Para Lula e Obama, crise dificulta avanços comerciais

LUiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama em Washington
Image caption Reunião foi marcada por discussões sobre economia e bom humor

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, acreditam que a crise financeira global tornou mais difíceis as negociações necessárias para derrubar barreiras protecionistas e destravar a Rodada de Doha de liberalização comercial.

A turbulência financeira foi o tema dominante do encontro de cerca de duas horas entre os dois presidentes na Casa Branca, neste sábado.

"É difícil fecharmos uma série de acordos comerciais em meio a uma crise, ainda que estejamos comprometidos em contornar as nossas diferenças em relação à Rodada de Doha e outros temas'', disse Obama.

Lula concordou que a turbulência tornou mais remotas as possibilidades de um desenlace positivo para a rodada comercial.

"Acho que em meio à crise econômica, é mais difícil a gente concluir o acordo, mas acho que a conclusão do acordo pode ser um dos componentes para aliviar a crise nos países pobres.''

O presidente acrescentou que "essa crise é muito delicada, mas ao mesmo tempo é uma oportunidade extraordinária para que possamos provar a quem nos elegeu que somos capazes de lidar com os problemas grandes''.

Protecionismo De acordo com Obama, propostas para coibir medidas supostamente protecionistas por parte de americanos e brasileiros serão discutidas nas próximas reuniões entre o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e a secretária de Estado americana, Hillary Clinton. Segundo o líder dos Estados Unidos, ''é muito importante que todos os países reconheçam que existe uma tendência natural, em épocas de dificuldades econômicas de se voltar para dentro'', mas ele acrescentou que o objetivo de todos não deveria ser o de ''ao menos não regressarmos no tempo''. O presidente americano se defendeu das críticas em relação à cláusula ''Buy American'', do seu plano de estímulo econômico.

Inicialmente, a proposta recebeu críticas de países emergentes como Brasil, China e Índia porque vetava compras de aço, ferro e manufaturados produzidos por outras nações que não os Estados Unidos. A proposta acabou sendo atenuada na versão final ''A minha administração trabalhou ativamente com o Congresso para garantir que qualquer provisão ali não violasse os termos da Organização Mundial de Comércio (OMC)'', afirmou o americano. Lula, por sua vez, também disse não ser correto afirmar que o Brasil não quis fazer concessões comerciais exigidas por americanos. O Brasil, de acordo com o presidente, ''fez um esforço incomensurável, para que nós fechássemos o acordo de Doha ainda no (governo do) presidente Bush''. Para Lula, ''o protecionismo, nesse momento, seria agravar a crise''. Etanol

Obama reconheceu "que o tema do etanol que entra nos Estados Unidos tem sido um tema de tensão entre os dois países''. O biocombustível brasileiro exportado para o mercado americano enfrenta uma sobretaxa de US$ 0,54.

Mas o presidente dos Estados Unidos afirmou que a barreira enfrentada pela versão brasileira do biocombustível "não será algo que vai mudar da noite para o dia''.

Lula frisou que este era o primeiro encontro dos dois e que "ninguém muda sua matriz energética de uma hora para a outra''.

O brasileiro ainda aproveitou a oportunidade para brincar com o colega. "E quando o presidente Obama for ao Brasil, eu vou pedir para ele andar num carro flex, e ele vai perceber a tranquilidade.''

As brincadeiras surgiram em diferentes momentos da conversa entre a dupla e jornalistas americanos e brasileiros.

Lula fez piada com a crise financeira que o presidente americano vem enfrentando no início de seu mandato.

"Disse ao presidente Obama que nos comícios públicos dos quais eu participo no Brasil, eu conto que rezo mais por ele do que por mim mesmo. Com apenas 40 dias de mandato, ter um pepino desses na mão, eu não queria estar no lugar dele.''

Sorridente, Obama retrucou: "Vou te contar, você parece que andou conversando com a minha mulher.''

O presidente americano também fez gracejos com a imprensa brasileira. Quando indagado sobre uma possível visita ao Brasil, o americano afirmou:

"Como sou alguém que cresceu no Havaí, acho muito importante que eu ao menos vá ao Rio, onde contam que as praias são muito bonitas.''

Sobre os rumores de que ele pretendia ir à Amazônia, o americano foi mordaz:

"Eu adoraria fazer uma viagem à Amazônia. Desconfio que o Partido Republicano adoraria que eu viajasse pela Amazônia e depois me perdesse por lá.''

O encontro teve duração muito superior à prevista. Primeiro, os dois se reuniram por 40 minutos com suas respectivas comitivas.

Do lado brasileiro, da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, do embaixador do Brasil em Washington, Antonio Patriota, do assessor de Assuntos Internacionais do Governo, Marco Aurélio Garcia, e da embaixadora Maria Luara, chefe de Gabinete do chanceler Amorim.

Ao final do encontro, Obama acompanhou Lula até sua limusine, estacionada ao lado do Rose Garden, e se despediu, dizendo com a mão no ombro do brasileiro, "Nos vemos em Londres'', em referência ao encontro do G20, que será realizado na capital britânica, no próximo dia 2 de abril.

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