Às vésperas do G20, Amorim reforça pedido de "mais voz" aos emergentes

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Os países emergentes, incluindo o Brasil, estão preparados para participar de um esforço global para a recuperação da economia. Mas, para isso, precisam ter "mais voz" nos organismos internacionais, disse o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, em entrevista à BBC.

Essa é uma das mensagens que o governo brasileiro pretende levar à reunião de chefes de Estado do G20, marcada para o dia 2 de abril, em Londres.

"Se você quer Brasil, China, Índia e África do Sul participando desse esforço, esses países precisam ter mais voz nas instituições financeiras", disse o chanceler.

Amorim afirmou que o Brasil não pretende pedir ajuda "para ele mesmo", mas que algumas medidas, como mais crédito para o comércio entre países em desenvolvimento, seriam bem-vindas.

Essa é a segunda vez que os chefes de Estado dos principais países ricos e em desenvolvimento se encontram. O primeiro encontro ocorreu em novembro do ano passado, em Washington, quando os países anunciaram uma série de compromissos para evitar o agravamento da crise econômica.

Uma das novidades desse segundo encontro é a presença do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Na avaliação de Amorim, é possível que Brasil e Estados Unidos cheguem à reunião em Londres com "visões convergentes".

"Nos aspectos mais importantes, o que eu tenho visto das atitudes do governo Obama é uma preocupação em combater a crise criando emprego, fomentando as atividades produtivas, sem perder de vista as necessidades sociais - alguns pontos que são comuns (entre Brasil e Estados Unidos)".

O protecionismo, segundo Amorim, será novamente um tema presente nessa segunda edição da cúpula. "A ameaça continua", diz.

Um exemplo é a cláusula do Buy American, incluída pelo Congresso americano no pacote de recuperação econômica dos Estados Unidos e que prevê a preferência pela compra de insumos americanos na área de construção civil.

"Exortações contra o protecionismo não bastam. Precisamos de ações concretas. E a ação concreta que podemos tomar é a conclusão da Rodada Doha", diz Amorim.

Leia aqui a entrevista de Celso Amorim

BBC - O presidente Lula vai se encontrar em breve com o presidente Obama. A América Latina não tem sido uma prioridade para os Estados Unidos... O senhor espera alguma mudança?

Amorim - Mais importante do que ser uma prioridade ou não, é que os Estados Unidos tenham um bom entendimento do que está acontecendo na América Latina e Caribe. Duas coisas precisam ser entendidas: primeiro, que essas são sociedades em processo de transformação, e esse processo é diversificado. Dois, que não há espaço para receitas homogêneas, que tivemos no passado.

BBC - O que o Brasil espera da reunião do G20? Algum tipo de contribuição aos mais pobres? Uma reforma mais abrangente na estrutura financeira global?

Amorim - Esperamos uma combinação de coisas. Suponho que os líderes vão discutir o que deve ser feito, de forma coordenada, para lidar com a crise mundial. Mas há também a questão do sistema financeiro global, que precisa ser modificado. Se você quer Brasil, China, Índia, África do Sul, participando do esforço de recuperação da economia global, esses países precisam ter mais voz nas instituições financeiras. O Brasil não está buscando ajuda para ele mesmo, mas eu diria que algumas medidas, como mais crédito para o comércio entre países em desenvolvimento, seriam bem-vindas.

Se você quer Brasil, China, Índia e África do Sul participando do esforço de recuperação da economia global, esses países precisam ter mais voz nas instituições financeiras

Celso Amorim

BBC - E existe abertura para essas mudanças?

Amorim - Acredito que sim. Acho que existe um movimento nesse sentido. Temos conversado com outros ministros... O próprio presidente Lula conversou com outros presidentes no encontro de Washington, e temos também conversado com as equipes no Banco Mundial, no Fundo Monetário Internacional... Eu diria que, de uma forma geral, existe uma resposta positiva.

BBC - Sabemos que uma das questões complexas entre Estados Unidos e a América Latina é a Venezuela. O Brasil tem um papel de intermediador?

Amorim - Não gosto dessa palavra. Esses são países adultos. Eles podem dialogar sem a ajuda de um intermediador. Eu acho que é uma questão de colocar de lado alguns mal-entendidos do passado, que de certa forma foram bastante pessoais.

Somos amigos dos Estados Unidos, da Venezuela, de Cuba. Se pudermos ajudar, ótimo

Celso Amorim

Minha impressão é de que a Venezuela está pronta para isso. Às vezes falamos com eles, "sejam pacientes, as coisas não mudam de um dia para outro". Acho que é assim que lidamos com essa relação: não posando como intermediadores, mas tentando ajudar. Somos amigos dos Estados Unidos, da Venezuela, de Cuba. Se pudermos ajudar, ótimo.

BBC - O senhor acha que haverá mudanças na distribuição de poder com a crise financeira? Os países emergentes terão um papel maior?

Amorim - Eu acho que esse processo começou antes da crise. Veja o caso da OMC (Organização Mundial do Comércio). Há 15 anos, as negociações eram feitas pelo famoso Quad, grupo formado por Estados Unidos, União Européia, Canadá e Japão. Nos últimos anos, o Quad passou a ser formado por Estados Unidos, União Européia, Brasil e Índia. Agora, com a crise, essa mudança passou a ser percebida também na área financeira. E isso tem dois aspectos: um é o peso de cada um desses países emergentes, que é muito importante. O segundo ponto é a capacidade de articulação diplomática desses países, o que permite se articular com outros países na busca por consenso.

BBC - O senhor acha possível que Brasil e EUA cheguem à reunião do G20 com visões convergentes?

Amorim - Acho que sim. Nos aspectos mais importantes, o que eu tenho visto das atitudes do governo Obama é de que existe uma preocupação em combater a crise criando emprego, fomentando as atividades produtivas, sem perder de vista as necessidades sociais - alguns pontos que são comuns (entre Brasil e Estados Unidos). Eu não poderia, de antemão, dizer se, em todos os pontos que vamos discutir, haverá ou não acordo. Eu acho muito positivo que vai haver reunião com chefes, assessores, que estão cuidando da declaração, além dos ministros da Fazenda, que têm encontro marcado. Eu e Hillary Clinton conversamos dias atrás e há boa perspectiva, sim, de podermos chegar a um entendimento.

BBC - O protecionismo foi um dos principais temas da declaração do G20, em novembro. De lá pra cá, vimos alguns acenos de protecionismo. O assunto volta a ser o tema principal nessa próxima reunião, em Londres?

Amorim - O tema continua presente. É uma grande ameaça, que continua. Não bastam exortações pra impedir o protecionismo. Você precisa ter uma ação concreta. E a ação concreta que se pode tomar é concluir a Rodada Doha.

Não bastam exortações pra impedir o protecionismo

Celso Amorim

Exortações devem ser feitas, mas o fundamental é avançar nas negociações comerciais multilaterais.

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