Conselho dos Guardiões reconhece irregularidades em eleições no Irã

Manifestantes no Irã
Image caption Irã foi palco de protestos durante toda a semana passada

O orgão que supervisiona as eleições no Irã, o Conselho dos Guardiões, reconheceu nesta segunda-feira que houve irregularidades em mais de 50 zonas eleitorais nas eleições presidenciais do último dia 12.

O conselho declarou que o número de votos contados em 50 cidades ultrapassou o de eleitores registrados, mas acrescentou que isso não iria afetar o resultado geral da eleição, vencida pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Também nesta segunda-feira, o Ministério do Exterior iraniano acusou países ocidentais de inflamar os protestos contra o resultado das eleições, espalhando “vandalismo e anarquia”. Um porta-voz do governo disse que a mídia estrangeira é “porta-voz” de governos inimigos que buscam a desintegração do Irã. Teerã amanheceu quieta, mas tensa, nesta segunda-feira, com segurança reforçada nas ruas para evitar novos protestos como os vistos na semana passada. O candidato presidencial derrotado, Mir Hossein Mousavi, afirma que houve fraude a favor do atual presidente Mahmoud Ahmadinejad, e exige a convocação de uma nova eleição. Mousavi pediu aos seus simpatizantes que continuem os protestos, mas sem colocar suas vidas em risco. Pelo menos dez pessoas teriam sido mortas em choques entre forças de segurança e manifestantes, durante os protestos de sábado. Outras 457 teriam sido presas por conta da violência, de acordo com a rádio estatal iraniana. A violência se seguiu a um alerta do líder supremo do Irã na sexta-feira, Aiatolá Ali Khamenei, que afirmou que novos protestos contra os resultados da eleição não serão tolerados. Os protestos começaram depois que Ahmadinejad foi declarado o vencedor nas eleições do último dia 12. Os resultados mostraram a vitória de Ahmadinejad por larga vantagem, com 63% dos votos, quase o dobro de Mousavi, o segundo colocado. Contatando o inimigo Falando em uma conferência de imprensa nesta segunda-feira, o porta-voz do Ministério do Exterior Hassan Qashqavi acusou os governos ocidentais de apoiar abertamente os violentos protestos, com o objetivo de minar a estabilidade da República Islâmica do Irã. “A difusão de anarquia e vandalismo por potencias ocidentais e pela mídia ocidental... não será aceita”, disse ele. Segundo o porta-voz, o Ocidente está agindo de maneira “antidemocrática”, em vez de elogiar o compromisso do Irã com a democracia. Ele ainda voltou a lembrar que o resultado da eleição não será anulado. Nos últimos dias, o Irã vem criticando fortemente os governos americano e britânico, e Qashqavi citou nominalmente a BBC e a rede Voz da América, qualificadas por ele como “canais do governo”. Desde a semana passada, a BBC e outras empresas estrangeiras de mídia vêm reportando do Irã sob severas restrições. No domingo, o governo pediu ao correspondente permanente da BBC em Teerã, Jon Leyne, que deixe o país. “Eles (a BBC e a Voz da América) são porta-vozes da diplomacia pública de seus governos”, disse Qashqavi. “Eles têm duas orientações em relação ao Irã: primeiro, intensificar divisões éticas e raciais dentro do Irã e, segundo, desintegrar os territórios iranianos.” “Qualquer contato com algum desses canais, sob qualquer pretexto ou qualquer forma, significa contatar o inimigo da nação iraniana.” Calma Testemunhas disseram que não houve comícios na capital no domingo, um dia depois da provável morte de 10 manifestantes em choques com a polícia. Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, 23 jornalistas locais e blogueiros foram presos na última semana. Entre os detidos nos últimos dias, estavam vários membros da família de Akbar Hashemi Rafsanjani – um poderoso opositor a Ahmadinejad. Segundo analistas, as prisões foram uma surpresa, já que Rafsanjani é o líder da Assembléia dos Especialistas – um grupo dirigido por clérigos que tem poder para remover o líder supremo do Irã. Todos os seus parentes, no entanto, teriam sido soltos até a noite de domingo. Mousavi, cujos simpatizantes formam a grande maioria dos manifestantes, pediu a eles que continuem os protestos. “Protestar contra mentiras e fraude é seu direito. Em seus protestos, continuem a demonstrar calma”, disse um comunicado em seu website. De acordo com analistas, as declarações de Mousavi e os protestos nas ruas são o maior desafio já enfrentado pelo Estado em seus 30 anos de existência como república islâmica. No domingo, milhares de agentes de segurança patrulhavam as ruas, mas não houve protestos. Segundo o correspondente da BBC em Teerã Jeremy Bowen, muitos moradores do norte da cidade – a parte rica – podiam ser ouvidos gritando “morte ao ditador” e “Deus é grande” do alto de seus telhados, no domingo à noite. Os gritos se tornaram uma forma popular de protesto e segundo Bowen, o coro de domingo à noite foi mais alto do que o dos dias anteriores.

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