Israel realiza maior treinamento civil da história do país

Grafite nas ruas de Tel Aviv (Foto: Guila Flint)
Image caption Grafite em paredes e muros reflete clima de tensão em Israel

O governo de Israel realiza nesta semana um grande treinamento de retaguarda, que envolve todos os residentes do país e inclui simulações de ataques de mísseis às grandes cidades.

Nesta terça-feira, os alarmes soaram em todas as regiões de Israel, e os residentes foram instruídos a procurar um abrigo contra ataques de mísseis.

O exercício "Turning Point 3" (Ponto de Virada 3), definido pelas autoridades israelenses como o maior treinamento de defesa de retaguarda já realizado no país, desperta preocupação em países vizinhos.

O vice-ministro da Defesa de Israel, Matan Vilnai, afirmou que o exercício tem "apenas objetivos defensivos", mas os Exércitos do Líbano e do Irã e a milicia islâmica libanesa Hezbollah elevaram o nível de alerta em decorrência do treinamento.

O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, chegou a advertir que Israel estaria planejando um ataque contra o Líbano durante o treinamento. Segundo Vilnai, "o objetivo das sirenes é influenciar a consciência do público israelense".

"Todos os cidadãos devem saber que, em qualquer lugar e a qualquer momento, pode ocorrer um cenário de emergência, e devem saber como agir", afirmou o vice-ministro.

As sirenes de alarme soaram em todas as regiões do país às 11h no horário local (5h no horário de Brasília).

'Desprotegidos'

Na rua Alenby, uma das ruas centrais de Tel Aviv, em vez de procurar abrigo, os donos das lojas saíram para observar o comportamento das pessoas durante o exercício. Vários lojistas disseram à BBC Brasil que se sentem desprotegidos.

O centro antigo de Tel Aviv foi construído ainda na época do mandato britânico, há mais de 80 anos, e os prédios não têm abrigos antiaéreos.

A farmacêutica Tony Kostov, de 40 anos, disse que "não acredita que um cenário tão grave possa realmente acontecer". "Mas acho que a verdade é que não quero acreditar pois tenho medo", acrescentou.

Na farmácia de Kostov não há um abrigo nem um "espaço seguro". "Em caso de um ataque, ficaríamos dentro da farmácia, nem sei se há algum abrigo próximo para onde poderíamos correr nos três minutos que teríamos se Tel Aviv realmente fosse atacada por mísseis", disse.

Para o dono de uma tabacaria, Alexander Shteiner, de 71 anos, "esse cenário é possível". Shteiner afirma que "Israel tem que chegar a um acordo de paz para evitar que uma tragédia como essa aconteça".

"Se houver um ataque de verdade, pretendo fechar todas as portas de ferro da tabacaria e ficar aqui dentro", conta o israelense.

A tabacaria de Shteiner tem sete metros quadrados, mas ele diz que pode ficar lá fechado durante muito tempo. "Tenho ar condicionado e geladeira aqui dentro", revela.

Ultraortodoxo

Biniamin Mintzer, de 50 anos, é dono da loja de artigos religiosos "O Caminho da Tradição". Mintzer, que é ultraortodoxo, diz que confia que "há alguém lá em cima que não vai permitir que uma catástrofe dessas realmente aconteça".

Para Mintzer, "sem dúvida, os muçulmanos radicais estão planejando um grande ataque contra Israel, mas eles não vão conseguir alcançar seu objetivo de destruir Israel".

"Não acredito que um acordo de paz seja possível. Já tentamos, até retiramos os assentamentos da Faixa de Gaza, mas os muçulmanos radicais continuam se fortalecendo", afirmou. "Ficou provado que um acordo com eles é impossível".

Mintzer também não tem um abrigo na loja e, se houvesse um ataque, diz que ficaria dentro do local e "talvez" se esconderia "embaixo de uma mesa".

O prédio onde se encontra a livraria de Amir Hen foi construído há mais de 80 anos e também não tem um abrigo antiaéreo.

O livreiro afirma estar preocupado com o perigo de que Tel Aviv realmente seja atacada.

"Um grande ataque realmente pode acontecer, eu me surpreendo que não aconteceu até agora, pois se o Hamas, o Hezbollah e a Síria juntassem as forças contra Israel, poderiam causar danos muito graves", avalia Hen.

Campanha

O Comando de Retaguarda do Exército israelense, que dirige o treinamento, lançou uma campanha pelos meios de comunicação do país preparando o público para uma semana de atividades intensas das forças de segurança, com simulações de explosões nas grandes cidades e envenenamento de reservatórios de água.

O treinamento se baseia em um cenário de guerra simultânea com o Hamas, na Faixa de Gaza, o Hezbollah, no Líbano, e a Síria e envolve todas as forças de segurança e de salvamento, os diversos ministérios e todas as prefeituras.

O treinamento está sendo realizado inclusive nas escolas e asilos de idosos. Segundo o cenário, todo o território israelense seria atingido por foguetes e mísseis.

As autoridades divulgaram um mapa dividindo o país em 27 regiões e indicando, em cada região, quantos minutos ou segundos o cidadão teria para procurar um abrigo seguro.

Em Tel Aviv, por exemplo, os residentes teriam dois minutos para entrar no abrigo, ou no local mais seguro possível - de preferência, sem paredes externas. Em Jerusalém, o prazo seria de três minutos, mas em Sderot, cidade próxima à Faixa de Gaza, o prazo seria de apenas 15 segundos.

Nas cidades do norte do país, próximas à fronteira com o Líbano, como Carmiel, Tzfat e Aco, o prazo seria de 30 segundos.

O lema da campanha do Comando de Retaguarda é "estar preparado", ou seja, cada residente do país deve se preparar para a eventualidade de um ataque.

O treinamento agrava ainda mais o clima de tensão em Israel. Nas ruas de Tel Aviv, é possível ver um grafite que ilustra a situação, com desenhos de crianças brincando e, ao mesmo tempo, usando máscaras de gás.