Conflito em Gaza expõe divisões na Liga Árabe

Mubarak e rei Abdullah
Image caption Egito e Árabia Saudita têm sido criticados em relação a Gaza
O conflito na Faixa de Gaza expõe uma realidade dura para os líderes árabes. na opínião de analistas, há dois blocos rivais na Liga Árabe que não se entendem quanto ao conflito no território palestino.

O primeiro bloco, segundo especialistas, seria formado por Egito, Arábia Saudita, Jordânia e Marrocos. O grupo é mais alinhado com os Estados Unidos e outros países ocidentais. Dois deles, Jordânia e Egito, mantêm relações diplomáticas com Israel.

O segundo bloco agregaria Catar, Líbia, Síria e Sudão, que contam com forte apoio e boas relações com Irã e Turquia.

Desde o início do conflito entre o Hamas e Israel em Gaza, em 27 de dezembro, os países árabes vêm falhando em adotar uma política única em relação à ofensiva militar israelense.

Protestos

Protestos no mundo árabe tentaram pressionar os governos da região para que se unissem em socorro aos palestinos de Gaza.

Governos árabes foram acusados pelo grupo palestino Hamas, o grupo xiita libanês Hezbollah, a Síria e o Irã de permanecer inertes frente à situação em Gaza.

O Egito e a Arábia Saudita vêm sendo os alvos principais de críticas - os egípcios principalmente por terem se recusado a abrir sua fronteira com Gaza.

O governo egípcio também foi acusado pelo Hamas de cumplicidade com Israel e também de favorecer o grupo rival do Fatah, do presidente Mahmoud Abbas, que controla a Autoridade Palestina.

Mortos e feridos

Após 21 dias de conflito, pelo menos 1.105 palestinos já morreram e outros 5,1 mil ficaram feridos em Gaza - de acordo com fontes médicas locais.

Israel diz que 13 israelenses morreram - três deles civis - e 233 militares ficaram feridos em confrontos com militantes palestinos.

Na semana passada, uma resolução do Conselho de Segurança da ONU exigiu um imediato cessar-fogo, mas foi ignorado pelos dois lados.

Israel exige que o Hamas pare de lançar foguetes contra o sul do país e que seja impedido de se rearmar.

O grupo palestino só aceita um cessar-fogo se as tropas israelenses desocuparem Gaza e se as fronteiras forem abertas.

Guerra Fria árabe

O comentarista e analista político Abdel Bari Atwan, editor-chefe do jornal Al-Quds Al-Arabi, baseado em Londres, comentou em emissoras de televisão que há uma Guerra Fria árabe em andamento.

"Temos dois blocos que lutam entre si para ver quem prevalecerá na diplomacia e resolverá o conflito em Gaza", disse Atwan. "Enquanto isso, centenas de palestinos morrem."

O analista acusou os governos árabes de não usarem sua influência política e suas economias como arma para forçar Israel a parar a ofensiva em Gaza.

Em editorial, o jornal The Daily Star, de Beirute, disse que a inércia em realizar ou não um encontro de países árabes para discutir Gaza é, na verdade, uma disputa por "liderança".

"Por anos, a Liga Árabe vem sendo uma arena para disputas de poder, desentendimentos internos e vaidades pessoais", afirma o diário. "Enquanto isso continua, cerca de 1,5 milhão de palestinos são submetidos às atrocidades de uma das máquinas militares mais avançadas e mortíferas do mundo."

Resolução

A Liga Árabe se reuniu nesta sexta-feira em Doha, capital do Catar, para uma reunião emergencial com o objetivo de chegar a uma resolução unificada em relação a Gaza.

Mas Egito, Arábia Saudita e Jordânia boicotaram o encontro, o que diminui o impacto de uma resolução que venha a ser aprovada.

O professor Hilal Khashan, diretor do Departamento de Ciência Política da Universidade Americana de Beirute, diz que o bloco formado por Catar, Síria, Sudão e Líbia não é visto com bons olhos pelos egípcios e sauditas.

"São países que têm boas relações com o Irã, país que é acusado de financiar grupos como Hezbollah e Hamas e tido como uma ameaça a seus regimes", disse Khashan à BBC Brasil.

Para o cientista político, dois blocos na Liga Árabe impedem que haja uma posição mais firme e unificada quanto a Gaza.

Diplomacia

Outra questão polêmica é a intensa diplomacia praticada pelo Catar. Segundo o professor de Ciência Política da Universidade Libanesa, Fares Ishtay, o pequeno país do Golfo Pérsico vem adotando uma política externa agressiva nos últimos anos.

De acordo com Ishtay, o Catar conseguiu intermediar com sucesso uma crise política no Líbano que se arrastava por um ano e meio, e isso teria rendido credibilidade para o emirado e despertado "inveja" em outros países.

"Egito e Arábia Saudita falharam em resolver a crise libanesa por se aliarem a um dos lados e se colocarem contra Hezbollah e Síria", disse Ishtay à BBC Brasil. "Enquanto isso, o pequeno Catar se sobressaiu, causando um atrito interno na Liga Árabe."

A crise em Gaza, segundo o cientista político, está submetida ao mesmo cenário dentro do mundo árabe.

"Egípcios e sauditas jamais perdoaram o Catar, e por extensão a Síria, por manter relações com o Irã", avalia Ishtay.

Para o analista, a questão é mais ampla e trata de um conflito em que o Irã está diretamente envolvido, e a Síria tem uma grande responsabilidade.

"Claramente, o Irã dividiu a Liga Árabe, e colocou Síria e Catar em rota de colisão com Arábia Saudita e Egito", afirma.

Ishtay enfatiza que, enquanto esses dois blocos não se unificarem e deixarem de lado suas diferenças, Israel e os Estados Unidos continuarão impondo suas políticas na região.