Julgamento de ex-líder do Khmer Vermelho começa no Camboja

Kaing Guek Eav, ou Duch, durante o julgamento
Image caption Kaing Guek Eav, ou Duch, durante o julgamento

O esperado julgamento do ex-líder do Khmer Vermelho no Camboja teve início nesta terça-feira na capital do país, Phnom Penh, trinta anos depois da queda do regime.

Kaing Guek Eav, mais conhecido como "camarada Duch", era chefe de um dos maiores campos de prisioneiros do regime e acusado de chefiar pessoalmente o assassinato e tortura de pelo menos 15 mil detentos.

Eav era professor. Mas, como um dos líderes do Khmer Vermelho, ele dirigiu o centro de interrogação de Tuol Sleng, também conhecido como S-21, localizado em Phnom Penh, durante quatro anos depois da vitória do Khmer Vermelho em 1975.

Os que sobreviviam à tortura eram enviados para execução nos chamados "campos da morte".

O partido Khmer Vermelho esteve no poder no Camboja entre 1975 e 1979 e foi responsável por um dos maiores episódios de assassinato em massa do século 20. Mais de um milhão de pessoas morreram. Algumas estimativas colocam o número de vítimas em até 2 milhões, mortos de fome, por excesso de trabalho ou vítimas de execuções.

O Camboja pediu à Organização das Nações Unidas (ONU) e à comunidade internacional para ajudar no estabelecimento de um tribunal para julgar o genocídio há mais de uma década.

Um tribunal conjunto finalmente foi estabelecido em 2006 depois de muita negociação entre o governo cambojano e a ONU.

Recursos impetrados, procedimentos para a criação do tribunal e outros problemas atrasaram ainda mais o início do julgamento, que é presidido por juízes cambojanos e internacionais.

Segundo o correspondente da BBC para o sudeste da Ásia Jonathan Head o governo cambojano rejeitou que mais pessoas fossem acusadas pelo tribunal, alegando que isso não ajudaria no processo de reconciliação nacional.

Filas

De acordo com Jonathan Head, houve enormes filas para assistir ao julgamento do ex-chefe da S-21.

Para os sobreviventes, o dia de abertura de julgamento oferece a primeira oportunidade de se ver uma das figuras da liderança do Khmer Vermelho sendo julgado.

Image caption As filas para a entrada no julgamento duraram horas

O juiz que preside o julgamento, Nil Nonn, afirmou que a primeira audiência representa a "concretização dos esforços para estabelecer um tribunal justo e independente para julgar aqueles que estavam em posição de liderança e aqueles mais responsáveis pela violação das leis cambojanas e internacionais".

Nos primeiros dias o tribunal vai se concentrar apenas em procedimentos formais. Os depoimentos de testemunhas devem começar apenas no próximo mês.

Nove anos

Kaing Guek Eav, o "camarada Duch", foi levado para o tribunal em um veículo à prova de balas, saindo do centro de detenção para o prédio especialmente construído para o julgamento.

Duch, de 66 anos, foi preso em 1999, dois anos depois de seu paradeiro ter sido descoberto por um fotógrafo britânico. Segundo François Roux, da defesa de Duch, é "inaceitável" que ele tenha sido mantido preso por mais de nove anos sem julgamento.

O correspondente da BBC afirma que o que é diferente na situação de Duch é que ele diz ter se arrependido do que fez e pediu perdão às suas vítimas.

Convertido ao cristianismo, Duch teria cooperado com as investigações e deve revelar informações importantes a respeito das decisões tomadas pela liderança do Khmer Vermelho.

Outros acusados

Analistas afirmam que estas informações podem ajudar nos julgamentos que devem ocorrer em 2009 de quatro outros ex-líderes do movimento, Noun Chea, Ieng Sary e Khieu Samphan, todos idosos e com problemas de saúde.

Os quatro negaram conhecimento das atrocidades que ocorreram durante o regime. E se os preparativos para o julgamento deles forem atrasados, Duch poderá ser o único a ser responsabilizado pelas atrocidades do Khmer Vermelho, segundo Jonathan Head.

O homem mais procurado por crimes contra a humanidade no Camboja nunca irá a julgamento. Pol Pot, fundador e líder do Khmer Vermelho morreu em um campo na fronteira com a Tailândia em 1998, no mesmo ano que seus últimos guerrilheiros concordaram em abandonar a luta.