Terremoto no Haiti

Um ano depois do terremoto, missão da ONU não tem data para deixar o Haiti

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Em uma manhã no final de dezembro, o capitão Taujó Dornelles comandava uma ronda na favela de Cité Soleil, considerada uma das áreas mais pobres e violentas da capital do Haiti.

“Antes, éramos recebidos à bala aqui. Agora, a área está pacificada”, disse Dornelles durante a patrulha, acompanhada pela reportagem da BBC Brasil, referindo-se ao início da atuação da tropas de paz da ONU no Haiti.

A pacificação de áreas como Cité Soleil é apontada pelos militares como uma das conquistas da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), comandada pelo Brasil.

No entanto, após o terremoto que devastou o país um em janeiro de 2010, os desafios da missão se tornaram ainda mais complexos.

Um ano depois da tragédia, o Haiti ainda não começou a se recuperar, e as tropas da ONU não têm data para deixar o país.

Retrocesso

A Minustah foi enviada ao Haiti na metade de 2004, quando o país atravessava um momento de forte instabilidade política e sofria com a ação de gangues armadas que se enfrentavam em áreas mais violentas.

Foto: Alessandra Corrêa/BBC Brasil

As tropas atuam em algumas das áreas mais pobres e violentas

O objetivo da missão é garantir a segurança e a estabilidade do país.

“No final de 2009, a missão da ONU aqui, e o país como um todo, vinham num caminho de recuperação e de desenvolvimento”, disse à BBC Brasil o general brasileiro Luiz Guilherme Paul Cruz, comandante da Minustah.

“Infelizmente, no dia 12 de janeiro (de 2010) aconteceu o terremoto e mudou completamente as circunstâncias.”

Logo após a tragédia, que deixou mais de 230 mil mortos e 1,5 milhão de desabrigados e arrasou a já precária infra-estrutura do país, as tropas tiveram de se dedicar ao atendimento emergencial.

“Perdeu-se muita coisa, porque perderam-se muitas vidas. Perdeu-se infra-estrutura. A precariedade dos meios ficou maior”, diz o comandante.

O efetivo da Minustah foi ampliado, e hoje é composto por 8,6 mil militares de 19 países.

Mandato

Foto: Alessandra Corrêa/BBC Brasil

O general Cruz destacou as dificuldades causadas pelo tremor

Segundo o capitão Dornelles, a Polícia Nacional do Haiti (PNH) ainda não tem condições de assumir a tarefa de zelar pela segurança no país.

“A PNH ainda não está estruturada para conseguir manter o ambiente seguro e estável. Acredito que, com um pouco mais de investimento, terá condições de fazer isso, mas hoje, infelizmente, ainda não”, afirma Dornelles.

O mandato da Minustah é determinado pela ONU. Diante da situação no Haiti, deverá ser renovado novamente em outubro deste ano.

Além da destruição provocada pelo terremoto, o país enfrenta um momento de tensão política desde as eleições de 28 de novembro, marcadas por acusações de fraude.

Depois que os resultados iniciais provocaram violentos protestos, uma comissão da Organização dos Estados Americanos (OEA) ficou encarregada de revisar o processo, e deverá entregar seu parecer ainda nesta quinta-feira ao presidente René Préval.

Há o temor de que a divulgação da decisão da OEA gere novos protestos.

Sem a consolidação de um novo governo estável no país, nem se discute a saída das tropas.

Críticas

Os moldes da presença da Minustah, porém, geram críticas. No final de dezembro, o ex-representante da OEA no país, Ricardo Seitenfus, disse em entrevista à BBC Brasil que a questão do Haiti deveria sair do Conselho de Segurança da ONU e ser assumida pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

“O desenvolvimento do Haiti tem que ser feito pelos haitianos. Se a gente imagina que pode fazer isso por meio da Minustah e por meio de ONGs, estaremos enganando os haitianos e a opinião pública mundial”, disse Seitenfus, que foi afastado do cargo após questionar publicamente o papel das tropas da ONU no país. "Tenho uma percepção de que a qualidade de uma operação de paz é inversamente proporcional ao tempo de sua duração", afirmou.

Entre os haitianos, a presença da Minustah não é unanimidade. Alguns críticos apelidaram as tropas de “Touristah”, em referência à suposta falta de envolvimento de alguns de seus membros no processo de reconstrução.

Acusações

Ao longo dos seis anos e meio da presença das tropas internacionais, já houve acusações mais graves, de violações de direitos humanos, mortes e estupros.

Em outubro do ano passado, o relacionamento com a população foi abalado pela epidemia de cólera que se espalhou pelo país e já matou mais de 3,6 mil haitianos.

Alguns acusaram tropas do Nepal, que atuam na região central do país, de ter trazido a doença para o Haiti. A ONU abriu uma investigação sobre as alegações.

Os soldados brasileiros, porém, dizem que os atritos foram concentrados na região do batalhão do Nepal, e que em Porto Príncipe, onde atuam, continuam a ser bem recebidos pela população.

“O que a gente recebe de informação é que a população está satisfeita com a segurança que a Minustah proporciona e tem consciência de que se a Minustah sair daqui hoje a situação pode se inverter completamente”, diz o capitão Dornelles.

Na patrulha acompanhada pela reportagem da BBC Brasil, os soldados foram bem recebidos pela população nas favelas e campos de desabrigados.

“É por causa deles que vivemos em paz agora”, disse à BBC Brasil Ellie Victor, morador de Cité Soleil.

“Se decidirem sair do Haiti, tenho medo que o país caia no mesmo estado de caos em que se encontrava antes de eles chegarem.”

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