Irã: oposição relata confrontos com polícia em funeral de clérigo dissidente

Funeral do aiatolá Ali Montazeri
Image caption O aiatolá Ali Montazeri passou de partidário da Revolução Islâmica de 1979 a crítico do governo

Partidários da oposição iraniana e a polícia entraram em confronto após o funeral do aiatolá Hoseyn Ali Montazeri, um dos principais clérigos dissidentes do país, de acordo com websites oposicionistas.

Mais cedo, dezenas de milhares de partidários e líderes da oposição participaram de uma procissão na cidade sagrada de Qom para o funeral de Montazeri.

Montazeri, que tinha 87 anos, foi uma das vozes mais proeminentes do país a chamar o processo eleitoral que levou à reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad de fraudulento.

A segurança na cidade foi reforçada e há notícia de prisões e choques com a polícia, mas a dimensão dos confrontos ainda não é sabida.

Líderes da oposição pediram que esta segunda-feira seja um dia nacional de luto.

Slogans

O site Jaras, de tendência reformista, disse que a multidão gritava slogans de apoio ao aiatolá e também ao líder da oposição Mir Hossein Mousavi.

Um outro site, Rahesabz.net, disse que membros da facção linha-dura pró-governo Ansar Hezbollah tentou reprimir os slogans mas deixaram o local "depois de confrontos com algumas pessoas".

Vários dos participantes da marcha fúnebre levavam faixas ou vestiam roupas da cor verde - a cor da oposição iraniana.

Segundo o correspondente da BBC em Teerã, Jon Leyne, o governo iraniano sabe que o funeral é uma manifestação que não pode proibir, embora tema que ela possa abrir caminho para mais uma rodada de protestos públicos.

Restrições à mídia

As autoridades chegaram a impor rigorosas restrições à mídia doméstica e estrangeira. Houve tentativas de interromper o serviço de televisão da BBC em persa para o Irã.

De acordo com a direção da BBC, um sinal de interferência persistente tem afetado suas transmissões desde o domingo, pouco depois que o canal começou a cobrir a morte do aiatolá. A TV Persa da BBC sofreu restrições semelhantes durante as eleições presidenciais do Irã em junho.

Mousavi e outro líder oposicionista, Mehdi Karroubi, pediram uma presença maciça de seus partidários no funeral de Montazeri.

Mousavi e Karroubi foram candidatos nas eleições de junho. O resultado do pleito que reelegeu o Ahmadinejad provocou grandes protestos na capital, Teerã, e em outras cidades. Na época, milhares de pessoas foram presas e várias foram mortas.

Montazeri, morto de causas naturais em Qom na noite de sábado, foi um dos arquitetos da Revolução Islâmica de 1979 e um dos clérigos mais respeitados entre a comunidade muçulmana xiita. Depois da Revolução, ele se tornou um crítico ferrenho do governo.

No domingo, uma grande multidão se reuniu diante da casa dele para uma homenagem. Vídeos divulgados em sites da internet também mostraram centenas de pessoas concentradas nas ruas da cidade natal do aiatolá, Najafabad.

A mídia estrangeira tem seu movimento limitado no Irã desde os protestos após as eleições e costuma ser difícil confirmar os relatos. Nenhum jornalista da mídia estrangeira teve permissão para estar presente no funeral.

O Supremo Líder do país, aiatolá Ali Khamenei, elogiou Montazeri no domingo, dizendo que ele era um jurista destacado.

Mas o líder supremo também fez críticas ao aiatolá morto, dizendo esperar que Deus o perdoe por fracassar em "seu teste crucial", uma referência às divergências entre Montazeri e o líder da Revolução de 1979, Ruhollah Khomeini.

Os dois se desentenderam sobre questões de direitos humanos poucos meses antes de Khomeini morrer de câncer, em 1989. Hoseyn Ali Montazeri chegou a ser cogitado como sucessor do fundador da República Islâmica.

A Casa Branca elogiou o aiatolá dizendo que ele era "conhecido e respeitado internacionalmente por seu compromisso inabalável com os direitos universais".

Durante sua vida, Montazeri passou de um dos pilares da Revolução Islâmica de 1979 a um dos principais críticos das lideranças do país.

Ele acusava os governantes iranianos de impor uma ditadura em nome do Islã e disse que a libertação que deveria ter vindo após a revolução de 79 nunca ocorreu.