Mais de 100 mil vão às ruas de Teerã em 'dia de luto'

Manifestantes protestam em "dia de luto" no Irã
Image caption Manifestantes realizaram marcha para lembrar mortos em protestos

Mais de 100 mil pessoas, muitas delas vestidas de preto, realizaram nesta quinta-feira uma marcha pela capital do Irã, Teerã, no que foi chamado pela oposição de "dia de luto" pelos oito manifestantes mortos em protestos no início desta semana.

A marcha, convocada pelo candidato reformista derrotado nas eleições, Mir-Hossein Mousavi, marcou o sexto dia consecutivo de protestos contra o resultado do pleito no Irã, que reelegeu o presidente Mahmoud Ahmadinejad com mais de 62% dos votos.

Mousavi pediu que os manifestantes vestissem preto em memória das oito pessoas que foram mortas a tiros por membros da milícia pró-governo Basij em um protesto na segunda-feira.

Muitos dos manifestantes nesta quinta-feira carregavam cartazes com fotos dos mortos ou frases como "Por que vocês mataram nossos irmãos?".

Mousavi também participou do protesto, vestindo terno e camisa pretos. Ele falou aos manifestantes por meio de um megafone.

Segundo a Press TV, a versão em inglês da TV estatal iraniana, o pronunciamento de Mousavi foi breve e ele pediu calma aos manifestantes.

A BBC e outras empresas de comunicação estrangeiras estão sofrendo restrições ao seu trabalho no Irã. Os repórteres estão proibidos de cobrir manifestações não-autorizadas e também não podem circular livremente por Teerã.

A repórter Marie Colvin, do jornal britânico Sunday Times, que está em Teerã, disse à BBC que tanto apoiadores da oposição quanto partidários do governo parecem estar tentando evitar maiores confrontos. No entanto, segundo Colvin, é muito difícil prever o que pode acontecer e a situação permanece tensa.

Outras cidades também realizaram protestos nesta quinta-feira em luto pelos mortos. "Há cerca de 2 mil ou 3 mil pessoas aqui, todas sentadas e em silêncio. A polícia não vai fazer nada, porque estamos em um local sagrado', disse à BBC um manifestante que participou do protesto em um santuário na cidade de Shiraz, no sudoeste do Irã.

Investigação

Mousavi e os outros dois candidatos derrotados - o conservador Mohsen Rezai e o reformista Mehdi Karroubi - alegam que houve fraude na votação. Diante das denúncias, o mais alto órgão legislativo do Irã, o Conselho dos Guardiões, disse que está investigando 646 alegações de irregularidades feitas pelos três candidatos.

O Conselho dos Guardiões disse que convidou os candidatos para uma reunião no sábado, para discutir as queixas. "Nós decidimos convidar pessoalmente os candidatos e os que têm queixas em relação à eleição para participarem de uma sessão extraordinária do Conselho dos Guardiões no sábado", afirmou o porta-voz do conselho, Abbasali Khadkhodai.

Ainda não se sabe se os candidatos aceitaram o convite. O correspondente da BBC em Teerã, Jon Leyne, disse que é pouco provável que os candidatos estejam otimistas quanto ao resultado deste encontro. O conselho, formado por seis clérigos e seis advogados, tradicionalmente é leal ao líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.

Em meados desta semana, o conselho disse que realizaria uma recontagem parcial dos votos, mas descartou a possibilidade de realizar nova eleição, como queriam os partidários de Mousavi.

Nesta quinta-feira, Ahmadinejad voltou à TV estatal e, aparentemente, tentou amenizar comentários recentes em que comparava os manifestantes a torcidas de times de futebol.

"Eu me referi àqueles que incendiaram (prédios) e atacaram pessoas", disse. "Eu disse que esses indivíduos (...) são estranhos à nossa nação."

O presidente reeleito disse ainda que a vitória no pleito "pertence aos 70 milhões de iranianos e aos 40 milhões que participaram da votação".

Nesta sexta-feira, os iranianos aguardam um pronunciamento do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.

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