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19 de novembro, 2001 - Publicado às 17h52 GMT
Crime violento é tabu em presídio feminino
Mulheres não gostam de admitir violência
Mulheres não gostam de admitir violência

Isabel Murray, de São Paulo

Crimes violentos são um tabu dentro dos presídios femininos.

Quem cometeu não admite, não quer contar.

Resta imaginar o que a detenta fez pelo tempo de prisão a que foi condenada.

"Eu fui sentenciada a 41 anos, caiu para 21, estou aguardando um novo júri", conta Cintia de Jesus, de 30 anos, que está na penitenciária de São Paulo.

Menos de 1%

Para se ter uma idéia, homicídios qualificados – como por exemplo pagar para alguém ser morto – dá até 30 anos de prisão.

O Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa da Polícia Civil do Estado de São Paulo afirma que, no ano 2000, aconteceram 5.000 homicídios na capital.

Mais de 700 casos foram analisados, e 125 tiveram a autoria estabelecida, sendo que alguns deles foram cometidos por mais de uma pessoa.

"Posso lhe afirmar que 138 autores são do sexo masculino e apenas 1 do sexo feminino", declarou o diretor do departamento Domingos Paulo Neto.

"Ou seja, 0,7% dos casos analisados foram atribuídos a mulheres e 97,2% aos homens. Então, a mulher nesse universo analisado não chegou a 1%."

Mas, mesmo que a mulher não seja autora do crime, ela pode ter outro tipo de participação.

"Dizem que a mulher não pratica o homicídio, ela manda praticar. Principalmente nos casos passionais", diz Domingos Paulo Neto.

Histórico de abusos

Na penitenciária feminina do Butantã, em São Paulo, estão 400 detentas. Cerca de 20% delas estão presas por homicídio. E 90% desse total matou o marido.

"Existe todo um histórico de agressão por parte do marido, às vezes até ameaça de morte mesmo. Aí elas acabam matando. Dá um estouro e elas matam", diz a psicóloga Cíntia Ferrari, que atende as detentas no Butantã.

A psicóloga diz que normalmente os homicídios acontecem após anos de agressões.

"Às vezes, elas têm histórias de abuso na adolescência, por parte de pai e mãe, aí elas repetem a mesma história de vida com o marido e chegam a esse ponto", completa Cíntia.

Fora esses casos extremos, é difícil uma mulher entrar para o mundo do crime isoladamente. O mais comum é elas atuarem no papel de parceiras.

Seqüestro

Fátima Almeida, funcionária do clube Pinheiros em São Paulo, foi seqüestrada em fevereiro de 2000 e sofreu nas mãos de duas adolescentes, quando parou em um sinal fechado à noite.

"No que eu parei, olhei do lado e vi uma arma apontada para mim", conta Fátima, que foi forçada a abrir a porta do carro.

Dois rapazes armados estavam acompanhados por duas moças.

Fátima foi forçada a passar para o banco de trás enquanto um dos rapazes assumiu a direção do carro.

Os seqüestradores pegaram os cartões de crédito de Fátima e exigiram a senha do banco.

Mais do que a violência, Fátima diz que ficou impressionada com a atitude das garotas.

"Tinham 16 e 17 anos, eram menores. Uma das meninas ficou na frente com eles, com uma arma, porque se acontecer alguma coisa elas atiram. E elas me disseram que, como eram menores de idade, só ficam um tempo na Febem e logo saem de lá", contou Fátima.

Os seqüestradores rodaram com o carro por algum tempo e acabaram levando Fátima para o cativeiro, numa favela.

Lá, os rapazes saíram e a deixaram com as garotas. Fátima diz que as meninas ameaçaram fazer roleta russa com ela, mas ela conseguiu conversar com as meninas.

"Tentei conversar com elas, fazer amizade, barganhei pela minha vida", diz Fátima.

Banalidade

"Eu perguntava o que elas iam fazer comigo, e elas diziam que eu era muito calma... mas cada hora que aquela porta abria, era terrível, eu achava, é agora que vão dar um fim em mim."

Depois de passar a noite toda nesse clima de pavor, somente na manhã seguinte. Fátima foi libertada, com os olhos vendados, e levada para o mesmo local onde tinha sido seqüestrada.

"Meu sentimento em relação às meninas é de dó, muita dó. Porque, para elas, matar e morrer é a mesma coisa. É uma coisa banal, foi isso que percebi durante o tempo que conversei com elas. E não sei se ainda estão vivas hoje", completa Fátima.

A opinião de Fátima é compartilhada por Poliana, de 16 anos, que está na Febem.

"O caminho dessa vida só leva ao cemitério, à cadeia ou ao hospital."

 
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Links externos:
Relatório da ONG americana Human Rights Watch sobre condições nas cadeias brasileiras (em português)
Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária
Febem-SP
Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo
Departamento Geral do Sistema Penintenciário do Rio de Janeiro
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