Obama encara Lula com confiança e Chávez com cautela, dizem analistas

Obama cumprimenta Lula na reunião do G20, em Londres
Image caption Obama expressou admiração por Lula na reunião do G20, em Londres

Os Estados Unidos de Barack Obama possuem ideias comuns com o Brasil e o líder americano deverá seguir mantendo uma boa relação pessoal com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas com o presidente venezuelano, Hugo Chávez, a situação é bem distinta, e a postura deverá ser a de manter certa distância, já que os americanos julgam o líder andino imprevisível.

É essa a opinião de especialistas em América Latina de instituições acadêmicas dos Estados Unidos consultados pela BBC Brasil.

''Brasil e Estados Unidos têm grande interesse em manter uma boa relação. Os brasileiros creem que essa amizade contribuirá para as aspirações internacionais do país. E o Brasil é um país capaz de manter boas relações tanto com Cuba, como Estados Unidos e Irã. Poucos países no mundo são capazes disso. E é válido para os americanos ter um amigo que se entende bem com seus adversários'', afirma Peter Hakim, diretor do instituto de pesquisas de Washington Inter American Dialogue.

Mas em relação a Hugo Chávez, Hakim acredita que Obama será ''extremamente cauteloso, porque nunca se sabe que rumo ele tomará. Ninguém deseja confrontá-lo, mas ele não é plenamente confiável, por isso é preciso manter certa distância''.

O governo do ex-presidente George W. Bush manteve uma relação tensa com Hugo Chávez. O venezuelano acusava o ex-líder dos Estados Unidos de haver dado apoio à tentativa de golpe realizada contra ele, em 2002.

Os representantes do antigo governo chegaram a adotar tática curiosa, a de evitar até mesmo mencionar o nome do rival, prática por vezes rompida, como na vez em que a então secretária de Estado, Condoleezza Rice, disse, durante uma audiência no Congresso americano, que Chávez estava destruindo a Venezuela, tanto do ponto de vista político como econômico.

Para Rob Wilson, especialista em Brasil do LBJ School of Public Affairs, da Universidade do Texas, em Austin, Obama deverá ver em ‘‘líderes moderados da esquerda, como Michelle Bachelet (do Chile) e Lula, parceiros com os quais ele poderá negociar''.

E Obama e Lula, acrescenta, provavelmente manterão um bom relacionamento pessoal. Mas com Chávez, afirma Wilson deverá ser diferente. ‘‘Ele é tão imprevisível, que será difícil para Obama fazer algo mais do que simplesmente estabilizar as relações entre Estados Unidos e Venezuela.''

Tarifa sobre o etanol

A despeito do clima de entendimento entre brasileiros e americanos, alguns impasses na relação entre as duas nações deverão prevalecer, no entender de analistas. Entre eles, a tarifa cobrada pelos Estados Unidos sobre o etanol brasileiro exportado para o mercado americano, de US$ 0,54 o galão.

‘‘Receio que isso não irá acabar. Os interesses de produtores de milho são extremamente fortes'', afirma Rob Wilson, em menção ao etanol produzido nos Estados Unidos, feito à base de milho, ao passo que o brasileiro é feito de cana-de-açúcar.

Peter Hakim conta também já ter falado sobre o possível fim das tarifas com diversas pessoas do governo atual, mas se houvesse, diz ele, ao menos alguma pequena disposição dos americanos em ceder, o tema já avançaria.

‘‘Se houvesse algum jeito de o governo Obama reduzir, ainda que modestamente, essa tarifa sobre o etanol, a base de cooperação entre Brasil e Estados Unidos seria bem ampliada; mesmo que substituíssemos a tarifa por um pequeno subsídio já seria um progresso. Como podemos ser parceiros, se na prática impomos uma barreira que exclui o produto deles de nosso mercado'', pergunta.

Hakim acredita que algumas das ações do presidente dos Estados Unidos para com a América Latina podem parecer meros gestos de boas intenções, mas têm implicações que vão além do simbolismo, e cita como exemplo as medidas tomadas em relação a Cuba.

Há poucas semanas, os americanos anunciaram que os cubano-americanos residentes nos Estados Unidos poderão enviar livremente remessas de dinheiro para seus parentes na ilha e viajar livremente para o país caribenho, pondo fim a restrições que estavam em vigor desde o segundo mandato de George W. Bush.

‘‘Pode parecer que é apenas uma ação simbólica, mas Obama deixou claro que é mais do que um gesto, é um primeiro passo'', comenta.

Para Rob Williams, para que a relação entre Cuba e Estados Unidos progrida, será preciso que os cubanos demonstrem reciprocidade, ‘‘caso contrário, os americanos não tomarão mais nenhuma medida no curto prazo''.