Hillary defende cooperação com Rússia, mas admite diferenças

Javier Solana e Hillary Clinton em Bruxelas
Image caption Hillary Clinton se encontrou com chefe da política externa europeia

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, defendeu nesta sexta-feira uma nova fase de cooperação entre Estados Unidos e Rússia, mas admitiu que há assuntos sobre os quais os dois países mantêm divergências.

"Existem áreas em que nós simplesmente discordamos completamente, e não vamos colocar isso debaixo do tapete", afirmou Hillary, em entrevista à BBC.

"Não vamos reconhecer as zonas separatistas da Geórgia, não vamos reconhecer qualquer esfera de influência por parte da Rússia ou nenhuma possibilidade de eles terem algum poder de veto sobre quem pode se juntar à União Europeia ou à Otan", acrescentou.

As relações entre russos e americanos se deterioraram nos últimos anos. O papel da Rússia na guerra na Geórgia e o apoio dos Estados Unidos à entrada da Geórgia e da Ucrânia na Otan contribuíram para isso.

Outra tema que provoca atrito na relação entre Estados Unidos e Rússia são os planos americanos de instalar um sistema de defesa antimísseis nos territórios da Polônia e da República Checa. A iniciativa não conta com a aprovação de Moscou.

"A defesa de mísseis é um elemento de nossa postura de defesa conjunta. Obviamente, será preciso provar que funciona e que tem uma boa relação custo-benefício para que seja instalado na República Checa e na Polônia. Mas o objetivo é formar parte de uma resposta defensiva frente ao Irã e a outros países que possam obter e determinar o uso de mísseis contra a Europa", disse Hillary.

"Acreditamos que a Rússia e os Estados Unidos têm a oportunidade de cooperar na defesa antimísseis, de fazer pesquisa e desenvolvimento conjuntos e, até mesmo, supondo que possamos chegar a tal acordo, o envio conjunto (de mísseis)", completou.

'Reiniciar'

Apesar das divergências com os russos, o novo governo americano sob o comando de Barack Obama tem acenado na direção de uma reaproximação.

Na quinta-feira, a Otan aceitou retomar os contatos com a Rússia, especialmente no que diz respeito à cooperação em relação à missão da Otan no Afeganistão.

Hillary afirma que esta foi uma decisão importante, que demonstra a vontade de mudar a maneira como os países ocidentais lidam com a Rússia.

"Vamos apertar o botão para reiniciar", disse a secretária de Estado americana ao editor da BBC para a Europa, Mark Madell. "Temos uma longa lista, dos dois lados, de questões nas quais vamos tentar buscar áreas de cooperação."

"Nossos esforços contra o terrorismo, nossos esforços em nome do controle de armas e da não proliferação", acrescentou. "Discutir áreas onde achamos que temos que nos entender melhor e tentar eliminar o atrito - energia, segurança, mudança climática."

De acordo com Hillary, a reaproximação dos Estados Unidos com a Rússia não prejudica de forma alguma o apoio a outros aliados como países do Báltico e a Geórgia.

Em Bruxelas, antes da reunião desta sexta-feira com o colega russo Sergei Lavrov em Genebra, a secretária de Estado americana afirmou que parte da culpa pela deterioração das relações entre Estados Unidos e Rússia foi do governo do ex-presidente George W. Bush.

"Havia uma abordagem ligada ao confronto em relação à Rússia no governo anterior", disse. "Acho que é uma questão legítima tentar saber o quanto isso contribuiu para o comportamento russo."

Controle de armas

Na reunião desta sexta-feira, a expectativa era de que o ministro do Exterior russo, Sergei Lavrov, tratasse de outros temas com Hillary, incluindo o desejo do governo russo de acelerar as negociações sobre controle de armas.

Um porta-voz do Ministério do Exterior russo teria afirmado que a Rússia vê com "otimismo cauteloso" o encontro com Hillary.

De acordo com o correspondente da BBC em Moscou, Rupert Wingfield-Hayes, o clima agora é muito diferente do clima de meses atrás, quando a Rússia culpava os Estados Unidos por tudo, desde a crise financeira mundial até a guerra na Geórgia.

Segundo Wingfield-Hayes, a crise econômica prejudicou muito as finanças da Rússia, e o país agora precisa de amigos e investimentos, e não de uma nova Guerra Fria.

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