "Cuba está enfrentando sua pior crise desde o chamado Período Especial da década de 1990, quando houve a queda do socialismo real na Europa".

A situação atual, que ainda não atingiu a gravidade da crise daquela época, deve-se, em grande parte, aos problemas de outro parceiro e aliado: a Venezuela.

Os intercâmbios com o país, até recentemente o principal parceiro comercial de Cuba, caíram drasticamente.

O governo admite a necessidade de melhorias. E ressalta o impacto negativo do embargo comercial que os Estados Unidos mantêm contra Cuba e de fenômenos meteorológicos adversos, como o furacão Irma, que atingiu a ilha no verão passado.

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Image caption O Partido Comunista aprovou em 2016 reformas econômicas que não se desenvolveram completamente

Para muitos especialistas de fora da ilha, a única saída possível é liberalizar a economia nacional e favorecer a chegada do investimento estrangeiro.

O desafio, segundo Rafael Hernández, "é construir um novo modelo socialista e eficiente que restaure o nível de vida que os cubanos tiveram nos anos 1990".

A pergunta é se isso é possível. Para Mesa-Lago, no plano econômico, o novo presidente enfrenta "um período muito difícil de transição".

Em março, Díaz-Canel afirmou que "a atualização do modelo econômico e social é um processo mais complexo do que pensávamos inicialmente".

3. Duas moedas, muitos problemas

Cuba é especial por muitas razões. Uma delas é ser um dos poucos países do mundo com duas moedas em circulação.

Uma delas é o peso cubano ou CUP, com a qual o Estado paga o salário dos trabalhadores. A outra é o CUC ou peso convertível cubano, equivalente a 25 CUPs.

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Image caption O governo quer unificar as moedas, mas os especialistas advertem que isso não será tarefa fácil

Economistas dentro e fora do país alertam há anos sobre a necessidade de acabar com essa anomalia que atrapalha o desempenho das reformas econômicas.

Embora em Cuba serviços como educação e saúde sejam gratuitos, os cubanos que trabalham para o Estado (aproximadamente 75% da população) recebem seu salário em pesos cubanos, enquanto os produtos que compram em lojas e supermercados são vendidos em CUC, com o qual seu poder de compra sofre enormemente (1 CUC - peso cubano - equivale a cerca de 25 CUPs - pesos cubanos).

O governo estabeleceu como objetivo a unificação monetária, mas essa missão não será fácil.

"A moeda dupla representa problemas tremendos e a unificação não é algo que pode ser feito de uma só vez", diz Mesa-Lago.

Muitas empresas estatais mantêm suas contas partindo do pressuposto de que um CUC vale quase o mesmo que um dólar americano. Mas, na realidade, esse é seu valor apenas nas casas de câmbio oficiais de Cuba. No exterior, o CUC não está sujeito a intercâmbio.

Isso gera "enormes distorções" que impedem conhecer a situação real dessas empresas e o valor de muitas exportações que são canalizadas através delas.

"Com a unificação, muitos iriam quebrar", diz o economista cubano baseado nos Estados Unidos.

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Image caption Os trabalhadores recebem em uma moeda que vale bem menos da que se estabelece no mercado

Outro efeito indesejado seria a inflação. Unir duas moedas de valores tão diferentes causaria um aumento nos preços.

É outro desafio que Diaz-Canel terá que resolver.

4. Ampliar a internet

Acessar a internet ainda não é tarefa fácil para os cubanos.

Em primeiro lugar, pela baixa acessibilidade em Cuba. Na maior parte do país, a rede está disponível apenas em alguns locais públicos que oferecem wi-fi.

E também pelo preço exorbitante. Cada hora de conexão custa um dólar e meio. Em um país em que o salário mensal na maioria dos casos não passa de US$ 20 ou US$ 30 por mês, é um luxo para poucos.

De acordo com um relatório sobre liberdade na internet da organização Freedom House, dos EUA, Cuba ainda é um dos países com a menor penetração de internet no mundo – e o governo bloqueia sites que considera inadequados, muitos deles promovidos pela oposição.

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Image caption Usuários reclamam que a conexão está lenta e é muito cara para os cubanos

Estima-se que apenas 5% dos cubanos tenham internet em casa.

Nos últimos meses, a empresa estatal de comunicação Etecsa lançou um plano para ampliar a internet nos lares do país.

Críticos apontam para o alto custo e a baixa velocidade da conexão.

O novo presidente da ilha falou sobre o problema em fevereiro deste ano. "Muito foi feito, mas nem tudo que necessitamos, nem da maneira mais coerente."

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Image caption Muitos cubanos se reúnem nas praças, que são pontos de acesso à internet

5. A relação com Trump e os Estados Unidos

A chegada de Donald Trump à Casa Branca marcou o fim da reaproximação iniciada por Barack Obama.

Trump anulou algumas das medidas mais importantes de seu antecessor. Ele restaurou restrições a viagens de cidadãos americanos ao país, prejudicando uma das suas principais fontes de receita do turismo, setor vital para a economia cubana.

Trump também endureceu o embargo que está em vigor há décadas, erguendo obstáculos a todos os negócios dos Estados Unidos com as empresas administradas pela Gaesa, a grande rede empresarial cubana controlada pelas Forças Armadas.

As novas regras dificultam o acesso de cidadãos dos EUA a hotéis ou restaurantes da Gaesa.

Essas medidas, consideradas hostis por Havana, vieram após um conturbado e inesperado incidente diplomático.

Após informar que funcionários da embaixada dos EUA em Cuba tiveram problemas de saúde causados por supostos ataques sônicos, Washington reduziu ao mínimo a atividade consular no país e disse que as autoridades cubanas não cumpriram seu dever de proteger diplomatas estrangeiros.

Os Estados Unidos, porém, não apresentaram provas do suposto ataque.

A expulsão, em outubro passado, de 15 funcionários da embaixada cubana em Washington deteriorou ainda mais as relações entre os dois países.

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Image caption Donald Trump retificou o boicote econômico a Cuba, que começaria a ser quebrado após decisão de Barack Obama

O governo cubano negou qualquer envolvimento com os supostos ataques sonoros.

As relações com os Estados Unidos têm sido difíceis desde que a ilha implantou o regime comunista. Com a visita de Obama a Cuba em 2016, foi aberto um canal cordial entre os dois países – que foi de encontro à recusa do Congresso dos EUA, de maioria republicana, em suspender o embargo à ilha.

Carlos Malamud, pesquisador do Instituto Real Elcano de Madrid, acredita que Havana "errou ao não tomar medidas para impulsionar" as reformas que permitiriam Obama provar em seu país que sua política em relação à ilha estava dando um resultado que não foi obtido em meio século de bloqueio.

Díaz-Canel protestou recentemente contra a hostilidade do "império" americano, em uma retórica de confronto que mostra o tamanho do fosso que terá de ser superado nesse desafio.