Argentina enfrenta surto inédito de dengue

Aedes aegypti (AP/arquivo)

Governo da Argentina tem feito campanhas de combate ao mosquito

Dados divulgados nesta segunda-feira pelo Ministério da Saúde da Argentina apontam que o país registrou 7.415 casos de dengue desde o início de 2009, no que está sendo considerado um surto histórico da doença no país.

O número de mortos pela doença já teria chegado a nove, segundo a imprensa local, mas o governo fala em apenas duas mortes por dengue hemorrágica confirmadas em todo o país.

Em entrevista à BBC Brasil, o diretor nacional de Prevenção de Doenças e Riscos do Ministério da Saúde, Hugo Fernández, afirmou que o número de afetados é inédito na história argentina.

"É um número inédito para nosso país", disse Fernández, que afirmou que a Argentina foi afetada, principalmente, pelo contágio da epidemia registrada na Bolívia, onde ocorreram cerca de 50 mil casos de dengue neste ano.

"A Província de Salta, na fronteira com a Bolívia, foi logo afetada. Depois, Salta passou para Jujuy, também no norte do país, e assim foi que hoje temos vários lugares com a presença da dengue", disse.

Quando perguntado se algum desses casos poderia ter sido "importado" do Brasil, ele respondeu: "Nosso problema hoje é, principalmente, efeito do que ocorreu na Bolívia".

Fernández recorda que a Argentina registrou uma epidemia de dengue em 1916 e que, depois disso, erradicou a doença, que é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti.

No final da década de 1980, surgiram casos isolados da doença e, em 1997, a dengue reapareceu no país.

Segundo Fernández, o recorde anterior havia sido em 2004, quando foram registrados 1.500 casos da doença.

Surto

De acordo com o diretor de Epidemiologia do Ministério da Saúde, Juan Carlos Bossio, atualmente, dezenove das 23 Províncias do país, além da capital federal, estão sendo afetadas pela doença.

Segundo ele, deste total, 13 Províncias foram atingidas pela "dengue importada" (de outra Província ou país vizinho) enquanto as outras seis têm casos próprios.

Bossio afirmou que, em determinadas localidades, como na Província do Chaco, existe um "surto epidêmico".

Também nesta segunda-feira, o governo da capital Buenos Aires anunciou que 133 casos de dengue foram registrados na cidade.

Para tentar combater o mosquito transmissor, o governo tem usado carros e caminhões para lançar inseticida e repelente em vários pontos de Buenos Aires e também de cidades das Províncias do norte do país.

"Mas este trabalho dos carros e caminhões não mata o ovo do mosquito. As pessoas precisam evitar água parada e tomar outras providências em casa", afirma a especialista Silvia González Ayala, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nacional de la Plata

As explicações básicas, tão conhecidas dos brasileiros, parecem novidade na Argentina. Uma novidade que está sendo repetida por meio de campanhas na imprensa local.

Motivos

Os especialistas tentam agora descobrir os motivos que levaram a dengue se intensificar na Argentina.

Para alguns, o motivo seria o aquecimento global e a presença prolongada do calor, como afirma Silvia Ayala.

Outros, como as autoridades da Província de Salta, no entanto, afirmam que a dengue é resultado da falta de saneamento básico e da pobreza em algumas regiões do país.

"A pobreza é a música de fundo de todas estas doenças, mas também tem gente com poder aquisitivo alto que está sofrendo com a dengue, talvez por não saber como evitar que o mosquito ganhe terreno", disse ao canal de televisão TN uma autoridade de epidemiologia de Salta, onde foram registrados mais de 1.000 casos de dengue.

Já o infectologista Tomás Orduna, do Hospital Muñiz, de Buenos Aires, afirma que a causa do surto pode ser a falta de prevenção.

"As cidades (da Argentina) estão cheias de garrafas, lixões, além de piscinas que não são usadas. O impacto da dengue poderia ter sido amenizado se não fossem esses pontos de criação do mosquito", disse.

Para o presidente da Federação Sindical de Profissionais de Saúde, Jorge Yabkowski, o surto de dengue na Argentina - país que já foi modelo no setor - "expõe a ausência de políticas públicas de saúde tanto do Estado nacional quanto das Províncias".

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