Entenda o conflito no Sri Lanka

Destroços de avião dos Tigres Tâmeis abatido no Sri Lanka (AFP)
Image caption Ofensiva contra os rebeldes se intensificou nas últimos meses

O líder do grupo rebelde Tigres de Libertação da Pátria Tâmil (LTTE, na sigla em inglês), Velupillai Prabhakaran, foi morto em um conflito com o Exército, segundo fontes militares do Sri Lanka.

Os rebeldes lutam por uma pátria independente para a minoria tâmil no norte e leste do país asiático.

Entretanto, depois dos confrontos intensos dos últimos meses entre as forças armadas do Sri Lanka e os rebeldes, o governo anunciou o fim do conflito, iniciado há 26 anos.

A BBC Brasil preparou uma série de perguntas e respostas sobre o conflito.

Quem são os Tigres de Libertação da Pátria Tâmil?

Os rebeldes iniciaram a luta por um Estado independente - Eelam, no norte e leste do Sri Lanka - nos anos 70.

Eles argumentavam que a comunidade tâmil era discriminada pelos sucessivos governos dominados pela maioria cingalesa.

O LTTE estava entre as guerrilhas mais organizadas e disciplinadas do mundo nas últimas décadas. Eles tinham sua própria "capital", forças militares, marinha e até uma rudimentar força aérea.

Eles também desenvolveram a técnica de atentados suicidas para alcançar efeitos ainda mais letais e são considerados um grupo terrorista em vários países.

Qual são as origens do conflito?

O Sri Lanka é um país multiétnico com uma população de cerca de 21 milhões de habitantes.

Antigo centro do budismo, o país também tem um número significativo de hinduístas, cristãos, muçulmanos e comunidades menores de outras religiões.

As origens do conflito remontam ao período em que a ilha se tornou independente da Grã-Bretanha, em 1948.

Embora os anos imediatamente posteriores à independência tenham sido de relativa paz, logo começaram as tensões entre a maioria cingalesa - que é majoritariamente budista - e a comunidade tâmil, que é formada por hinduístas e católicos romanos.

As duas comunidades falam línguas diferentes - cingalês e tâmil - e ambas afirmam que seus ancestrais são os habitantes originais da ilha.

Logo após a independência, a comunidade tâmil começou denunciar uma suposta discriminação por parte da maioria cingalesa, que dificultava o acesso dos tâmeis a empregos públicos e vagas na universidade.

À época, o governo argumentava estar corrigindo os desequilíbrios do período colonial, quando os cingaleses acusavam os britânicos de dar tratamento preferencial aos tâmeis.

Esta discriminação por parte do governo foi citada pelo líder dos Tigres Tâmeis, Prabhakaran, como o principal motivo que o levou a criar, em 1972, a milícia Novos Tigres Tâmeis, que quatro anos depois foi rebatizada como Tigres de Libertação da Pátria Tâmil.

Desde então, a luta pela criação de um Estado tâmil foi usada como justificativa para inúmeros ataques suicidas e outros atentados empreendidos pelos Tigres Tâmeis contra alvos civis e militares.

O primeiro ataque registrado feito pelos Tigres Tâmeis ocorreu em 1983, quando, 13 soldados cingaleses foram mortos por militantes tâmeis em Jaffna, que é considerada um centro espiritual e histórico dos tâmeis.

Os rebeldes estão acabados?

Depois de meses de violentos combates, o governo afirma que toda a ilha está sob controle pela primeira vez em várias décadas.

Durante muitos anos, os rebeldes controlaram extensas áreas do norte e leste do Sri Lanka.

Agora, o movimento rebelde foi destruído como força militar convencional e sua liderança foi dizimada.

Mas segundo a imprensa internacional cobrindo o conflito, provavelmente ainda há ataques da guerrilha espalhados pela região - mas não está claro quantos rebeldes podem ter conseguido escapar da zona de conflito nos últimos meses.

Os Tigres Tâmeis também controlavam grandes recursos financeiros e logísticos e contam com o apoio de muitos tâmeis expatriados em vários países.

Qual a gravidade da violência nos últimos anos?

Poucas vezes a guerra civil no Sri Lanka foi tão violenta como nos últimos meses.

O exército cingalês lançou uma ofensiva contra os rebeldes tâmeis buscando uma derrota definitiva de suas forças o mais rápido possível.

A captura da cidade de Mullaitivu, em janeiro deste ano, logo depois da queda da "capital" rebelde, Kilinochchi, foi considerada uma grande vitória simbólica para o governo.

Embora a confirmação exata do número de mortos nos recentes combates não possa ser verificada de maneira independente - o acesso às áreas é controlado pelo governo -, há poucas dúvidas de que os dois lados sofreram perdas significativas.

Centenas de milhares de pessoas também perderam suas casas nos últimos meses.

Isto ocorreu principalmente no norte do país, onde os militares lançaram ofensivas contra áreas controladas pelos Tigres Tâmeis, depois de tomarem o controle de regiões no leste em 2007.

Segundo as agências de auxílio humanitário, há sérias dificuldades para levar alimentos para os desabrigados.

Quais são os custos humanos do conflito?

Calcula-se que durante todo o período da guerra civil no Sri Lanka, 70 mil pessoas tenham morrido e outras milhares tenham buscado refúgio em países ocidentais, o que trouxe graves consequências econômicas e sociais para o país.

Centenas de milhares de pessoas também foram obrigadas a deixar suas casas por causa do conflito.

Tanto os rebeldes quanto o Exército cingalês são acusados de abusos dos direitos humanos por organizações como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch.

Como os rebeldes foram derrotados?

Segundo analistas, o principal fator foi o aumento com gastos militares, desde que o presidente Mahinda Rajapakse assumiu o poder em 2005.

A ofensiva militar se intensificou no início do ano passado depois que o governo abandonou formalmente o cessar-fogo que, segundo críticos, vinha sendo quase ignorado na prática.

O governo cingalês também fechou o cerco sobre o arrecadamento de fundos para os rebeldes em países da Europa, no Canadá e nos Estados Unidos. A pressão já vinha aumentando desde os atentados de 11 de setembro.

E os civis?

Os dois lados do conflito foram repetidamente acusados de ignorar o sofrimento dos dezenas de milhares de civis presos no fogo cruzado.

Os rebeldes negam ter usado os civis como "estudos humanos", e os militares rejeitam as acusações de ter bombardeado a região indiscriminadamente.

Centenas de milhares de deslocados internos estão agora abrigados em campos controlados pelo governo. As agências de ajuda humanitária temem que o governo não tenha recursos para cuidar deles.

O que se pode esperar agora?

O desfecho do conflito vai depender, em grande parte, do que as autoridades cingalesas decidirem.

O modo como eles buscaram sua vitória militar - ignorando os pedidos internacionais de moderação - pode ter radicalizado uma nova geração de tâmeis, tanto na ilha como entre os expatriados na Europa, Ásia e América do Norte.

Também vai haver pressão internacional sobre o Sri Lanka para que dê certa autonomia política aos civis tâmeis o mais rapidamente possível, para tentar garantir que o conflito não seja ressuscitado com ainda mais violência no futuro.

O presidente Rajapakse prometeu que vai introduzir reformas políticas que, segundo ele, vão satisfazer as aspirações tâmeis.

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