Fritzl se declara culpado de todas as acusações

Fritzl no julgamento
Image caption Fritzl mudou declaração no terceiro dia do julgamento

O austríaco Josef Fritzl, acusado de ter mantido a filha Elisabeth Fritzl presa no porão de sua casa por 24 anos, e de tê-la estuprado repetidas vezes, se declarou culpado de todas as acusações nesta quarta-feira, terceiro dia de seu julgamento em Sankt Pölten, na Áustria.

Fritzl disse que o depoimento de sua filha, exibido no tribunal na terça-feira, fez com que ele mudasse de ideia. Segundo o advogado dele, Rudolf Mayer, ver o depoimento de sua filha afetou-o profundamente, "destruindo" suas emoções.

A psiquiatra Adelheid Kastner, que traçou o perfil de Fritzl para o julgamento, recomendou que ele seja levado para um hospital psiquiátrico, para tratamento.

O réu, de 73 anos, é acusado de assassinato, coerção, prática de escravidão, incesto, estupro e cárcere privado. No início do julgamento, o réu havia se declarado inocente das acusações de assassinato e prática de escravidão, e apenas "parcialmente" culpado da acusação de estupro.

O assassinato prevê pena máxima de prisão perpétua. Pelos outros crimes, Fritzl poderia ser condenado a até 20 anos de prisão.

Os procedimentos da corte foram encerrados nesta quarta-feira, e a expectativa é de que o tribunal chegue a um veredicto na quinta-feira.

Desculpas

Vestindo um terno cinza e uma camisa azul, o réu não escondeu seu rosto ao entrar no tribunal nesta quarta-feira, como nos dias anteriores.

Na abertura da sessão, a juíza perguntou ao réu como ele se sentiu depois de assistir o depoimento gravado da filha.

Em voz baixa, Fritzl disse: "eu me declaro culpado".

"Sua filha disse a você que o bebê sofria de problemas respiratórios", disse a juíza. "Você teve tempo de procurar os primeiros socorros."

"Eu esperava que o pequeno sobrevivesse, mas eu devia ter feito alguma coisa. Eu não sei por que não ajudei. Eu simplesmente perdi a noção (da situação)", respondeu o réu.

Em seguida, ele pediu desculpas.

Falando em frente ao tribunal, depois da sessão, o advogado de Fritzl disse que o depoimento de Elisabeth fez com que ele visse, pela primeira vez, o impacto de suas ações.

"Eu fiquei muito, muito surpreso" pela mudança, disse Mayer, afirmando que Fritzl espera que a declaração de culpa ajude suas vítimas.

A psiquiatra Adelheid Kastner disse à corte que há riscos de Fritzl repetir o comportamento, se não for tratado. Ela afirmou que o réu tem imensa necessidade de poder e controle que, segundo ela, é fruto de sua infância.

Segundo a psiquiatra, Fritzl foi uma criança não desejada e sem amor, inteligente, e que cresceu determinado a possuir alguém que pertenceria somente a ele.

Ele é um deficiente emocional, disse ela, mas sabia o que estava fazendo.

Porão à prova de som

O tribunal assistiu o depoimento de Elisabeth Fritzl na terça-feira.

Segundo a mídia austríaca, membros da família estavam presentes no tribunal. Correspondentes da BBC confirmaram que havia pessoas em uma galeria particular, mas que não estava claro quem eram.

Fritzl atraiu a filha para o porão de sua casa - sem janelas e com quartos à prova de som - quando ela tinha 18 anos de idade.

Ele a manteve cativa no local por 24 anos, período no qual a estuprou repetidamente.

Elisabeth deu à luz sete filhos no porão de sua casa. Três das crianças viveram com ela, no porão, outros três filhos foram criados por Josef Fritzl e sua mulher, dentro de casa. O sétimo filho morreu pouco depois de nascer, com problemas respiratórios.

A acusação de assassinato se referia à morte deste filho, a quem Fritzl teria negado ajuda médica, segundo Elisabeth.

O caso veio à tona em abril do ano passado, quando uma das filhas de Elisabeth ficou profundamente doente e teve que ser levada para um hospital.

Elisabeth e os filhos que moravam no porão foram libertados na ocasião, e Josef Fritzl foi preso pouco depois.

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