Lula e Kirchner tiram disputas da agenda para evitar mal-estar

O presidente Lula e a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, em setembro de 2008 (Arquivo/ Roosewelt Pinheiro/ABr)
Image caption Divergências comerciais não devem estar na pauta de encontro

Os conflitos comerciais entre Brasil e Argentina foram retirados da pauta oficial do encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Cristina Kirchner, que acontece em São Paulo, nesta sexta-feira, segundo assessores dos dois governos.

De acordo com estes assessores, a medida foi tomada para tentar evitar um mal-estar durante a reunião entre os dois líderes.

Empresários e diplomatas dos dois países já haviam concordado que as recentes disputas comerciais deveriam ser discutidas entre as empresas, com a "tutela" de negociadores dos dois países, mas "sem fazer parte" da agenda oficial da reunião entre Lula e Cristina.

Um comunicado divulgado pelo Itamaraty na noite de quinta-feira, no entanto, informa que os dois presidentes terão um encontro de trabalho "para tratar de temas de interesse comum e para explorarem soluções conjuntas para preservar e ampliar o comércio bilateral e os investimentos".

Em São Paulo, a presidente estará acompanhada por 480 empresários e executivos argentinos que participam do seminário Semana da Argentina, organizado pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e pelo Ministério das Relações Exteriores do governo argentino.

Os presidentes encerram o seminário empresarial "Oportunidades de Comércio, Negócios e Investimentos entre a Argentina e o Brasil" e depois, segundo comunicado do Itamaraty, participam de almoço com empresários e governadores de Províncias argentinas.

Comércio bilateral

O comércio entre os dois países registrou uma queda de cerca de 45% em janeiro e fevereiro em relação ao mesmo período do ano passado, como recordou à BBC Brasil o analista Mauricio Claverí, economista da consultoria argentina Abeceb.

"No ano passado, o comércio entre Brasil e Argentina bateu a marca dos US$ 31 bilhões, mas, para este ano, esperamos uma queda em torno dos 15%", disse.

Segundo Claverí, o resultado é influência da crise internacional e da menor demanda por alguns produtos, como máquinas agrícolas brasileiras na Argentina.

Foi nesse clima que a Argentina impôs, recentemente, maior burocracia - as chamadas licenças não automáticas, que tornam mais lento o desembarque de mercadorias - para a entrada de uma série de produtos no país, muitos deles brasileiros.

A lista inclui eletrodomésticos, têxteis, máquinas agrícolas, entre outros.

Na semana passada, negociadores dos dois países reuniram-se em Buenos Aires para tentar uma solução, já que a medida argentina e a decisão do Brasil de aceitar limitar as vendas por cotas geraram críticas de diferentes setores empresariais brasileiros.

Uma nova reunião dos representantes de empresas brasileiras e argentinas foi marcada para a próxima quarta-feira, dia 25, na capital argentina, para discutir as diferenças comerciais.

Em um comunicado, o Ministério argentino da Produção afirmou esperar "que do encontro (do próximo dia 25) saiam os primeiros acordos setoriais, através de negociações diretas entre os empresários, sob a forma de cotas ou estabelecimento de preços mínimos".

G20

Em um discurso no final da tarde de quinta-feira, pouco antes de embarcar para São Paulo, Cristina afirmou que, durante o encontro com Lula, serão definidas "posturas conjuntas contra a crise (internacional)".

A presidente ainda afirmou que ela e Lula conversarão sobre a reunião de chefes de Estado do G20, que acontece no próximo dia 2 de abril, em Londres.

Enquanto o Brasil tem defendido menos protecionismo, a Argentina entende que deve "cuidar da sua indústria".

Na opinião de Mauricio Claverí, desta vez Brasil e Argentina chegarão ao encontro do G20 com um discurso mais afinado, já que a agenda não envolve questões comerciais, mas lavagem de dinheiro, reformas no FMI (Fundo Monetário Internacional) e créditos para países emergentes.

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