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01 de dezembro, 2000 - Publicado às 13h38 GMT

Doença avança na África do Sul
África é o continente mais atingido pela Aids
África é o continente mais atingido pela Aids

Kevin Osborne *

Libertando-se do seu legado do apartheid e emergindo como líder do renascimento africano, a África do Sul está enfrentando a maior ameaça à sua prosperidade econômica, política e social.

Por várias razões complexas ligadas aos assuntos do desenvolvimento que o continente está encarando, o HIV tem encontrado terreno muito fértil para se expandir na África sub-saariana, a região mais afetada pelo vírus no mundo.

Segundo a UNAIDS, 3,8 milhões de pessoas foram infectadas pelo vírus HIV no continente africano somente no ano passado. A maioria destas infecções permanece sem diagnóstico, fato que tem grandes implicações para a administração bem sucedida da epidemia.

Estima-se que, até o fim deste ano, 25,3 milhões de pessoas estejam contaminadas com o vírus HIV na África sub-saariana.

Os resultados de uma pesquisa feita em 1999 indicam que 22,4% das mulheres tratadas em clínicas de toda África do Sul são portadoras do vírus HIV.

Com mais de 1800 novas infeções ocorrendo todos os dias e com uma população de pouco mais de 40 milhões de habitantes, a África do Sul tem hoje o maior número de pessoas vivendo com Aids no mundo.

Por volta de 2015, o PIB sul-africano será US$6 bilhões menor do que seria caso o país não fosse afetado pela AIDS.

Embora as perspectivas para o futuro causem grande impacto até entre os mais corajosos, a reação à essa crise tem dado uma nova esperança e otimismo a muitos setores.

Isso faz com que tanto o governo como a sociedade civil colaborem cada vez mais com iniciativas para tratar lidar com a doença.

No entanto, é indiscutível que estes esforços têm que aumentar bastante para salvar a vida de todos os afetados pelos tentáculos cada vez mais extensos dessa epidemia.

Questões importantes

A África do Sul -e a região como um todo- está enfrentando quatro problemas fundamentais com relação à AIDS.

1. O estigma e a discriminação.

Por causa do estigma associado ao HIV e à AIDS, a grande maioria das pessoas nem sabe que está infectada. Embora muitas leis e políticas governamentais tenham sido criadas para proteger os direitos dos indivíduos e familías afetados pelo HIV e pela Aids, ainda há muita discriminação e preconceito.

Existem muitas histórias de preconceito tanto no local de trabalho como no campo social contra pessoas portadoras do HIV-Aids.

O estigma do HIV-Aids deixa no ar a vergonha, o sigilo e o silêncio que impedem a administração efetiva da doença.


2. Tratamento e apoio.

Por causa da epidemia explosiva que todas as comunidades estão sofrendo, a ênfase está se dirigido cada vez mais a questões ligadas ao tratamento e apoio.

Embora prevenção seja ainda um grande ponto do atual Plano Estratégico para África do Sul para HIV-Aids, são os desafios do tratamento que precisam de mais recursos e atenção.

Os atuais obstáculos com relação aos tratamentos incluem não só o preço dos medicamentos no mercado internacional, mas também a necessidade de infra-estrutura e pessoal do país para aumentar o número de pacientes atendidos.

O tratamento de doenças oportunistas ligadas à Aids tem destacado as falhas existentes nos sistemas de saúde para administrar medicamentes e fornecer o tratamento para quem precisa.

Como legado, a doença deixa milhares de órfãos, que devem somar entre 9% e 15% da população até 2005. Durante os últimos anos, a África do Sul foi testemunhou aumento preocupante no número de casas chefiadas por crianças.

É fato incontestável que engajamento político nos altos escalões dos governo é um ingrediente essencial para a administração bem sucedida do HIV e da Aids.

No entanto, historicamente a África do Sul tem sido lenta em reconhecer e admitir tanto o impacto da Aids e a prioridade que deve ser dada a seu tratamento.

Durante os últimos anos, o combate à doença ganhou mais força - esforço que culminou na formação do Conselho Nacional de Aids, que representa departamentos governamentais importantes e a sociedade civil.

Embora a importância deste órgão não pode ser questionada, as observações recentes pelo presidente Thabo Mbeki , questionando a ligação de causa entre HIV e Aids. resultou num ambiente de desconfiança, confusão e ira.

O comprometimento teórico para o combate à Aids é grande, mas ações tangíveis são para muitos um sonho impossível.

Muitos sul-africanos criticam a prioridade dada ao combate ao HIV em detrimento de políticas de combate à fome e a falta de moradia - problemas que deixam a população mais vulnerável à doença.

A África do Sul é uma sociedade altamente patriarcal, onde as mulheres têm baixo status econômico e social e pouco poder.

Isso se traduz no fato de as mulheres serem culpadas pela proliferação da doença. As mulheres formam a parcela da população mais atingida pela Aids.

Atuais programas de combate à Aids

O governo da África do Sul lançou recentemente o Plano Estratégico para HIV-Aids e doenças sexualmente transmissíveis.

Esse plano abrangente tem como objetivo aumentar o envolvimento de todos os setores, como sindicatos, corporações e a aliança civil-militar. Mas, para muitos, as iniciativas vêm tarde demais.

Aumentam ainda os esforços e os recursos destinados ao desenvolvimento de uma vacina contra a Aids que tenha preço acessível e seja eficaz para o tipo de vírus HIV predominante na região.

O Futuro

Acredito que tentamos por tempo demais lidar com as dificuldades impostas pela Aids.

Os esforços têm sido na melhor das hipóteses esporádicos e na pior das hipóteses, ineficaz.

É imperativo que façamos escolhas estratégicas. A tarefa não é fácil, mas resultará em avanços concentrados e parcerias mais eficientes.

A minha previsão para o país onde nasci é que as iniciativas que trouxerem esperança triunfarão.

Isso significa que é preciso concentrar mais esforços em iniciativas para dar assistência e acabar com o estigma social das pessoas que convivem com o vírus HIV ou com a Aids ou as pessoas afetadas por um ou outro. Essas iniciativas devem ser a raiz de onde brotam todas as outras atividades relacionadas ao problema.

Porque é a esperança de uma amanhã melhor que unirá todo o nosso povo - independentemente do estado de saúde de cada um.


Kevin Osborne é especialista em políticas relacionadas ao combate do HIV/AIDS, baseado na África do Sul.

 Pesquisa na BBC Brasil

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