Analista responde a perguntas sobre crise pós-eleitoral no Irã

Aiatolá Khamenei
Image caption A credibilidade do aiatolá Khamenei pode estar sob ameaça

O especialista em assuntos iranianos da BBC Sadeq Saba examinou as principais perguntas que surgem no âmbito das eleições presidenciais iranianas, contestadas pela oposição ao presidente reeleito, Mahmoud Ahmadinejad. Leia abaixo:

Quais são as provas de fraude eleitoral?

A forma com que o resultado das eleições foi apresentado é bastante incomum. Geralmente, em todas as eleições anteriores, o resultado da votação era anunciado província por província. Neste caso, os resultados foram divulgados em blocos de milhões de votos - em percentagens de votação.

À medida que esses blocos de votos eram divulgados, os percentuais atribuídos a cada candidato mudavam muito, muito pouco. Isso parece sugerir que Mahmoud Ahmadinejad se saiu bem tanto nas áreas rurais quanto urbanas. De maneira paradoxal, isso também sugere que os outros três candidatos derrotados se saíram igualmente mal em suas regiões e províncias de origem. Isso vai contra todos os precedentes da política iraniana. Sabemos que Ahmadinejad é muito popular em áreas rurais e impopular nas grandes cidades. Também sabemos que nas áreas onde há minorias regionais e nacionais, candidatos contrários ao governo tendem a se sair muito bem. Os candidatos tendem a vencer em suas províncias de origem. Mas não dessa vez. As autoridades não deram explicação para nada disso, apesar de perguntas terem sido feitas repetidas vezes. Tudo é muito suspeito, mas não significa, necessariamente, que tenha havido fraude em grande escala. O quão organizada é a oposição a Ahmadinejad? Mir Hossein Mousavi não tem uma organização que o apoie. Antes de declarar sua candidatura às eleições presidenciais ele estava numa situação de semi-aposentadoria havia mais de 20 anos.

Entretanto, as três principais organizações reformistas do Irã o apoiaram na eleição. Ele não lidera esses grupos. Esses grupos são altamente organizados e bem apoiados - constituem uma espécie de oposição organizada. São muito populares entre os jovens e entre estudantes, e podem mobilizar milhares usando a internet e outros meios. Acredito que os protestos irão continuar - as agremiações reformistas emitiram um comunicado afirmando que houve um golpe de Estado. O líder supremo do Irã apoia Ahmadinejad por completo? A política iraniana é opaca, mas até onde sabemos Ahmadinejad tem o apoio integral do líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei.

Antes das eleições, o líder supremo apoiou repetidamente o presidente, afirmando que ele era o melhor presidente que o país teve desde a revolução (em 1979), e que sua política externa estava correta. Nada aconteceu durante a campanha ou desde que o resultado foi anunciado que sugira que isso tenha mudado. O aiatolá Khamenei foi muito rápido em reconhecer e elogiar o resultado das eleições, apesar de ele ter pedido ao Conselho Guardião que investigue por completo as acusações de fraude. A posição ou a credibilidade do líder supremo estão sob algum tipo de risco? A credibilidade do aiatolá Khamenei pode estar sob ameaça. Um clérigo respeitado, Mohsen Kadivar, questionou por que o líder supremo reconheceu os resultados das eleições tão rapidamente, antes de elas terem sido legalmente ratificadas pelo Conselho dos Guardiães. O aiatolá Khamenei foi amplamente criticado por ser muito próximo a Ahmadinejad. O líder supremo deve ficar acima da política, considerada frágil e vulnerável a facções. E agora? Os confrontos podem ser desmobilizados? O Conselho dos Guardiães tem 10 dias para decidir se ratifica ou não o resultado das eleições ou se pede outra votação. O órgão pediu que os candidatos derrotados apresentem provas de fraude eleitoral. Então há meios legais de se reverter a situação. Mas isso seria uma reviravolta imensa e uma grande derrota para o presidente e para o líder supremo - por isso é muito pouco provável que aconteça.

Dito isso, não prevejo que as demonstrações arrefeçam. Elas muito provavelmente ganharão força e se alastrarão, já que as pessoas se ressentem da repressão. O líder supremo está acima da lei e pode decretar que um acordo seja alcançado. Ele pode argumentar que o Islã ou o país estão sob ameaça. A sociedade iraniana é muito, muito polarizada - economicamente, socialmente, em termos de gênero ou em bases religiosas - e isso é o que estamos vendo. Francamente, esse tipo de protesto deveria ser esperado, independentemente do resultado das eleições.