Morre o ex-presidente argentino Raúl Alfonsín

O ex-presidente argentino Raúl Alfonsín em foto de 1999 (AFP)
Image caption Alfonsín foi o primeiro presidente eleito após o fim do regime militar

O ex-presidente argentino Raúl Alfonsín (1983-1989) morreu na noite desta terça-feira, aos 82 anos de idade, segundo informaram as principais emissoras de televisão da Argentina.

Primeiro presidente eleito após o fim do regime militar no país, Alfonsín sofria câncer no pulmão há cerca de um ano e seu estado de saúde havia se complicado nos últimos dias, como confirmou seu médico particular, Alberto Sadler.

Sadler confirmou a morte do ex-presidente, dizendo que tudo ocorreu "com muita tranquilidade".

Segundo ele, Alfonsín estava dormindo, rodeado por familiares em seu apartamento, no bairro da Recoleta, em Buenos Aires. "Ele tinha um câncer de pulmão e a pneumonia complicou sua situação", disse o médico.

Democracia

Alfonsín é definido por populares e analistas de diferentes tendências como um político que "entrou para a história democrática argentina".

Ele deixou o governo seis meses antes do fim de seu mandato, em meio a uma grande crise econômica e um cenário de hiperinflação. Alfonsín foi sucedido por Carlos Menem.

Os principais canais de televisão da Argentina interromperam sua programação para informar a morte do primeiro presidente eleito no país após a ditadura militar, entre 1976 e 1983.

Após a divulgação da notícia, populares começaram a gritar o nome de Alfonsín na porta de sua residência, em Buenos Aires. Muitos choraram e acenderam velas.

O filho do ex-presidente, Ricardo Alfonsín, disse, mais cedo, que o pai já tinha experimentado "outros momentos delicados" desde que ficou doente, mas que, desta vez, não reagia aos medicamentos.

O governo argentino decretou luto oficial de três dias e o sepultamento do ex-presidente deve acontecer na próxima quinta-feira.

Histórico

Nascido em 12 de março de 1927 na cidade de Chascomús, na Província de Buenos Aires, Alfonsín se filiou em 1946 ao partido União Cívica Radical (UCR).

Advogado, antes de se tornar presidente, foi deputado provincial, nacional e senador.

Em 1966, foi preso pelo regime de Juan Carlos Onganía e, três meses antes do golpe militar de 1976, fundou a Assembleia Permanente pelos Direitos Humanos, responsável por denunciar os abusos da ditadura militar que se seguiu.

Foi eleito presidente da Argentina em 30 de outubro de 1983, após derrotar uma chapa do poderoso partido peronista.

Alfonsín foi empossado o primeiro presidente democraticamente eleito após o fim do regime militar em 10 de dezembro de 1983. Na mesma semana, assinou um decreto que ordenava o julgamento das juntas militares e de líderes guerrilheiros.

Em seu governo, também criou a Comissão Nacional para Desaparecidos (Conadep, na sigla em espanhol), que compilou denúncias sobre os abusos da ditadura. Estas denúncias foram fundamentais para a condenação de militares nos anos posteriores.

Suas ações não agradaram os militares e Alfonsín enfrentou três tentativas de golpe durante seu mandato. Junto com o então presidente do Brasil, José Sarney, Alfonsín assinou tratados de integração comercial entre Brasil e Argentina que resultaram, anos mais tarde, na criação do Mercosul.

Crise

O governo de Raúl Alfonsín, no entanto, também ficou marcado por uma profunda crise econômica na Argentina, que acabou fazendo com que ele renunciasse antes do final de seu mandato.

A grande dívida externa herdada pelos anos de ditadura e políticas econômica malsucedidas fizeram com que a Argentina mergulhasse em uma profunda crise.

Treze greves gerais foram registradas no período, ao mesmo tempo em que o presidente tinha dificuldade nas relações com empresários e banqueiros.

No último ano do governo Alfonsín, a inflação na Argentina atingiu a marca dos 4.923%.

As eleições de maio de 1989 deram vitória à chapa peronista liderada por Carlos Menem. No mesmo mês, Alfonsín pediu a renúncia ao Senado, antecipando a transferência do poder.

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