Começa votação em referendo sobre reeleição na Venezuela

Venezuelanos em posto de votação (Foto: AFP)
Image caption Segundo pesquisas, 'sim' estaria com vantagem sobre 'não'

Os moradores das principais cidades da Venezuela despertaram às 5h deste domingo (hora local, 6h30 em Brasília) ao som de queimas de fogos e do toque de uma marcha militar que chamava os eleitores a participar do referendo que deve decidir sobre o fim do limite à reeleição no país.

Mais de 16 milhões de venezuelanos são esperados nas urnas nesta que é a 15ª eleição no país em dez anos do governo do presidente Hugo Chávez.

Grande parte dos centros de votação abriu às 6h (hora local, 7h30 em Brasília), com relativa concentração de eleitores que já aguardavam na fila para votar.

No leste de Caracas, onde vive a maioria dos opositores ao governo, as filas começaram a se formar ainda na madrugada.

"Esta é a última chance que temos para mudar esse país. Senão, acabou, não nos livraremos mais deste presidente", disse à BBC Brasil o comerciante Alécio Zerpa.

Ele conta que desde que Chávez chegou ao poder a propriedade privada deixou de ser respeitada na Venezuela.

"Eu tinha uma fazenda no Estado de Apure (fronteira com a Colômbia) e tive que vender. Os guerrilheiros aparecem, amedrontam e não há governo para reprimir", afirmou.

Em outro centro de votação também no leste de Caracas, o músico Federico Pérez disse que uma vitória da oposição neste domingo "é fundamental para garantir a democracia" no país. "Não estou de acordo com a reeleição, o poder concentrado nas mãos de uma só pessoa corrompe", afirmou.

Chavistas confiantes

No oeste da cidade, no bastião chavista do bairro de 23 de Enero, os eleitores se mostravam confiantes na aprovação da emenda.

"O que está em jogo hoje é o futuro da revolução e por isso contamos com a reeleição de Chávez, para que nós pobres continuemos sendo tomados em conta neste país", disse à BBC Brasil o analista de sistemas Luís Almaro.

Para a desempregada Suzana Pérez, que conta ter sido demitida "por ser chavista" da prefeitura de Caracas, cujo novo prefeito é o opositor Antonio Ledezma, uma derrota do governo hoje poderia significar "o fim da revolução".

"É no Chávez em quem confiamos para continuar transformando esse país. Sem ele, voltamos ao abandono do passado. Todos estamos conscientes disso, por isso vamos ganhar", afirmou.

As últimas pesquisas de intenção de voto apontam que a emenda poderia ser aprovada por uma margem estreita de votos. O principal desafio neste pleito, tanto para o governo, como para a oposição, será diminuir o percentual de abstenções.

Representantes dos partidos governistas e opositores têm demonstrado preocupação devido à redução do número de eleitores nos centros eleitorais, cujas filas desapareceram depois da primeira hora de votação.

"Estas eleições estão muito frias. Convoco todos a sair a votar, não fiquem em suas casas", foi o apelo de Capriles Radonski, novo governador opositor do Estado de Miranda, logo depois de votar.

De acordo com o instituto de pesquisa Datanalisis, cerca de 10% do eleitorado se declarou indeciso nas vésperas do pleito. A tendência é imprevisível, mas pode definir o resultado final.

Polarização

Para os opositores que defendem a opção do "Não", a emenda constitucional afeta o princípio de alternância democrática.

"Não existe justificativa nenhuma para pretender mudar a Constituição só para agradar a ambição de uma pessoa de querer governar além dos 14 anos (acumulados por dois mandatos consecutivos)", afirmou Antonio Ledezma, novo prefeito de Caracas.

Para os governistas, que consideram "indispensável" que Chávez continue à frente da chamada revolução bolivariana para consolidar um modelo socialista no país, o referendo é mais uma "prova do caráter democrático" da gestão chavista.

"Todos os avanços do nosso processo se fizeram e se farão sempre com a aprovação do povo venezuelano. Aqui não há possibilidade alguma que as coisas ocorram de outra maneira", afirmou à BBC Brasil Maximilien Arvelaiz, assessor de Assuntos Internacionais da Presidência.

Futuro

Durante a campanha, a oposição que ainda está desarticulada na maioria dos Estados do país, denunciou as condições desiguais com que tiveram de enfrentar a campanha oficialista, marcada pelo uso da máquina do Estado.

Na opinião de analistas, uma vitória do "Sim" poderá ser interpretada por Chávez como um aval para radicalizar o governo. É o que espera a maioria dos simpatizantes do presidente, que se queixam da ineficiência da administração pública.

Caso a oposição consiga uma vitória, os partidos opositores poderiam conquistar novo "oxigênio", de acordo com analistas, para disputar as eleições parlamentares de 2010 e construir uma candidatura unitária para disputar as eleições presidenciais de 2012 contra o chavismo. Mais de 140 mil efetivos das Forças Armadas estarão a cargo da segurança dos 11,6 mil centros de votação espalhados pelo país.

De acordo com o Conselho Nacional Eleitoral, 1,6 mil observadores nacionais e 98 internacionais, provenientes de 25 países, estão acompanhando o pleito deste domingo.

Os meios de comunicação estão proibidos pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) de adiantar qualquer resultado de pesquisa de boca-de-urna. De acordo com o CNE, o primeiro boletim com resultados "irreversíveis" será divulgado três horas depois do fechamento das urnas, previsto para ocorrer às 18h (hora local, 19h30 em Brasília).

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