Hostilidade de vizinhos e Ocidente é legado da revolução iraniana , dizem analistas

Estudantes seguram retratos de Khomeini (esq.) e Khamenei durante comemoração de aniversário da revolução islâmica (AP)
Image caption Trinta anos depois, revolução ainda influencia a região

O Irã atrai ainda hoje a desconfiança e hostilidade do Ocidente e dos países árabes vizinhos devido à Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, segundo a opinião de analistas ouvidos pela BBC Brasil.

O movimento islâmico de Khomeini, que tem seus 30 anos completados nesta quarta-feira, colocou um fim à monarquia iraniana, condenando o xá Reza Pahlevi ao exílio.

Para o analista paquistanês Iftikhar Hussein, o Irã ainda hoje está no centro das questões do Oriente Médio e a maior herança da revolução é a divisão dos árabes.

Hussein disse por telefone à BBC Brasil que os países árabes continuam receosos de que a revolução iraniana possa inspirar movimentos islâmicos que coloquem em risco seus próprios regimes.

"Mesmo entre os regimes árabes, há divisões sobre como lidar com os iranianos. Temos dois blocos, um liderado pelo Catar e Síria, com boas relações com o Irã, e outro encabeçado pelo Egito e Arábia Saudita, alinhados com o Ocidente e hostis aos iranianos", afirma.

Papel político

Hussein salienta que, em um cenário em que os EUA lutam para estabilizar o Iraque e o Afeganistão, o Irã tem um "peso político muito grande" que ainda não é compreendido por árabes e americanos.

"O Irã continua hoje forte e ativo na região. Árabes e os americanos deveriam investir em mais diplomacia e política com o país", afirma.

Segundo ele, os Estados Unidos deveriam voltar a ter boas relações com o governo iraniano para contar com sua ajuda na estabilização na região.

"O Irã tem muito a contribuir com o Iraque pós-Saddam, pois a maioria da população iraquiana é xiita", diz Hussein.

O professor Mehdi Sanaei, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade de Teerã, afirma que a revolução iraniana continua a dar ao país um papel ativo na região.

"Movimentos islâmicos no Oriente Médio se inspiraram no Irã para criar suas agendas políticas, mas não são necessariamente uma cópia. O principal foi a ideia de resistência contra uma dominação estrangeira", disse Sanaei à BBC Brasil.

Para ele, os grupos políticos no Iraque, Líbano e territórios palestinos tiveram uma aproximação natural com o Irã por sua "importância no cenário da região e por ser um dos últimos bastiões de resistências aos EUA e Israel".

"Vemos o grupo libanês Hezbollah e o palestino Hamas, que perceberam a falta de ação de governos árabes e suas alianças com os americanos. Isso trouxe o Irã como centro de uma ideia de resistência e de apoio político-financeiro".

Falhas

Sanaei, no entanto, admite que, embora a revolução continue a afetar o mapa político da região, ela falhou em exportar a totalidade de seus ideais. "A revolução não chegou para as outras sociedades muçulmanas, mesmo com a simpatia do mundo islâmico pelo aiatolá Khomeini".

Ele afirma que o motivo para isso foi o afastamento do secularismo do início da revolução iraniana e uma maior ênfase à linha mais dura e teocrática.

Isso, segundo Sanaei, não agradou às sociedades sunitas, mais propensas ao secularismo.

No entanto, outros analistas apontam a relação com o Ocidente e o isolamento iraniano como a maior falha da revolução iraniana.

"Embora haja partidos reformistas que defendem uma maior aproximação, o Irã continuou a ter péssimas relações com muitos países ocidentais", declarou à BBC Brasil o analista libanês Ibrahim Moussawi.

Ele afirma que este isolamento fez com que Irã tentasse atingir os interesses dos EUA através do financiamento de grupos antiamericanos em diversos países árabes.

"Os EUA e aliados erraram ao isolar o Irã, mas os iranianos também falharam ao reagir com mais radicalismo", afirma Moussawi.

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